Na noite de 23 para 24 de junho, Portugal faz a sua festa mais antiga e mais cheia de crenças. Há fogueiras, manjericos, alho-porro, martelinhos, sardinhas e orvalho. E, nas lendas, há mouras a pentear-se nas fontes e tesouros prestes a desencantar.
Esta é a página central sobre a noite. Explica de onde vem a data, o que dizem os documentos antigos, o que é tradição e o que é hipótese, e encaminha para as páginas específicas: ervas, sortes de amor, solstício e santos populares.
Ficha
| Campo | Informação |
|---|---|
| Data | Noite de 23 para 24 de junho |
| Santo | São João Batista (festa do nascimento) |
| Onde é maior | Porto e Braga (feriado municipal a 24); muitas outras terras |
| Elementos | Fogo, água, ervas, sortes |
| Referência portuguesa antiga | Fernão Lopes, Crónica de D. João I (séc. XV) |
| Ligação ao solstício | Próxima no calendário; origem pré-cristã é hipótese |
Porque é a 24 de junho
O dia 24 de junho celebra o nascimento de São João Batista. É uma das raras festas de santos que não marca a morte, mas o nascimento.
A data vem do Evangelho de Lucas: quando o anjo anuncia a Maria que vai ser mãe, Isabel, mãe de João, já está «no sexto mês» (Lc 1,36). Se o Natal é a 25 de dezembro, João teria nascido seis meses antes. A Igreja fixou a festa nesse dia desde a Antiguidade tardia.
A festa começa na véspera, como era costume medieval. Por isso a grande noite é a de 23 para 24.
Solstício: facto e hipótese
Facto astronómico: o solstício de verão acontece entre 20 e 22 de junho, poucos dias antes. É o tempo dos dias mais longos do ano.
Hipótese: muitos autores ligam as fogueiras, a água e as ervas desta noite a festas do solstício anteriores ao cristianismo. É uma ideia plausível e o etnógrafo Ernesto Veiga de Oliveira aceitava-a, notando que a diferença de dias não é um problema.
Mas atenção: os registos escritos das fogueiras de São João são cristãos e medievais. Uma das referências mais antigas é do teólogo Jean Beleth, em Paris, no século XII. A ligação a cultos pagãos concretos não está documentada em Portugal.
A festa em Portugal: o que dizem os documentos
O cronista Fernão Lopes, no século XV, conta na Crónica de D. João I que no Porto se organizou um torneio «em vespera de sam Joham». É um dos registos portugueses mais antigos da noite como tempo de festa na cidade.
Mais tarde a festa ficou ligada a duas cidades:
- Porto, onde o dia 24 é feriado municipal desde uma escolha feita em 1911;
- Braga, onde São João é também a grande festa da cidade e feriado municipal.
Celebra-se em muitas outras terras, e os portugueses levaram-na para o Brasil, onde deu origem às festas juninas.
Os quatro elementos da noite
Fogo
As fogueiras são a imagem mais antiga. Juntavam a vizinhança, queimavam-se nelas ervas de cheiro e saltava-se por cima, às vezes em pares. Na tradição, o fogo desta noite trazia sorte, saúde e fertilidade. É uma crença, não um efeito.
Água
A madrugada de São João era o tempo da água «benta» pela natureza: o orvalho com que se lavava a cara, os banhos em rios e no mar ao amanhecer, a água das fontes onde apareciam as mouras.
Ervas
Alho-porro, manjerico, cidreira, alecrim, rosmaninho, alcachofra. Cada uma tem o seu papel e está explicada noutra página.
Sortes
A noite era a das adivinhações de amor: a alcachofra queimada, a clara de ovo num copo, o orvalho. São jogos populares, não previsões.
➜ As sortes da noite de São João
O Sol que dança
Uma crença menos conhecida foi registada por José Leite de Vasconcelos em 1882, nas Tradições Populares de Portugal: na manhã de São João, o Sol nasce a dançar.
Ouvia-se isto em Penafiel, Vila do Conde, Leça do Balio e no Porto. Para «ver» a dança, dizia-se que bastava pôr um lenço de seda diante dos olhos ou olhar o reflexo do Sol numa bacia de água.
O efeito explica-se pela tremura do ar e da água, não por um milagre. E um aviso importante: nunca olhe diretamente para o Sol, nem por um lenço. Pode causar lesões graves e permanentes nos olhos.
Noite de mouras e tesouros
Nas lendas, esta é a noite em que o outro mundo se abre. As mouras encantadas aparecem junto às fontes a pentear os cabelos de ouro, e é a altura em que um encanto pode ser quebrado.
O investigador Alexandre Parafita aponta o São João como um dos momentos propícios para desencantar tesouros nas lendas de Trás-os-Montes.
São lendas, contadas como tal. Não há registo de ninguém que tenha encontrado ouro nesta noite.
Antigo e moderno: o que é o quê
| Costume | Idade |
|---|---|
| Festa de São João na véspera | Medieval (documentada no séc. XV no Porto) |
| Fogueiras e saltos | Antiga; origem exata desconhecida |
| Orvalho, ervas e sortes | Registados pelos etnógrafos dos sécs. XIX–XX |
| Cascatas sanjoaninas | Século XIX |
| Martelinho de plástico | Século XX (1963, segundo o Observador) |
| Alho-porro para bater na cabeça | Mais antigo que o martelinho, que o substituiu em parte |
Segurança
- Não salte fogueiras, sobretudo com crianças ou depois de beber álcool. Todos os anos há queimaduras.
- Faça fogo só em locais autorizados e respeite as proibições em períodos de risco de incêndio.
- Balões de papel com chama podem cair acesos em mato e telhados.
- Ervas da noite não se comem sem saber o que são.
➜ Como usar velas com segurança
Continue a ler
➜ Tesouros encantados nas lendas portuguesas
➜ Fontes, árvores e pedras sagradas em Portugal
Fontes
- Maria José Araújo, «Simbolismos alimentares e manjares da noite mais longa do Porto», Redalyc — redalyc.org
- José Leite de Vasconcelos, Tradições Populares de Portugal, Porto, 1882, § 15 — archive.org
- «Tudo o que precisa de saber sobre São João», Observador — observador.pt
- «Saint John's Eve», Wikipedia — en.wikipedia.org; «Festa de São João do Porto», Wikipédia — pt.wikipedia.org
- Ernesto Veiga de Oliveira, Festividades Cíclicas em Portugal, Lisboa, Dom Quixote, 1984