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«Sobre a correção dos rústicos», de São Martinho de Dume — tradução integral

Tradução integral portuguesa do «De correctione rusticorum» (c. 572–574): o sermão de Martinho de Dume contra velas nas fontes, calendas e dias dos ídolos.

27 min de leitura · Revisto em
Neste artigo
  1. Ficha
  2. O texto
  3. Notas
  4. Onde ler o original
  5. Continue a ler
  6. Fontes

O De correctione rusticorum («Sobre a correção dos rústicos», isto é, dos camponeses) é um sermão-modelo escrito em latim por Martinho, bispo de Braga, no reino suevo da Galécia, pouco depois do II Concílio de Braga (572) — normalmente datado de c. 572–574. Foi enviado ao bispo Polémio de Astorga, que lhe pedira um texto para instruir os camponeses ainda presos a costumes pagãos.

A autoria de Martinho não é duvidosa: o próprio texto abre com a carta de Martinho a Polémio. O sermão foi pensado para ser lido em voz alta ao povo, e por isso usa, como o autor diz, uma «linguagem rústica»: frases simples, repetições, uma pequena história do mundo desde a criação.

Para nós, o seu valor está sobretudo no capítulo 16: uma lista de práticas concretas — velas acesas junto a pedras, árvores e fontes, pão deitado às fontes, festas das Calendas de janeiro, ervas encantadas. É a mais antiga descrição das crenças populares do território onde nasceriam a Galiza e o Norte de Portugal.

Convém lembrar duas coisas. Primeiro, é um documento histórico e religioso: o bispo interpreta os deuses antigos como demónios, segundo a teologia do seu tempo, e essa leitura é dele, não um facto. Segundo, as práticas descritas são vistas de fora, pelos olhos de quem as combate; não sabemos como os próprios camponeses as explicariam.

A vida do autor e o contexto do sermão estão contados noutra página; aqui apresentamos o texto completo, traduzido por nós a partir do latim.

➜ São Martinho de Dume e o «De correctione rusticorum»

Ficha

Campo Informação
Título original De correctione rusticorum (na tradição manuscrita: Epistola… ad Polemium episcopum de correctione rusticorum)
Data c. 572–574
Autor Martinho de Dume (ou de Braga), arcebispo de Braga (m. 579/580)
Destinatário Polémio, bispo de Astorga
Língua original Latim
Texto seguido Texto latino de The Latin Library (19 capítulos; a divisão corresponde à das edições modernas de C. P. Caspari, 1883, e C. W. Barlow, 1950)
Tradução Grimório.pt, 2026, a partir do texto latino (domínio público)

O texto

Os números entre parênteses retos são os dos capítulos. Os parênteses retos dentro do texto são notas nossas. As citações bíblicas estão em itálico.

Começa a carta de São Martinho, bispo, ao bispo Polémio, sobre a correção dos rústicos.

Ao senhor beatíssimo e para mim muito querido irmão em Cristo, o bispo Polémio, o bispo Martinho.

[1] A carta a Polémio

Recebi a carta da tua santa caridade, na qual me escreves pedindo que, para correção dos rústicos — que, ainda presos à antiga superstição dos pagãos, prestam culto de veneração mais aos demónios do que a Deus —, te mandasse por escrito alguma coisa sobre a origem dos ídolos e os seus crimes, ainda que pouco de muito.

Mas, porque é preciso oferecer-lhes, como que para provarem, ao menos um pequeno conhecimento das coisas desde o princípio do mundo, tive necessidade de tocar a imensa floresta dos tempos e dos factos passados num discurso breve e resumido, e de temperar para os rústicos o alimento com linguagem rústica.

Seja pois este, com a ajuda de Deus, o começo da tua pregação:

[2] Aos ouvintes

Desejamos, filhos caríssimos, anunciar-vos em nome do Senhor aquilo que ou nunca ouvistes, ou, tendo ouvido, talvez tenhais esquecido. Pedimos, pois, à vossa caridade que escuteis com mais atenção o que se diz para a vossa salvação.

É longa, sem dúvida, a sequência que nos dão as divinas Escrituras; mas, para que guardeis na memória ao menos um pouco, recomendamos-vos poucas coisas de entre muitas.

