Quase todas as culturas têm uma palavra para aquilo que faz de um corpo uma pessoa viva. Em português, essa palavra é alma.
Mas «alma» não significou sempre o mesmo. Para uns é o sopro da vida; para outros, uma parte imortal que sobrevive à morte; para outros ainda, algo que renasce noutro corpo.
Esta página explica de onde vem a ideia e como as grandes tradições a entendem. A existência da alma é uma questão de fé e de filosofia, não algo que a ciência possa confirmar ou negar em laboratório.
A palavra: um sopro
A palavra portuguesa «alma» vem do latim anima, ligado à ideia de sopro ou respiração. O grego psyché tem o mesmo sentido original: respirar.
Não é coincidência. Para os antigos, a diferença entre um vivo e um morto era visível no último suspiro. A alma era, antes de mais, aquilo que «saía» com a respiração.
A alma na Grécia antiga
Homero
Nos poemas homéricos, a psyché abandona o corpo na morte e desce ao Hades como uma sombra pálida, sem força nem alegria. Não é ainda a alma gloriosa das religiões posteriores.
Platão
Com Platão (séc. IV a.C.), a alma torna-se imaterial e imortal. No diálogo Fédon, Sócrates defende que a alma continua a pensar depois da morte do corpo.
Na República, Platão divide a alma em três partes: a razão, a coragem e os desejos.
Aristóteles
Aristóteles, no tratado Sobre a Alma (De Anima), vê a alma de outro modo: é o princípio que organiza e dá vida a um corpo. Plantas e animais também têm alma, cada um ao seu nível.
A alma na tradição judaica e cristã
Na Bíblia hebraica, as palavras mais próximas são nefesh (o ser vivo, a vida) e ruach (sopro, espírito). A ênfase está na pessoa inteira, não numa alma separada do corpo.
O cristianismo juntou esta herança bíblica à filosofia grega. Santo Agostinho e, mais tarde, São Tomás de Aquino (séc. XIII) defenderam que a alma humana é espiritual e não se destrói com a morte.
Alguns marcos da doutrina católica:
- Concílio de Vienne (1312): a alma é a «forma» do corpo, isto é, o que faz dele um corpo humano vivo.
- V Concílio de Latrão (1513): afirma a imortalidade da alma de cada pessoa.
- Catecismo da Igreja Católica (§362–368): a alma é criada diretamente por Deus, é imortal e voltará a unir-se ao corpo na ressurreição final.
Note-se: o cristianismo não ensina a reencarnação. Ensina uma só vida, seguida de juízo e ressurreição.
A alma que renasce
Noutras tradições, a alma (ou algo parecido) passa por várias vidas:
- Hinduísmo: o ātman, o eu profundo, renasce até se libertar do ciclo das reencarnações (samsara).
- Budismo: nega um eu permanente (anātman), mas aceita o renascimento, movido pelo karma.
- Espiritismo: Allan Kardec, em O Livro dos Espíritos (1857), ensina que o espírito reencarna para progredir moralmente.
➜ Karma
A alma na tradição portuguesa
Em Portugal, a crença nas almas dos mortos marcou a paisagem. As alminhas, pequenos painéis à beira dos caminhos, pedem a quem passa uma oração pelas almas do Purgatório.
O Dia de Finados, a 2 de novembro, e as orações pelos defuntos continuam vivos em muitas famílias.
E a ciência?
A neurociência estuda a mente, a memória e a consciência através do cérebro. Não encontrou uma alma, mas também não é essa a sua pergunta.
Se existe algo em nós que sobrevive à morte é uma questão que a ciência não consegue testar. Cada pessoa responde a ela com a sua fé, a sua filosofia ou a sua dúvida.
Desconfie de quem diz ter «provas científicas» da alma, ou quem afirma ver «feridas na alma» que só um ritual pago pode curar. Se o sofrimento é emocional, um psicólogo pode ajudar, e isso não é incompatível com a fé.
Continue a ler
➜ A aura
Fontes
- «Soul», Wikipedia — en.wikipedia.org
- Platão, Fédon; Aristóteles, Sobre a Alma (De Anima).
- Catecismo da Igreja Católica, §362–368.
- Allan Kardec, O Livro dos Espíritos, 1857.