O escaravelho é o amuleto mais comum do antigo Egito. Foram feitos em enorme quantidade, em pedra e faiança, e hoje estão em quase todos os museus com coleções egípcias.
Na origem está um pequeno inseto real — o escaravelho-sagrado (Scarabaeus sacer), que faz bolas de estrume e as rola pelo chão — e um deus: Khepri, o sol da manhã.
Nesta página vemos o que o escaravelho significava para os egípcios, como era usado e o que é o famoso escaravelho do coração.
Ficha
| Campo | Informação |
|---|---|
| Nome | Escaravelho (amuleto); em egípcio, ligado à palavra kheper |
| Outros nomes | Escaravelho sagrado, escarabeu |
| Origem mais antiga conhecida | Egito; comum a partir do fim do Primeiro Período Intermediário (c. 2055 a.C.) |
| Culturas | Egípcia; depois cananeia, fenícia e púnica |
| Significados | Sol nascente, renascimento, «vir a ser», proteção |
| Materiais | Esteatite vidrada, faiança egípcia, jaspe verde, cornalina, ametista |
O inseto e o deus Khepri
Os egípcios observavam o escaravelho a empurrar uma bola de estrume pelo chão. Viram nisso uma imagem do sol a atravessar o céu, de oriente para ocidente.
Viam também pequenos escaravelhos a sair da bola já formados (na realidade, dos ovos postos lá dentro). Daí a ideia de que o inseto nascia de si próprio — tal como o sol renasce todas as manhãs.
O deus Khepri personificava o sol nascente. Era representado como um escaravelho a empurrar o disco solar, ou como um homem com cabeça de escaravelho. No ciclo solar, Khepri era o sol da manhã, Rá o do meio-dia e Atum o da tarde. O seu principal centro de culto era Heliópolis.
O nome vem do verbo kheper: «vir a ser», «transformar-se», «nascer». É o coração do simbolismo do escaravelho: renovação e renascimento.
➜ Ankh
Amuletos e selos
Os amuletos em forma de escaravelho tornaram-se muito comuns no fim do Primeiro Período Intermediário, por volta de 2055 a.C., e ainda mais no Império Médio.
Tinham duas funções principais:
- Amuleto: usado ao pescoço, em anéis ou pulseiras, como proteção e sinal de renovação.
- Selo: a base plana era gravada com nomes, títulos ou desenhos, e servia para selar documentos e recipientes. No Império Médio, funcionários gravavam neles o seu nome e cargo.
A maioria era feita de esteatite (pedra-sabão) vidrada de azul ou verde. Com o tempo, o vidrado perdeu-se, e por isso muitos parecem hoje brancos ou castanhos. O tamanho habitual era de 1 a 2 cm.
Os escaravelhos de Amenhotep III
O faraó Amenhotep III (séc. XIV a.C.) mandou fazer escaravelhos grandes, de 3,5 a 10 cm, com longas inscrições sobre cinco acontecimentos do seu reinado — como caçadas ou o seu casamento. Eram distribuídos como propaganda real. Conhecem-se mais de 200.
O escaravelho do coração
Para os egípcios, o coração era a sede do pensamento e da memória. No julgamento após a morte, o coração era pesado numa balança contra a pena de Maat, deusa da verdade e da justiça. Se pesasse demasiado, era devorado pela deusa Ammit, e o morto sofria uma «segunda morte».
O escaravelho do coração era colocado sobre o peito da múmia para proteger este momento. Tinha gravado, na base, o capítulo 30B do Livro dos Mortos, em que o morto pede ao seu coração que não testemunhe contra ele perante os deuses.
- Os mais antigos conhecidos datam de c. 1690 a.C. (XVI–XVII dinastias).
- Eram geralmente de pedra verde escura: jaspe verde, serpentina, basalto.
- No Império Novo mediam 4 a 5 cm.
A partir da XXV dinastia, surgem também escaravelhos alados, cosidos sobre o peito das múmias. No túmulo de Tutankhamon encontrou-se um pendente com um escaravelho alado e o olho de Hórus.
Do Egito ao Mediterrâneo — e à Península Ibérica
Os escaravelhos saíram do Egito. Desde a Idade do Bronze foram importados e imitados no Levante, com estilos locais. Mais tarde, os gravadores fenícios adotaram a forma (séc. VI–IV a.C.).
Muitos destes escaravelhos foram encontrados em necrópoles púnicas de Cartago, da Sardenha e de Ibiza — o que mostra que o amuleto chegou, pelas rotas púnicas, às Baleares, junto à Península Ibérica.
Hoje: egiptomania e cópias
O escaravelho é um dos grandes ícones da egiptomania, em joalharia, literatura e cinema. Muitos dos «escaravelhos antigos» vendidos a turistas são cópias modernas.
Hoje, quem usa um escaravelho fá-lo como adorno ou por crença pessoal no seu simbolismo de renovação. Não tem efeito comprovado.
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Fontes
- «Scarab (artifact)», Wikipedia (com bibliografia) — en.wikipedia.org
- «Heart scarab», Wikipedia — en.wikipedia.org
- «Khepri», Wikipedia — en.wikipedia.org
- Carol Andrews, Amulets of Ancient Egypt, British Museum Press, 1994