[3] A queda dos anjos

Quando, no princípio, Deus fez o céu e a terra, criou naquela morada celeste criaturas espirituais, isto é, os anjos, para que, estando na sua presença, o louvassem.

Um deles, que fora feito o primeiro de todos os arcanjos, vendo-se a resplandecer em tão grande glória, não deu honra a Deus, seu criador, mas disse-se semelhante a Ele. Por esta soberba, com muitos outros anjos que o apoiaram, foi lançado daquela sede celeste para este ar que está debaixo do céu. E aquele que antes fora arcanjo, perdida a luz da sua glória, tornou-se o diabo tenebroso e horrível.

Do mesmo modo, também os outros anjos que o tinham apoiado foram expulsos do céu com ele e, perdido o seu esplendor, tornaram-se demónios. Os restantes anjos, que se mantiveram submissos a Deus, permanecem na presença do Senhor na glória da sua claridade, e esses chamam-se anjos santos. Mas aqueles que, com o seu príncipe Satanás, foram lançados fora pela sua soberba chamam-se anjos fugitivos e demónios.

[4] A criação do homem e a queda

Depois desta ruína dos anjos, quis Deus formar o homem do limo da terra, e pô-lo no paraíso. E disse-lhe que, se guardasse o preceito do Senhor, sucederia sem morte naquele lugar celeste de onde tinham caído os anjos fugitivos; mas, se transgredisse o preceito de Deus, morreria de morte.

Vendo, pois, o diabo que o homem fora feito para suceder, no reino de Deus, no lugar de onde ele próprio caíra, levado pela inveja persuadiu o homem a transgredir os mandamentos de Deus. Por essa ofensa foi o homem lançado do paraíso para o exílio deste mundo, onde havia de sofrer muitos trabalhos e dores.

[5] Adão, Eva e o dilúvio

O primeiro homem chamou-se Adão, e a sua mulher, que Deus criou da carne dele, chamou-se Eva. Destes dois seres humanos se propagou todo o género humano.

Os homens, esquecidos de Deus, seu criador, e cometendo muitos crimes, provocaram a ira de Deus. Por isso Deus mandou o dilúvio e fez perecer todos, exceto um justo, chamado Noé, que guardou com os seus filhos para refazer o género humano.

Do primeiro homem, Adão, até ao dilúvio passaram dois mil duzentos e quarenta e dois anos.

[6] Depois do dilúvio: o culto das criaturas

Depois do dilúvio, o género humano refez-se de novo através dos três filhos de Noé, salvos com as suas mulheres.

E quando a multidão, crescendo, começou a encher o mundo, os homens, esquecendo outra vez Deus, criador do mundo, começaram, abandonado o Criador, a adorar as criaturas. Uns adoravam o Sol, outros a Lua ou as estrelas, outros o fogo, outros a água profunda ou as fontes das águas, julgando que todas estas coisas não tinham sido feitas por Deus para uso dos homens, mas que, nascidas de si mesmas, eram deuses.

[7] Os demónios tomam os nomes dos deuses

Então o diabo, ou os seus ministros, os demónios que foram lançados do céu, vendo os homens ignorantes a errar pelas criaturas, abandonado Deus seu criador, começaram a mostrar-se-lhes sob várias formas, a falar com eles e a pedir-lhes que lhes oferecessem sacrifícios nos montes altos e nos bosques frondosos e que os adorassem como deus.

E puseram-se a si mesmos os nomes de homens criminosos, que tinham passado a vida em todos os crimes e maldades. Assim, um dizia ser Júpiter, que fora mago e tão incestuoso nos seus muitos adultérios que teve por mulher a própria irmã, chamada Juno, corrompeu as suas filhas Minerva e Vénus, e desonrou vergonhosamente também as netas e toda a sua parentela.

Outro demónio chamou-se Marte, que foi autor de litígios e discórdias. Outro demónio ainda quis chamar-se Mercúrio, que foi o inventor astuto de todo o furto e engano; a ele, como a um deus do lucro, os homens cobiçosos, ao passarem pelas encruzilhadas, oferecem em sacrifício montões de pedras, atirando-lhes pedras.

