Saltar para o conteúdo

🏺 Tradição Portuguesa

São Martinho de Dume e o «De correctione rusticorum»

O «De correctione rusticorum» de São Martinho de Dume (c. 572): velas nas fontes, pão nas águas, deuses nos dias da semana e a origem de «segunda-feira».

4 min de leitura · Revisto em
Neste artigo
  1. Ficha
  2. Quem foi (facto)
  3. O sermão contra as superstições
  4. O que faziam os camponeses do século VI
  5. O remédio proposto: a cruz e o Credo
  6. Segunda-feira, terça-feira…
  7. Porque é que este texto importa
  8. Continue a ler
  9. Fontes

Porque é que em português dizemos segunda-feira e terça-feira, e não «dia da Lua» e «dia de Marte», como em quase todas as outras línguas latinas? A resposta leva-nos a um bispo do século VI e a um pequeno sermão contra as superstições.

Esse sermão, o De correctione rusticorum («Sobre a correção dos camponeses»), é também o mais antigo retrato das crenças populares do território que viria a ser o Norte de Portugal e a Galiza.

Ficha

Campo Informação
Nome Martinho de Dume, ou de Braga
Nascimento c. 510–520, Panónia (atual Hungria)
Morte 20 de março de 579 ou 580, Braga
Ocupação Monge, bispo de Dume e arcebispo de Braga
Obra principal aqui De correctione rusticorum (c. 572)
Conhecido por «Apóstolo dos Suevos»
Festa litúrgica 20 de março

Quem foi (facto)

Martinho nasceu na Panónia, no centro da Europa, e chegou à Galécia — o reino dos Suevos, com capital em Braga — por volta de meados do século VI. Fundou um mosteiro em Dume, junto a Braga, e em 556 tornou-se o primeiro bispo da nova diocese de Dume.

É lembrado por ter levado os Suevos do arianismo ao catolicismo. Por volta de 569–570 tornou-se arcebispo de Braga e presidiu ao II Concílio de Braga, em 572.

Além do sermão, deixou obras morais como a Formula vitae honestae e o De ira.

O sermão contra as superstições

Por volta de 572, o bispo Polémio de Astorga pediu-lhe um texto para instruir os camponeses. Martinho respondeu com um sermão simples, pensado para ser lido ao povo.

Primeiro conta a história da criação. Depois explica, à maneira cristã da época, de onde vêm os deuses pagãos: seriam demónios que tomaram os nomes de pessoas antigas — Júpiter, Marte, Mercúrio, Saturno e Vénus.

Acrescenta que os camponeses chamam a esses espíritos Neptuno no mar, Lâmias nos rios, Ninfas nas fontes e Dianas nos bosques.

➜ Paganismo

O que faziam os camponeses do século VI

O capítulo 16 é uma lista preciosa. Martinho condena quem:

  • acende velinhas junto a pedras, árvores, fontes e encruzilhadas;
  • celebra as Vulcanais e as Calendas (as festas de janeiro);
  • enfeita as mesas e põe loureiros;
  • deita pão nas fontes;
  • verte cereais e vinho sobre o tronco que arde na lareira;
  • encanta ervas para malefícios;
  • deixa que as mulheres chamem por Minerva ao tecer;
  • escolhe o dia de Vénus para casar.

Noutros capítulos fala de quem guarda os dias das traças e dos ratos, de quem acredita no canto das aves e de quem se deixa guiar pelos espirros.

Muitas destas práticas — velas em fontes e encruzilhadas, pão e oferendas, ervas «benzidas» — têm parentes na religiosidade popular portuguesa muito posterior. A semelhança é real, mas não prova uma continuidade direta de catorze séculos: é uma comparação a fazer com prudência.

➜ Bruxaria em Portugal

O remédio proposto: a cruz e o Credo

Martinho não manda castigar. Pede aos camponeses que troquem os «sinais do diabo» pelo sinal da cruz e os encantamentos pelo Credo. Onde vai à frente o sinal da cruz, diz, nenhum sinal do diabo tem força.

Pede também que o domingo seja guardado com respeito, sem trabalhos desnecessários.

Os historiadores notam que o seu tom é mais brando do que o de outros pregadores da época, como Cesário de Arles.

Segunda-feira, terça-feira…

No capítulo 9, Martinho espanta-se por os cristãos darem aos dias os nomes de demónios: dia de Marte, de Mercúrio, de Júpiter, de Vénus e de Saturno.

A Igreja já usava, na liturgia, a numeração dos dias («feria secunda», «feria tertia»…). Em Portugal essa numeração acabou por vencer no uso comum. A tradição atribui a Martinho de Dume um papel decisivo nisso.

Latim pagão Português
Dies Lunae (Lua) Segunda-feira
Dies Martis (Marte) Terça-feira
Dies Mercurii (Mercúrio) Quarta-feira
Dies Iovis (Júpiter) Quinta-feira
Dies Veneris (Vénus) Sexta-feira
Dies Saturni (Saturno) Sábado
Dies Solis (Sol) Domingo

O português é caso único entre as grandes línguas românicas. Curiosamente, o galego, tão próximo, manteve em geral os nomes pagãos (luns, martes, mércores…).

➜ Os anjos e planetas dos dias da semana

Porque é que este texto importa

Para quem estuda a magia popular, o sermão é um documento raro: descreve crenças de gente comum que não deixou escritos. Foi copiado e imitado na Idade Média, até em sermões ingleses e num texto nórdico antigo.

É, ao mesmo tempo, um retrato visto pelos olhos de um bispo — que via demónios onde os camponeses viam costumes.

Continue a ler

➜ Tradição Portuguesa — índice

➜ Feitiçaria portuguesa

➜ Benzedeiras e rezadeiras em Portugal

Fontes

A minha nota

Escreva aqui as suas anotações. Ficam guardadas só neste dispositivo — não são enviadas para nenhum servidor.

Continue a explorar

Ver tudo em Tradição Portuguesa ›