Saltar para o conteúdo

🏺 Tradição Portuguesa

Adivinhação popular portuguesa

Como o povo português tentava adivinhar o futuro: a peneira e a tesoura, a clara de ovo de São João, o cuco, o malmequer e as cartas, com casos da Inquisição.

5 min de leitura · Revisto em
Neste artigo
  1. Uma desconfiança antiga
  2. A sorte da peneira e da tesoura
  3. A cera na água
  4. As sortes de São João
  5. O cuco e o malmequer
  6. As cartas e a sina
  7. Os sonhos e os sinais
  8. O que dizia a Inquisição
  9. Continue a ler
  10. Fontes

Durante séculos, o povo português tentou espreitar o futuro com o que tinha à mão: uma peneira, um ovo, uma flor, o canto de um pássaro. Queria saber se ia casar, quem tinha roubado uma galinha, se um filho emigrado estava vivo.

Muitas destas «sortes» eram brincadeiras de festa. Outras eram feitas a sério por mulheres a quem se pagava, e algumas acabaram diante da Inquisição.

Esta página reúne as formas mais conhecidas, com o que está documentado e o que é crença. Nenhuma delas tem qualquer capacidade comprovada de prever o futuro.

Uma desconfiança antiga

A Igreja combateu a adivinhação desde muito cedo. No século VI, São Martinho de Dume, bispo de Braga, censurava os camponeses da Galécia por darem atenção aos agouros, ao canto dos passarinhos e aos espirros.

Mil anos depois, a Inquisição portuguesa continuava a registar as mesmas práticas, agora com outros objetos.

➜ São Martinho de Dume e a «correção dos rústicos»

A sorte da peneira e da tesoura

É a adivinhação mais bem documentada nos processos portugueses. Os eruditos chamam-lhe coscinomancia (do grego kóskinon, «peneira»). Já era conhecida na Grécia antiga e espalhou-se por toda a Europa.

Na visitação da Inquisição à Madeira em 1618, várias mulheres confessaram tê-la feito. Os documentos descrevem uma peneira (ou joeira) com as pontas de uma tesoura ou um prego no aro, segura por duas pessoas. Fazia-se uma pergunta e esperava-se o movimento:

  • uma mulher pedia que, se a coisa fosse verdade, a peneira ficasse quieta, e se não, andasse;
  • outras invocavam São Pedro e São Paulo, e por vezes nomes estranhos e figuras infernais.

Servia sobretudo para descobrir ladrões, saber de ausentes ou de amores. O Grande Livro de S. Cypriano, impresso em Lisboa no século XIX, ainda tem um capítulo sobre o «modo de preparar uma peneira para adivinhar».

➜ Madeira: bruxaria e folclore

➜ O Grande Livro de S. Cypriano: a Vida e o índice

A cera na água

Nos mesmos processos da Madeira (1618), uma mulher confessou ter derretido cera e deitado-a em água benta para saber se uma pessoa estava viva.

É a técnica a que os livros chamam ceromancia. Na Europa Central fazia-se o mesmo com chumbo derretido na passagem de ano; não encontrámos registos seguros desse costume em Portugal.

➜ Ceromancia: a leitura da cera

As sortes de São João

A noite de 23 para 24 de junho era a grande noite das sortes amorosas. As mais conhecidas:

  • A clara de ovo: deitava-se a clara num copo de água, deixava-se ao relento e lia-se de manhã a forma que tomara (por exemplo, a profissão do futuro noivo). Teófilo Braga já a registava em 1885: «adivinha-se lançando clara de ovo fresco em um copo de agua, sobretudo nas ilhas dos Açores».
  • A alcachofra: chamuscava-se a flor na fogueira e deixava-se ao relento; se voltasse a florir, o amor seria correspondido.
  • O alecrim e outras ervas colhidas nessa noite entravam nas sortes e nos defumadores.

Estas sortes estão explicadas em pormenor noutras páginas.

➜ As sortes da noite de São João

O cuco e o malmequer

Duas sortes de namoro que muita gente ainda conhece:

  • O cuco: na primavera, quando se ouvia o cuco, perguntava-se-lhe quantos anos faltavam para casar, e contavam-se os cantos. Em Forninhos (Aguiar da Beira) ainda se recorda a fórmula «cuco, cuco ramalheiro, quantos anos estou solteiro?» (texto popular).
  • O malmequer: arrancam-se as pétalas uma a uma, a dizer «bem-me-quer, mal-me-quer», e a última dá a resposta. O próprio nome da flor vem desta brincadeira, que existe em muitos países europeus.

São jogos, e assim eram vistos por quem os fazia.

As cartas e a sina

As cartas chegaram mais tarde às sortes populares, mas instalaram-se bem. O Grande Livro de S. Cypriano inclui um «modo de deitar as cartas», um responso para dizer antes e um «novo tratado de cartomancia». O mesmo livro ensina a «adivinhar com seis paus de alecrim».

Ao mesmo tempo, a figura da cigana que lê a sina na mão tornou-se um lugar-comum, e as leis portuguesas chegaram a proibi-la.

Os sonhos e os sinais

Muito do que se «adivinhava» nem precisava de ritual: bastava estar atento aos sinais. Um pássaro que entra em casa, uma comichão na mão, um sonho com dentes. Estas leituras pertencem mais ao mundo das superstições do que ao das sortes.

O que dizia a Inquisição

Para a Inquisição, adivinhar era perigoso porque só Deus conhece o futuro. Quem pretendia sabê-lo por meio de peneiras ou cera estava, aos olhos dos teólogos, a pedir ajuda ao demónio, mesmo sem querer.

Na prática, os castigos para estas «superstições» eram quase sempre leves: penitências espirituais, instrução religiosa, por vezes degredo. Os historiadores Francisco Bethencourt e José Pedro Paiva mostraram que estes casos eram muito mais comuns em Portugal do que a «bruxaria» com pacto e sabat.

➜ Processos de feitiçaria na Inquisição portuguesa

Continue a ler

➜ Benzedeiras e rezadeiras em Portugal

➜ As cartas de tocar

Fontes

  • Bruno Abreu Costa, «A Superstição perante o Inquisidor (Madeira, 1618)», Arquivo Histórico da Madeira, Nova Série, n.º 3, 2021 — ahm-abm.madeira.gov.pt (PDF)
  • Teófilo Braga, O Povo Portuguez nos seus Costumes, Crenças e Tradições, vol. II, Lisboa, 1885 — archive.org
  • Biblioteca Nacional de Portugal, O grande livro de S. Cypriano ou o thesouro do feiticeiro (séc. XIX) — purl.pt/16504
  • «Coscinomancy», Wikipedia — en.wikipedia.org
  • Francisco Bethencourt, O Imaginário da Magia: feiticeiras, adivinhos e curandeiros em Portugal no século XVI, Universidade Aberta, 1987.

A minha nota

Escreva aqui as suas anotações. Ficam guardadas só neste dispositivo — não são enviadas para nenhum servidor.

Continue a explorar

Ver tudo em Tradição Portuguesa ›