Outro demónio atribuiu-se o nome de Saturno, que, vivendo em toda a crueldade, devorava até os próprios filhos à nascença. Outro demónio ainda fingiu ser Vénus, que foi mulher prostituta: prostituiu-se não só com inúmeros adúlteros, mas até com o seu pai Júpiter e com o seu irmão Marte.

[8] Templos, espíritos das águas e dos bosques, e os dias da semana

Eis como eram, naquele tempo, esses homens perdidos, que os rústicos ignorantes honravam pessimamente com as suas invenções. Os demónios tomaram os nomes deles para que os honrassem como deuses, lhes oferecessem sacrifícios e imitassem os atos daqueles cujos nomes invocavam.

Os demónios persuadiram-nos também a fazer-lhes templos, a pôr lá imagens ou estátuas desses homens criminosos e a levantar-lhes altares, nos quais lhes derramassem sangue não só de animais, mas também de homens.

Além disso, muitos dos demónios que foram expulsos do céu presidem ao mar, aos rios, às fontes ou aos bosques, e os homens que não conhecem Deus adoram-nos igualmente como deuses e oferecem-lhes sacrifícios. No mar chamam-lhes Neptuno, nos rios Lâmias, nas fontes Ninfas, nos bosques Dianas — e todos eles são demónios malignos e espíritos maus, que prejudicam e atormentam os homens sem fé, que não sabem proteger-se com o sinal da cruz.

Não prejudicam, porém, sem permissão de Deus: fazem-no porque esses homens têm Deus irado contra eles e não creem de todo o coração na fé de Cristo, mas andam tão hesitantes que dão os próprios nomes dos demónios a cada um dos dias, e chamam dia de Marte, de Mercúrio, de Júpiter, de Vénus e de Saturno — que não fizeram dia nenhum, mas foram homens péssimos e criminosos entre o povo dos gregos.

[9] Os sete dias da criação e o domingo

Deus omnipotente, quando fez o céu e a terra, criou então a luz, que, segundo a distinção das obras de Deus, se repetiu sete vezes.

Primeiro, Deus fez a luz, que se chamou dia; no segundo, foi feito o firmamento do céu; no terceiro, a terra foi separada do mar; no quarto, foram feitos o Sol, a Lua e as estrelas; no quinto, os quadrúpedes, as aves e os peixes; no sexto, foi formado o homem; e ao sétimo dia, acabado todo o mundo e o seu ornamento, Deus chamou-lhe repouso.

Assim, uma só luz, a primeira feita entre as obras de Deus, repetida sete vezes segundo a distinção dessas obras, chamou-se semana.

Que loucura é, pois, que um homem batizado na fé de Cristo não guarde o dia do Senhor, em que Cristo ressuscitou, e diga que guarda o dia de Júpiter, de Mercúrio, de Vénus e de Saturno, que não têm dia nenhum, mas foram adúlteros, magos, malvados, e tiveram má morte na sua terra! Mas, como dissemos, sob a aparência destes nomes é aos demónios que os homens insensatos prestam veneração e honra.

[10] O erro das Calendas de janeiro

Do mesmo modo se insinuou nos ignorantes e rústicos o erro de pensarem que as Calendas de janeiro são o início do ano, o que é inteiramente falso.

Porque, como diz a Sagrada Escritura, o início do primeiro ano deu-se no oitavo dia antes das Calendas de abril [25 de março], no próprio equinócio. Assim se lê: E Deus separou a luz das trevas. Toda a divisão justa tem igualdade, tal como no oitavo dia antes das Calendas de abril o dia tem tantas horas como a noite. Por isso é falso que as Calendas de janeiro sejam o início do ano.

[11] Os dias das traças e dos ratos

E agora, que dizer com dor daquele erro estultíssimo de guardarem os dias das traças e dos ratos, e de — se é lícito dizê-lo — um homem cristão venerar ratos e traças em lugar de Deus?

Se o pão ou o pano não lhes for tirado por meio da guarda de uma tina ou de uma arca, de modo nenhum pouparão o que encontrarem, por causa das festas que lhes fizeram.

É sem motivo que o homem miserável faz para si estes presságios, como se, tal como está farto e alegre de tudo à entrada do ano, assim lhe fosse acontecer durante o ano inteiro. Todas estas observâncias são dos pagãos, inventadas por sugestão dos demónios.

