A Tábua de Esmeralda é um texto muito curto, com cerca de uma dúzia de frases, atribuído a Hermes Trismegisto. É o texto mais famoso da tradição hermética e alquímica. A frase «o que está em cima é como o que está em baixo» vem daqui.
O mais antigo texto conhecido está em árabe. Aparece no final do Kitāb sirr al-khalīqa («Livro do Segredo da Criação»), que se apresenta como obra de Balīnās, nome árabe de Apolónio de Tiana. Esta atribuição é pseudoepigráfica: era comum, na literatura árabe de magia e alquimia, pôr obras sob o nome de sábios gregos. A data do livro é discutida: os estudiosos propõem desde os séculos VI–VIII (Ruska) até c. 750–800 (Weisser) ou c. 813–833 (Kraus). Em geral, aceita-se o fim do século VIII ou início do IX, com base em materiais gregos ou siríacos mais antigos.
O livro árabe conta uma lenda: Balīnās desce a uma passagem subterrânea sob uma estátua de Hermes e encontra um ancião sentado num trono de ouro, com uma tábua de esmeralda verde nas mãos. É uma moldura literária, não um relato histórico. Não existe nenhuma tábua física conhecida.
No século XII, o texto passou ao latim. A tradução de Hugo de Santalla (c. 1145–1151) quase não circulou. A que se impôs foi uma versão anónima do século XII, chamada «vulgata», base de todas as edições e traduções europeias posteriores. É essa a versão que aqui apresentamos. Outra versão latina, diferente, veio no Secretum secretorum («Segredo dos Segredos»), obra árabe do século X atribuída falsamente a Aristóteles e traduzida para latim por Filipe de Trípoli no século XIII.
A vulgata foi lida através do comentário de Hortulano («o Jardineiro»), um alquimista do início do século XIV de quem quase nada se sabe. Foi impressa pela primeira vez em 1541, em Nuremberga, com esse comentário. Séculos depois, Isaac Newton traduziu-a para inglês e comentou-a. Apresentamos o texto como documento histórico: não é um manual prático, e as suas imagens foram lidas de formas muito diferentes ao longo dos séculos.
Ficha
| Campo | Informação |
|---|---|
| Título original | Tabula Smaragdina (latim); em árabe, parte final do Kitāb sirr al-khalīqa |
| Data | Árabe: fim do séc. VIII / início do IX (estimativas entre os séc. VI e IX); latim (vulgata): séc. XII |
| Autor | Atribuído a Hermes Trismegisto (lendário), transmitido por «Balīnās» (Apolónio de Tiana, atribuição falsa); autor real desconhecido |
| Língua original | Árabe (talvez a partir de fontes gregas ou siríacas); aqui, versão latina |
| Texto seguido | Vulgata latina, ed. Steele e Singer (1928), a partir de um compêndio anónimo do séc. XII |
| Tradução | Grimório.pt, 2026, a partir do texto latino (domínio público) |
O texto
O original não tem numeração. A divisão em 15 frases é nossa, só para facilitar a leitura. A grafia latina é a medieval (celum por caelum, tocius por totius).
1
Verum sine mendacio, certum, certissimum.
É verdade, sem mentira, certo e certíssimo.
2
Quod est superius est sicut quod inferius, et quod inferius est sicut quod est superius. Ad preparanda miracula rei unius.
O que está em cima é como o que está em baixo, e o que está em baixo é como o que está em cima, para preparar os milagres de uma só coisa.
3
Sicut res omnes ab una fuerunt meditatione unius, et sic sunt nate res omnes ab hac re una aptatione.
Assim como todas as coisas vieram de uma, pela meditação de um, assim também todas as coisas nasceram desta coisa única, por adaptação.
4
Pater ejus sol, mater ejus luna.
O seu pai é o Sol, a sua mãe é a Lua.
5
Portavit illud ventus in ventre suo.
O vento trouxe-o no seu ventre.
6
Nutrix ejus terra est.
A terra é a sua ama.
7
Pater omnis Telesmi tocius mundi hic est.
Aqui está o pai de todo o telesma do mundo inteiro. [telesmus: palavra obscura; ver as notas]
8
Vis ejus integra est. Si versa fuerit in terram separabit terram ab igne, subtile a spisso.
