Porque é que em português dizemos segunda-feira e terça-feira, e não «dia da Lua» e «dia de Marte», como em quase todas as outras línguas latinas? A resposta leva-nos a um bispo do século VI e a um pequeno sermão contra as superstições.
Esse sermão, o De correctione rusticorum («Sobre a correção dos camponeses»), é também o mais antigo retrato das crenças populares do território que viria a ser o Norte de Portugal e a Galiza.
Ficha
| Campo | Informação |
|---|---|
| Nome | Martinho de Dume, ou de Braga |
| Nascimento | c. 510–520, Panónia (atual Hungria) |
| Morte | 20 de março de 579 ou 580, Braga |
| Ocupação | Monge, bispo de Dume e arcebispo de Braga |
| Obra principal aqui | De correctione rusticorum (c. 572) |
| Conhecido por | «Apóstolo dos Suevos» |
| Festa litúrgica | 20 de março |
Quem foi (facto)
Martinho nasceu na Panónia, no centro da Europa, e chegou à Galécia — o reino dos Suevos, com capital em Braga — por volta de meados do século VI. Fundou um mosteiro em Dume, junto a Braga, e em 556 tornou-se o primeiro bispo da nova diocese de Dume.
É lembrado por ter levado os Suevos do arianismo ao catolicismo. Por volta de 569–570 tornou-se arcebispo de Braga e presidiu ao II Concílio de Braga, em 572.
Além do sermão, deixou obras morais como a Formula vitae honestae e o De ira.
O sermão contra as superstições
Por volta de 572, o bispo Polémio de Astorga pediu-lhe um texto para instruir os camponeses. Martinho respondeu com um sermão simples, pensado para ser lido ao povo.
Primeiro conta a história da criação. Depois explica, à maneira cristã da época, de onde vêm os deuses pagãos: seriam demónios que tomaram os nomes de pessoas antigas — Júpiter, Marte, Mercúrio, Saturno e Vénus.
Acrescenta que os camponeses chamam a esses espíritos Neptuno no mar, Lâmias nos rios, Ninfas nas fontes e Dianas nos bosques.
O que faziam os camponeses do século VI
O capítulo 16 é uma lista preciosa. Martinho condena quem:
- acende velinhas junto a pedras, árvores, fontes e encruzilhadas;
- celebra as Vulcanais e as Calendas (as festas de janeiro);
- enfeita as mesas e põe loureiros;
- deita pão nas fontes;
- verte cereais e vinho sobre o tronco que arde na lareira;
- encanta ervas para malefícios;
- deixa que as mulheres chamem por Minerva ao tecer;
- escolhe o dia de Vénus para casar.
Noutros capítulos fala de quem guarda os dias das traças e dos ratos, de quem acredita no canto das aves e de quem se deixa guiar pelos espirros.
Muitas destas práticas — velas em fontes e encruzilhadas, pão e oferendas, ervas «benzidas» — têm parentes na religiosidade popular portuguesa muito posterior. A semelhança é real, mas não prova uma continuidade direta de catorze séculos: é uma comparação a fazer com prudência.
O remédio proposto: a cruz e o Credo
Martinho não manda castigar. Pede aos camponeses que troquem os «sinais do diabo» pelo sinal da cruz e os encantamentos pelo Credo. Onde vai à frente o sinal da cruz, diz, nenhum sinal do diabo tem força.
Pede também que o domingo seja guardado com respeito, sem trabalhos desnecessários.
Os historiadores notam que o seu tom é mais brando do que o de outros pregadores da época, como Cesário de Arles.
Segunda-feira, terça-feira…
No capítulo 9, Martinho espanta-se por os cristãos darem aos dias os nomes de demónios: dia de Marte, de Mercúrio, de Júpiter, de Vénus e de Saturno.
A Igreja já usava, na liturgia, a numeração dos dias («feria secunda», «feria tertia»…). Em Portugal essa numeração acabou por vencer no uso comum. A tradição atribui a Martinho de Dume um papel decisivo nisso.
| Latim pagão | Português |
|---|---|
| Dies Lunae (Lua) | Segunda-feira |
| Dies Martis (Marte) | Terça-feira |
| Dies Mercurii (Mercúrio) | Quarta-feira |
| Dies Iovis (Júpiter) | Quinta-feira |
| Dies Veneris (Vénus) | Sexta-feira |
| Dies Saturni (Saturno) | Sábado |
| Dies Solis (Sol) | Domingo |
O português é caso único entre as grandes línguas românicas. Curiosamente, o galego, tão próximo, manteve em geral os nomes pagãos (luns, martes, mércores…).
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Porque é que este texto importa
Para quem estuda a magia popular, o sermão é um documento raro: descreve crenças de gente comum que não deixou escritos. Foi copiado e imitado na Idade Média, até em sermões ingleses e num texto nórdico antigo.
É, ao mesmo tempo, um retrato visto pelos olhos de um bispo — que via demónios onde os camponeses viam costumes.
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Fontes
- Martinho de Dume, De correctione rusticorum, texto latino — The Latin Library
- «Martinho de Dume», Wikipédia — pt.wikipedia.org
- «De correctione rusticorum», Wikipedia — en.wikipedia.org
- «Martiño de Dumio», Lugares de Memoria, Consello da Cultura Galega — consellodacultura.gal