Mas ai daquele homem que não tiver Deus propício e não receber dele a fartura do pão e a segurança da vida! Eis que fazeis estas vãs superstições, ou às escondidas ou às claras, e nunca deixais estes sacrifícios aos demónios. E porque é que eles não vos dão que estejais sempre fartos, seguros e alegres? Porque é que, quando Deus se ira, esses sacrifícios vãos não vos defendem do gafanhoto, do rato e de muitas outras tribulações que Deus, irado, vos manda?

[12] Adivinhações e agouros

Não percebeis claramente que os demónios vos mentem nessas observâncias que em vão guardais, e que vos enganam muitas vezes nos agouros a que dais atenção? Pois, como diz o sapientíssimo Salomão: As adivinhações e os agouros são vãos; e quanto mais o homem os teme, tanto mais o seu coração é enganado. Não lhes entregues o teu coração, porque a muitos fizeram cair.

Eis o que diz a Sagrada Escritura, e assim é com toda a certeza: os demónios persuadem os homens infelizes pelas vozes das aves, até que, por coisas frívolas e vãs, percam a fé de Cristo e corram de improviso para a ruína da sua morte.

Deus não mandou ao homem conhecer o futuro, mas que, vivendo sempre no seu temor, lhe pedisse a direção e o auxílio da sua vida. Só a Deus pertence saber uma coisa antes de ela acontecer. Os demónios, porém, enganam os homens vãos com vários artifícios, até os levarem a ofender Deus e arrastarem as suas almas consigo para o inferno — como fizeram desde o princípio, por inveja, para que o homem não entrasse no reino dos céus, de onde eles foram lançados.

[13] A vinda de Cristo

Por esta razão, vendo Deus que os homens miseráveis eram de tal modo enganados pelo diabo e pelos seus anjos maus que, esquecendo o seu criador, adoravam demónios em lugar de Deus, enviou o seu Filho, isto é, a sua sabedoria e o seu Verbo, para os reconduzir do erro do diabo ao culto do verdadeiro Deus.

E porque a divindade do Filho de Deus não podia ser vista pelos homens, tomou carne humana do seio da Virgem Maria, concebida não por união com varão, mas pelo Espírito Santo.

Nascido, pois, em carne humana, o Filho de Deus — por dentro Deus invisível e escondido, por fora homem visível — pregou aos homens: ensinou-os a deixar os ídolos e as más obras, a sair do poder do diabo e a voltar ao culto do seu criador.

Depois de ensinar, quis morrer pelo género humano. Sofreu a morte voluntariamente, não contra vontade; foi crucificado pelos judeus, sendo juiz Pôncio Pilatos, que, nascido na província do Ponto, governava naquele tempo a província da Síria [ver notas]. Descido da cruz, foi posto no sepulcro; ao terceiro dia ressuscitou vivo dos mortos, e durante quarenta dias conviveu com os seus doze discípulos; e, para mostrar que era verdadeira a carne que ressuscitara, comeu diante dos discípulos depois da ressurreição.

Passados os quarenta dias, mandou aos seus discípulos que anunciassem a todos os povos a ressurreição do Filho de Deus, que os batizassem em nome do Pai, do Filho e do Espírito Santo para remissão dos pecados, e que ensinassem os batizados a afastar-se das más obras — isto é, dos ídolos, dos homicídios, dos furtos, do perjúrio, da fornicação — e a não fazer aos outros o que não quereriam que lhes fizessem a eles.

E depois de dar estas ordens, à vista dos próprios discípulos, subiu ao céu, e aí está sentado à direita do Pai; e de lá há de vir, no fim deste mundo, com a mesma carne que levou consigo para os céus.

[14] O fim do mundo e o juízo

Quando vier o fim deste mundo, todos os povos e todo o homem que descende daqueles primeiros homens, isto é, de Adão e Eva, ressuscitarão todos, bons e maus; e todos virão ao juízo de Cristo.

Então os que foram fiéis e bons na sua vida serão separados dos maus e entrarão no reino de Deus com os anjos santos; e as suas almas, com a sua carne, estarão no repouso eterno, para nunca mais morrerem. Aí já não terão nem trabalho nem dor, nem tristeza, nem fome nem sede, nem calor nem frio, nem trevas nem noite; mas, sempre alegres, fartos, na luz, na glória, serão semelhantes aos anjos de Deus, porque mereceram entrar naquele lugar de onde caiu o diabo com os anjos que o apoiaram. Ali permanecem para sempre todos os que foram fiéis a Deus.