A sua força é íntegra. Se for convertida em terra, separará a terra do fogo, o subtil do espesso. [muitas edições ligam as duas frases: «a sua força é íntegra se for convertida em terra»]
9
Suaviter cum magno ingenio ascendit a terra in celum. Iterum descendit in terram, et recipit vim superiorem atque inferiorem.
Suavemente, com grande engenho, sobe da terra ao céu. De novo desce à terra e recebe a força superior e a inferior.
10
Sicque habebis gloriam claritatis mundi. Ideo fugiet a te omnis obscuritas.
E assim terás a glória da claridade do mundo. Por isso, fugirá de ti toda a obscuridade.
11
Hic est tocius fortitudinis fortitudo fortis, quia vincet omnem rem subtilem, omnemque rem solidam penetrabit.
Esta é a força forte de toda a força, porque vencerá toda a coisa subtil e penetrará toda a coisa sólida.
12
Sicut hic mundus creatus est.
Assim foi criado este mundo.
13
Hinc erunt aptationes mirabiles quarum mos hic est.
Daqui virão adaptações admiráveis, cujo modo é este.
14
Itaque vocatus sum Hermes, tres tocius mundi partes habens sapientie.
Por isso fui chamado Hermes, pois tenho as três partes da sabedoria do mundo inteiro.
15
Et completum est quod diximus de opere solis ex libro Galieni Alfachimi.
E está completo o que dissemos sobre a obra do Sol, do livro de Galieni Alfachimi. [nome não identificado com segurança]
Notas
«Uma só coisa» (frases 2–3). O texto nunca diz o que é essa «coisa». Os alquimistas latinos leram-na como a matéria da pedra filosofal. Outros leitores, sobretudo a partir do Renascimento, deram-lhe um sentido cosmológico ou espiritual.
Sol e Lua (frase 4). Hortulano interpretou o Sol e a Lua como o ouro e a prata dos alquimistas. É uma interpretação, não algo que o texto diga.
Telesma (frase 7). O tradutor latino não percebeu a palavra árabe ṭilasm («talismã») e transcreveu-a como telesmus ou telesmum, uma palavra nova sem sentido claro em latim. Hortulano entendeu-a como «segredo» ou «tesouro»; Newton traduziu-a por perfection («perfeição»).
Separar o subtil do espesso (frase 8). O verbo separabit está na 3.ª pessoa («separará»). Muitas traduções modernas usam o imperativo («separa»), seguindo outras edições. Mantivemos o texto latino desta versão.
Hermes (frase 14). A vulgata diz apenas «Hermes». As edições impressas posteriores escrevem «Hermes Trismegisto», e as «três partes da sabedoria» foram muitas vezes ligadas ao epíteto «três vezes grande».
Galieni Alfachimi (frase 15). Expressão obscura, que não aparece em todas as versões. Alfachimi parece transcrever o árabe al-ḥakīm («o sábio»), mas a quem se refere continua por esclarecer.
A tradução de Newton. Isaac Newton fez uma tradução inglesa com comentário, datada de cerca de 1680. O manuscrito está na coleção Keynes (Keynes MS 28), no King's College de Cambridge. Começa assim: 'Tis true without lying, certain & most true. Mostra como a alquimia ainda interessava a um dos fundadores da física moderna.
Onde ler o original
- Texto latino da vulgata e tradução de Newton: Sacred Texts — The Emerald Tablet of Hermes
- Texto latino, história e bibliografia: Emerald Tablet — Wikipedia (inglês)
- Texto latino da edição de Nuremberga (1541): Tabula Smaragdina — Wikipedia (alemão)
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Fontes
- Emerald Tablet — Wikipedia (inglês) (datação, versões latinas, Hortulano, Newton)
- Tabula Smaragdina — Wikipedia (alemão)
- Table d'émeraude — Wikipédia (francês) (primeira edição impressa, 1541)
- The Emerald Tablet of Hermes — Sacred Texts (texto latino segundo Steele e Singer, 1928; tradução de Newton segundo Dobbs, 1988)
- The Alchemy Reader, cap. 27: Newton, Commentary on the Emerald Tablet (Keynes MS 28) — Cambridge University Press