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🏺 Tradição Portuguesa

Noite de São João em Portugal

A noite de São João em Portugal: porque é a 24 de junho, as fogueiras, o orvalho, o Sol que «dança», mouras e tesouros, o que é antigo e o que é moderno.

5 min de leitura · Revisto em
Neste artigo
  1. Ficha
  2. Porque é a 24 de junho
  3. Solstício: facto e hipótese
  4. A festa em Portugal: o que dizem os documentos
  5. Os quatro elementos da noite
  6. O Sol que dança
  7. Noite de mouras e tesouros
  8. Antigo e moderno: o que é o quê
  9. Segurança
  10. Continue a ler
  11. Fontes

Na noite de 23 para 24 de junho, Portugal faz a sua festa mais antiga e mais cheia de crenças. Há fogueiras, manjericos, alho-porro, martelinhos, sardinhas e orvalho. E, nas lendas, há mouras a pentear-se nas fontes e tesouros prestes a desencantar.

Esta é a página central sobre a noite. Explica de onde vem a data, o que dizem os documentos antigos, o que é tradição e o que é hipótese, e encaminha para as páginas específicas: ervas, sortes de amor, solstício e santos populares.

Ficha

Campo Informação
Data Noite de 23 para 24 de junho
Santo São João Batista (festa do nascimento)
Onde é maior Porto e Braga (feriado municipal a 24); muitas outras terras
Elementos Fogo, água, ervas, sortes
Referência portuguesa antiga Fernão Lopes, Crónica de D. João I (séc. XV)
Ligação ao solstício Próxima no calendário; origem pré-cristã é hipótese

Porque é a 24 de junho

O dia 24 de junho celebra o nascimento de São João Batista. É uma das raras festas de santos que não marca a morte, mas o nascimento.

A data vem do Evangelho de Lucas: quando o anjo anuncia a Maria que vai ser mãe, Isabel, mãe de João, já está «no sexto mês» (Lc 1,36). Se o Natal é a 25 de dezembro, João teria nascido seis meses antes. A Igreja fixou a festa nesse dia desde a Antiguidade tardia.

A festa começa na véspera, como era costume medieval. Por isso a grande noite é a de 23 para 24.

➜ Santos populares

Solstício: facto e hipótese

Facto astronómico: o solstício de verão acontece entre 20 e 22 de junho, poucos dias antes. É o tempo dos dias mais longos do ano.

Hipótese: muitos autores ligam as fogueiras, a água e as ervas desta noite a festas do solstício anteriores ao cristianismo. É uma ideia plausível e o etnógrafo Ernesto Veiga de Oliveira aceitava-a, notando que a diferença de dias não é um problema.

Mas atenção: os registos escritos das fogueiras de São João são cristãos e medievais. Uma das referências mais antigas é do teólogo Jean Beleth, em Paris, no século XII. A ligação a cultos pagãos concretos não está documentada em Portugal.

➜ Solstício de verão

A festa em Portugal: o que dizem os documentos

O cronista Fernão Lopes, no século XV, conta na Crónica de D. João I que no Porto se organizou um torneio «em vespera de sam Joham». É um dos registos portugueses mais antigos da noite como tempo de festa na cidade.

Mais tarde a festa ficou ligada a duas cidades:

  • Porto, onde o dia 24 é feriado municipal desde uma escolha feita em 1911;
  • Braga, onde São João é também a grande festa da cidade e feriado municipal.

Celebra-se em muitas outras terras, e os portugueses levaram-na para o Brasil, onde deu origem às festas juninas.

Os quatro elementos da noite

Fogo

As fogueiras são a imagem mais antiga. Juntavam a vizinhança, queimavam-se nelas ervas de cheiro e saltava-se por cima, às vezes em pares. Na tradição, o fogo desta noite trazia sorte, saúde e fertilidade. É uma crença, não um efeito.

Água

A madrugada de São João era o tempo da água «benta» pela natureza: o orvalho com que se lavava a cara, os banhos em rios e no mar ao amanhecer, a água das fontes onde apareciam as mouras.

Ervas

Alho-porro, manjerico, cidreira, alecrim, rosmaninho, alcachofra. Cada uma tem o seu papel e está explicada noutra página.

➜ As ervas de São João

Sortes

A noite era a das adivinhações de amor: a alcachofra queimada, a clara de ovo num copo, o orvalho. São jogos populares, não previsões.

➜ As sortes da noite de São João

O Sol que dança

Uma crença menos conhecida foi registada por José Leite de Vasconcelos em 1882, nas Tradições Populares de Portugal: na manhã de São João, o Sol nasce a dançar.

Ouvia-se isto em Penafiel, Vila do Conde, Leça do Balio e no Porto. Para «ver» a dança, dizia-se que bastava pôr um lenço de seda diante dos olhos ou olhar o reflexo do Sol numa bacia de água.

O efeito explica-se pela tremura do ar e da água, não por um milagre. E um aviso importante: nunca olhe diretamente para o Sol, nem por um lenço. Pode causar lesões graves e permanentes nos olhos.

Noite de mouras e tesouros

Nas lendas, esta é a noite em que o outro mundo se abre. As mouras encantadas aparecem junto às fontes a pentear os cabelos de ouro, e é a altura em que um encanto pode ser quebrado.

O investigador Alexandre Parafita aponta o São João como um dos momentos propícios para desencantar tesouros nas lendas de Trás-os-Montes.

São lendas, contadas como tal. Não há registo de ninguém que tenha encontrado ouro nesta noite.

➜ As mouras encantadas

Antigo e moderno: o que é o quê

Costume Idade
Festa de São João na véspera Medieval (documentada no séc. XV no Porto)
Fogueiras e saltos Antiga; origem exata desconhecida
Orvalho, ervas e sortes Registados pelos etnógrafos dos sécs. XIX–XX
Cascatas sanjoaninas Século XIX
Martelinho de plástico Século XX (1963, segundo o Observador)
Alho-porro para bater na cabeça Mais antigo que o martelinho, que o substituiu em parte

Segurança

  • Não salte fogueiras, sobretudo com crianças ou depois de beber álcool. Todos os anos há queimaduras.
  • Faça fogo só em locais autorizados e respeite as proibições em períodos de risco de incêndio.
  • Balões de papel com chama podem cair acesos em mato e telhados.
  • Ervas da noite não se comem sem saber o que são.

➜ Como usar velas com segurança

Continue a ler

➜ Tesouros encantados nas lendas portuguesas

➜ Fontes, árvores e pedras sagradas em Portugal

Fontes

  • Maria José Araújo, «Simbolismos alimentares e manjares da noite mais longa do Porto», Redalyc — redalyc.org
  • José Leite de Vasconcelos, Tradições Populares de Portugal, Porto, 1882, § 15 — archive.org
  • «Tudo o que precisa de saber sobre São João», Observador — observador.pt
  • «Saint John's Eve», Wikipedia — en.wikipedia.org; «Festa de São João do Porto», Wikipédia — pt.wikipedia.org
  • Ernesto Veiga de Oliveira, Festividades Cíclicas em Portugal, Lisboa, Dom Quixote, 1984

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