Mas os que foram incrédulos, ou não foram batizados, ou, se foram batizados, depois do batismo voltaram aos ídolos, aos homicídios, aos adultérios, aos perjúrios e a outros males, e morreram sem penitência — todos os que forem achados assim serão condenados com o diabo e com todos os demónios que adoraram e cujas obras fizeram, e serão lançados com a sua carne no fogo eterno do inferno. Ali aquele fogo inextinguível vive para sempre, e aquela carne, recebida de novo na ressurreição, é atormentada eternamente, gemendo. Deseja morrer outra vez para não sentir as penas, mas não lhe é permitido morrer, para que sofra tormentos eternos.

Eis o que diz a Lei, o que dizem os Profetas, o que atesta o Evangelho de Cristo, o que atesta o Apóstolo, o que atesta toda a Sagrada Escritura — de que agora vos dissemos, com simplicidade, poucas coisas de entre muitas.

Cabe-vos agora, filhos caríssimos, recordar o que por nós foi dito, e ou esperar, fazendo o bem, o repouso futuro no reino de Deus, ou — que Deus não permita! — esperar, fazendo o mal, o fogo perpétuo do inferno. Porque a vida eterna e a morte eterna foram postas no arbítrio do homem. O que cada um escolher para si, isso terá.

[15] O pacto do batismo

Vós, pois, fiéis, que vos aproximastes do batismo de Cristo em nome do Pai, do Filho e do Espírito Santo, considerai que pacto fizestes com Deus nesse mesmo batismo.

Quando cada um de vós deu o seu nome junto da fonte batismal — por exemplo, Pedro, ou João, ou outro nome qualquer —, fostes interrogados pelo sacerdote assim: «Como te chamas?» Respondeste tu, se já podias responder, ou então aquele que fez a profissão de fé por ti e te recebeu da fonte, e disse, por exemplo: «Chama-se João.»

E o sacerdote perguntou: «João, renuncias ao diabo e aos seus anjos, aos seus cultos e aos seus ídolos, aos seus furtos e enganos, às suas fornicações e embriaguezes, e a todas as suas más obras?» E respondeste: «Renuncio.»

Depois desta renúncia ao diabo, foste de novo interrogado pelo sacerdote: «Crês em Deus Pai omnipotente?» Respondeste: «Creio.» «E em Jesus Cristo, seu Filho único, Deus e Senhor nosso, que nasceu do Espírito Santo e da Virgem Maria, padeceu sob Pôncio Pilatos, foi crucificado e sepultado, desceu aos infernos, ao terceiro dia ressuscitou vivo dos mortos, subiu aos céus, está sentado à direita do Pai, de onde há de vir a julgar os vivos e os mortos? Crês?» E respondeste: «Creio.» E foste de novo interrogado: «Crês no Espírito Santo, na santa Igreja católica, na remissão de todos os pecados, na ressurreição da carne e na vida eterna?» E respondeste: «Creio.»

Eis, pois: considerai que pacto fizestes com Deus no batismo. Prometestes renunciar ao diabo, aos seus anjos e a todas as suas más obras, e confessastes crer no Pai, no Filho e no Espírito Santo, e esperar, no fim dos tempos, a ressurreição da carne e a vida eterna.

[16] As superstições dos batizados

Eis que caução e que confissão vossa estão guardadas diante de Deus! E como é que alguns de vós, que renunciaram ao diabo, aos seus anjos, aos seus cultos e às suas más obras, voltam agora outra vez aos cultos do diabo?

Pois acender velinhas junto às pedras, às árvores, às fontes e pelas encruzilhadas, que é senão culto do diabo?

Observar as adivinhações, os agouros e os dias dos ídolos, que é senão culto do diabo?

Observar as Vulcanais e as Calendas, enfeitar as mesas, pôr loureiros, observar o pé, deitar na lareira, sobre o tronco, cereal e vinho, e lançar pão na fonte, que é senão culto do diabo?

As mulheres nomearem Minerva ao tecer, guardarem o dia de Vénus para os casamentos e atenderem ao dia em que se sai de viagem, que é senão culto do diabo?

Encantar ervas para malefícios e invocar os nomes dos demónios ao fazer encantamentos, que é senão culto do diabo?

E muitas outras coisas que seria longo dizer.

Eis que fazeis todas estas coisas depois da renúncia ao diabo, depois do batismo; e, voltando ao culto dos demónios e às más obras dos ídolos, traístes a vossa fé e rompestes o pacto que fizestes com Deus.

Abandonastes o sinal da cruz, que recebestes no batismo, e dais atenção a outros sinais do diabo, pelos passarinhos, pelos espirros e por muitas outras coisas.

Porque é que a mim, ou a qualquer cristão reto, o agouro não faz mal? Porque, onde o sinal da cruz vai à frente, o sinal do diabo nada é. E porque é que vos faz mal a vós? Porque desprezais o sinal da cruz e temeis aquilo que vós próprios fazeis de sinal.

Do mesmo modo, abandonastes o encantamento santo, isto é, o Símbolo que recebestes no batismo — que é Creio em Deus Pai omnipotente — e a oração do Senhor, isto é, Pai nosso, que estais nos céus — e guardais encantamentos e cantilenas diabólicas.

Quem quer, pois, que, desprezando o sinal da cruz de Cristo, olha para outros sinais, perdeu o sinal da cruz que recebeu no batismo. Do mesmo modo, quem guarda outros encantamentos, inventados por magos e feiticeiros, perdeu o encantamento do santo Símbolo e da oração do Senhor, que recebeu na fé de Cristo, e calcou aos pés a fé de Cristo — porque não se pode adorar ao mesmo tempo Deus e o diabo.

[17] A penitência

Se, pois, reconhecestes, filhos diletíssimos, tudo isto que dissemos, se alguém se reconhece culpado de ter feito estas coisas depois de receber o batismo e de ter rompido a fé de Cristo, não desespere de si, nem diga no seu coração: «Porque fiz tantos males depois do batismo, talvez Deus não me perdoe os meus pecados.»

Não duvides da misericórdia de Deus. Faz apenas no teu coração um pacto com Deus: que não voltarás a prestar culto aos demónios, nem adorarás coisa alguma além do Deus do céu, nem farás homicídio, nem adultério ou fornicação, não furtarás, não perjurarás. E quando tiveres prometido isto a Deus de todo o teu coração, e não voltares a cometer estes pecados, espera com confiança o perdão de Deus, porque assim diz Deus pela Escritura profética: Em qualquer dia em que o injusto esquecer as suas iniquidades e praticar a justiça, também eu esquecerei todas as suas iniquidades.

Deus espera, portanto, a penitência do pecador. E a penitência verdadeira é esta: que o homem não volte a fazer os males que fez, mas peça perdão dos pecados passados e se acautele para o futuro, para não tornar a cair neles; que, pelo contrário, pratique boas obras: que dê esmola ao pobre faminto, que restaure o hóspede cansado, e que faça aos outros o que quer que lhe façam a si, e não faça aos outros o que não quer que lhe façam a si, porque nesta palavra se cumprem os mandamentos de Deus.

[18] Guardar o domingo

Pedimo-vos, pois, irmãos e filhos caríssimos, que guardeis na memória estes preceitos que Deus se digna dar-vos por nós, humílimos e pequenos, e que penseis em como salvar as vossas almas. Não vos ocupeis só desta vida presente e da utilidade passageira deste mundo, mas lembrai-vos antes daquilo que prometestes crer no Símbolo, isto é, a ressurreição da carne e a vida eterna.

Se, pois, crestes e credes que haverá ressurreição da carne e vida eterna no reino dos céus entre os anjos de Deus, como já acima vos dissemos, pensai nisso o mais possível, e não sempre na miséria deste mundo. Preparai o vosso caminho com boas obras. Ide com frequência rezar a Deus na igreja ou nos lugares dos santos.

O dia do Senhor, que por isso se chama dominical [domingo], porque nele o Filho de Deus, nosso Senhor Jesus Cristo, ressuscitou dos mortos, não o desprezeis, mas guardai-o com reverência.

Não façais ao domingo trabalho servil, isto é, no campo, no prado, na vinha, ou outro que seja pesado — exceto apenas o que é necessário para restaurar o pobre corpo, para cozinhar a comida, e a necessidade de uma longa viagem. E pode-se ir a lugares próximos ao domingo, não por ocasiões más, mas antes por boas: isto é, ou ir aos lugares santos, ou visitar um irmão ou um amigo, ou consolar um doente, ou levar conselho ou ajuda a quem está atribulado, por uma boa causa. Assim convém ao cristão honrar o dia do Senhor.

Porque é bem injusto e vergonhoso que aqueles que são pagãos e ignoram a fé cristã, adorando os ídolos dos demónios, guardem o dia de Júpiter ou de qualquer outro demónio e se abstenham de trabalhar — quando é certo que os demónios não criaram nem possuem dia nenhum — e que nós, que adoramos o verdadeiro Deus e cremos que o Filho de Deus ressuscitou dos mortos, não honremos de modo nenhum o dia da sua ressurreição, isto é, o domingo!

Não façais, pois, injúria à ressurreição do Senhor, mas honrai-a e guardai-a com reverência, pela esperança que nela temos. Porque, assim como nosso Senhor Jesus Cristo, Filho de Deus, que é a nossa cabeça, ressuscitou dos mortos ao terceiro dia, assim também nós, que somos seus membros, esperamos ressuscitar na nossa carne no fim dos tempos, para que cada um receba ou o repouso eterno ou a pena eterna, conforme o que fez no seu corpo neste mundo.

[19] Conclusão

Eis que nós, sob o testemunho de Deus e dos santos anjos que nos ouvem enquanto falamos, pagamos à vossa caridade a nossa dívida, e emprestámos-vos a juros o dinheiro do Senhor, como temos por mandamento. Cabe-vos agora pensar e cuidar em como cada um, quando o Senhor vier no dia do juízo, lhe há de apresentar com juros aquilo que recebeu.

Pedimos à clemência do próprio Senhor que vos guarde de todo o mal e vos faça dignos companheiros dos seus santos anjos no seu reino, por graça d'Aquele que vive e reina pelos séculos dos séculos. Ámen.

Notas

Os deuses como homens antigos (cap. 7–8). Martinho segue uma explicação comum entre os autores cristãos: os deuses teriam sido homens mortais divinizados (ideia chamada evemerismo), cujos nomes os demónios teriam tomado. É uma interpretação teológica da época, não informação histórica sobre esses cultos. O «povo dos gregos» é uma forma vaga de dizer «os antigos pagãos».

Neptuno, Lâmias, Ninfas, Dianas (cap. 8). Nomes latinos que o bispo dá a espíritos locais do mar, dos rios, das fontes e dos bosques. Não sabemos que nomes os camponeses usavam de facto. As Lâmias, na mitologia clássica, eram figuras femininas temíveis; aqui designam espíritos das águas correntes.

As pedras de Mercúrio (cap. 7). Montes de pedras nas encruzilhadas, a que cada passante junta uma pedra. O costume de juntar pedras à beira dos caminhos existiu em vários pontos da Europa; na Galiza estes montões chamam-se milladoiros. A ligação a Mercúrio é do autor.

Os dias da semana (cap. 8, 9 e 18). Os romanos chamavam aos dias pelos astros e deuses: dies Lunae, Martis, Mercurii, Iovis, Veneris, Saturni, Solis. Martinho só condena expressamente cinco (Marte, Mercúrio, Júpiter, Vénus, Saturno) e opõe-lhes o dia do Senhor (dies dominicus, «domingo»). A liturgia cristã já numerava os dias (feria secunda, «segunda-feira», feria tertia…). O sermão não propõe esses nomes; mas a tradição atribui a Martinho um papel na sua adoção em Portugal. O português e o mirandês são as únicas línguas românicas em que venceram os dias numerados. Mais sobre isto na página do autor.

As Calendas de janeiro (cap. 10–11). As Calendas eram o primeiro dia de cada mês romano; as de janeiro abriam o ano civil com festas, banquetes e presságios para o ano novo. A Igreja da época combatia-as. Martinho defende outra data: o 25 de março («oitavo dia antes das Calendas de abril»), que associava ao equinócio da primavera e ao princípio da criação.

Os dias das traças e dos ratos (cap. 11). Parece tratar-se de dias de «festa» em que se deixava de trabalhar, ou se faziam oferendas, para que os ratos e as traças poupassem o pão e a roupa. Não conhecemos o costume por outras fontes. O bispo acrescenta a ideia de presságio: quem está farto e alegre no início do ano sê-lo-ia o ano todo.

Velas nas pedras, árvores, fontes e encruzilhadas (cap. 16). As cereoli são velas pequenas. Pedras, árvores, fontes e encruzilhadas eram lugares de culto antigos, e os concílios da época condenam-nos várias vezes. Práticas parecidas (velas e ofertas em fontes, cruzeiros, alminhas) existem na religiosidade popular posterior, mas isso não prova uma continuidade direta de catorze séculos.

Os «dias dos ídolos» (cap. 16). Dias de festa dedicados aos deuses, ou dias tidos como favoráveis e desfavoráveis — o texto não precisa.

Vulcanais (cap. 16). As Vulcanalia eram a festa romana de Vulcano, deus do fogo, a 23 de agosto. Não sabemos se o nome designa a mesma festa na Galécia do século VI.

Mesas enfeitadas e loureiros (cap. 16). Costumes das Calendas: mesas postas e fartas na noite de ano novo e ramos de loureiro nas portas.

«Observar o pé» (cap. 16). Expressão obscura. As leituras mais comuns: reparar com que pé se entra ou se sai (presságio); ou atenção a quem pisa primeiro a casa no ano novo. [Sentido incerto.]

Cereal e vinho sobre o tronco na lareira (cap. 16). Oferenda sobre o tronco que ardia no lar, possivelmente nas festas de inverno. Lembra o costume, mais tardio, do cepo de Natal, mas a ligação é apenas uma hipótese.

Pão nas fontes (cap. 16). Oferenda às fontes, ligadas às «Ninfas» do capítulo 8.

Minerva e o dia de Vénus (cap. 16). Minerva era a deusa romana dos trabalhos de tecelagem; as mulheres invocavam-na ao tecer. O «dia de Vénus» é a sexta-feira, escolhida para casar por ser dia da deusa do amor.

Passarinhos e espirros (cap. 12 e 16). Presságios tirados do canto ou do voo das aves e dos espirros — formas antigas de adivinhação popular.

Ervas encantadas (cap. 16). Ervas colhidas ou preparadas com palavras mágicas «para malefícios». O bispo opõe a estas fórmulas o Credo e o Pai-Nosso, a que chama «encantamento santo».

O batismo (cap. 15). O capítulo reproduz o diálogo batismal da época: a renúncia ao diabo e as três perguntas do Credo, respondidas pelo batizando ou pelo padrinho. É um testemunho precioso da liturgia da Galécia no século VI.

Citações bíblicas. «Salomão» (cap. 12) é o Eclesiástico (Ben Sira) 34, atribuído a Salomão na Antiguidade; a frase do cap. 17 vem de Ezequiel 18 e 33; «Deus separou a luz das trevas» é Génesis 1,4. Os 2242 anos de Adão ao dilúvio (cap. 5) seguem a cronologia da Bíblia grega, usada por Eusébio e Jerónimo.

Pilatos (cap. 13). Pilatos foi prefeito da Judeia, sob a tutela do governador da Síria. A origem no «Ponto» não tem base histórica: parece nascer de uma associação com o seu nome, Pôncio.

Onde ler o original

Continue a ler

➜ São Martinho de Dume e o «De correctione rusticorum»

➜ Tradição Portuguesa — índice

➜ Paganismo

➜ Bruxaria em Portugal

➜ Os anjos e planetas dos dias da semana

Fontes

  • Martinho de Braga, De correctione rusticorum, texto latino — The Latin Library
  • «De correctione rusticorum», Wikipedia — en.wikipedia.org
  • «Names of the days of the week», Wikipedia — en.wikipedia.org
  • C. W. Barlow (ed.), Martini episcopi Bracarensis opera omnia, New Haven, Yale University Press, 1950.
  • C. P. Caspari (ed.), Martin von Bracara's Schrift De correctione rusticorum, Christiania, 1883.

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