O Arbatel de magia veterum («Arbatel, sobre a magia dos antigos») é um pequeno livro latino impresso em Basileia em 1575, sem nome de autor, pelo editor Pietro Perna. É uma das obras de magia mais lidas do Renascimento tardio.
O livro anuncia nove tomos, mas só foi publicado o primeiro, a Isagoge («Introdução»): 49 aforismos organizados em sete septenários (7 × 7). É esse texto completo que aqui traduzimos.
Autoria: é desconhecida. Alguns manuscritos alemães atribuíram-no a Paracelso, sem qualquer prova. O investigador Joseph Peterson propõe o francês Jacques Gohory (1520–1576); a revisão final terá passado por Theodor Zwinger. São hipóteses, não factos estabelecidos. O que é claro é a influência das ideias de Paracelso (microcosmo, espíritos elementais, experiência).
O tom é muito diferente dos grimórios «salomónicos»: há muita oração, citações bíblicas e ética, e quase nenhum ritual. A parte mais conhecida são os sete espíritos olímpicos (Aratron, Bethor, Phaleg, Och, Hagith, Ophiel, Phul), que aparecem pela primeira vez neste livro. A história da obra, a receção e a influência (John Dee, Johann Weyer, Robert Turner) estão na ficha do livro:
Apresentamos o texto como documento histórico. As promessas que contém (curas, vida de séculos, transmutação de metais, espíritos obedientes) são afirmações de um autor do século XVI, não factos. Nenhuma prática aqui descrita garante qualquer resultado, e nada neste texto substitui um médico.
Ficha
| Campo | Informação |
|---|---|
| Título original | Arbatel De magia veterum. Summum sapientiae studium |
| Data | Impresso em Basileia, 1575 (editor Pietro Perna) |
| Autor | Anónimo; atribuído sem prova a Paracelso; hipótese de J. Peterson: Jacques Gohory |
| Língua original | Latim |
| Texto seguido | Tradução inglesa de Robert Turner (Londres, 1655), texto integral da edição EEBO-TCP; numeração latina dos septenários |
| Tradução | Grimório.pt, 2026, a partir da versão inglesa de Robert Turner (1655, domínio público), confrontada com o latim nas passagens citadas pela edição de J. H. Peterson |
O texto
A numeração dos aforismos é a original. Os títulos dos septenários seguem a divisão latina (7 × 7). Onde o original tem um desenho (os «caracteres» ou selos dos espíritos), indicamo-lo entre parênteses retos. As citações bíblicas vão em itálico.
Página de rosto
Arbatel. Sobre a magia dos antigos. O maior estudo da sabedoria.
Em todas as coisas, pede conselho ao Senhor; e não penses, digas ou faças coisa alguma em que Deus não seja o teu conselheiro. (Provérbios 11)
Quem anda com fraude revela segredos; mas quem é de espírito fiel encobre o assunto.
Arbatel da magia, ou a sabedoria espiritual dos antigos, tanto dos sábios do povo de Deus como dos magos dos gentios, para ilustração da glória de Deus e do seu amor pelo género humano. Agora, pela primeira vez, trazido das trevas para a luz, contra todos os cacomagos e desprezadores dos dons de Deus; para proveito e deleite de todos os que amam verdadeira e piedosamente as criaturas de Deus e as usam com ação de graças, para honra de Deus e proveito de si mesmos e do próximo. Contém nove tomos e sete septenários de aforismos.
- O primeiro chama-se Isagoge, ou livro das instituições da magia, que em quarenta e nove aforismos abrange os preceitos mais gerais de toda a arte.
- O segundo é a magia microcósmica: o que o microcosmo [o ser humano] realizou magicamente pelo seu espírito e pelo génio que lhe foi atribuído desde o nascimento, isto é, a sabedoria espiritual, e como se realiza.
- O terceiro é a magia olímpica: de que maneira um homem pode agir e sofrer por meio dos espíritos do Olimpo.
- O quarto é a magia hesiódica e homérica, que ensina as operações por meio dos espíritos chamados cacodemónios, como se não fossem adversários do género humano.
- O quinto é a magia romana ou sibilina, que age com os espíritos tutelares e senhores a quem está distribuído todo o orbe da terra. É uma magia muito notável. A ela se referia a doutrina dos druidas.
- O sexto é a magia pitagórica, que age só com os espíritos a quem foi dada a doutrina das artes, como a física, a medicina, a matemática, a alquimia e artes semelhantes.
- O sétimo é a magia de Apolónio e semelhantes, e concorda com a magia romana e microcósmica; só tem de próprio que tem poder sobre a parte hostil do género humano.
- O oitavo é a magia hermética, isto é, egípcia, e não difere muito da magia divina.
- O nono é a sabedoria que depende unicamente da palavra de Deus, e chama-se magia profética.
Primeiro tomo do livro de Arbatel da magia, chamado Isagoge
Em nome do Criador de todas as coisas, visíveis e invisíveis, que revela os seus mistérios, tirados dos seus tesouros, aos que o invocam, e que paternal e misericordiosamente nos concede esses segredos sem medida. Que Ele nos conceda, por meio do seu Filho unigénito, Jesus Cristo, nosso Senhor, os seus espíritos ministros, reveladores dos seus segredos, para que escrevamos este livro de Arbatel sobre os maiores segredos que é lícito ao homem conhecer e usar sem ofensa a Deus. Ámen.
Primeiro septenário (aforismos 1–7)
Aforismo 1
Quem quiser conhecer segredos, saiba guardar em segredo as coisas secretas; revelar o que deve ser revelado e selar o que deve ser selado; e não dar as coisas santas aos cães, nem lançar pérolas aos porcos. Observa esta lei, e os olhos do teu entendimento abrir-se-ão para compreender as coisas secretas; e terás, divinamente revelado, tudo o que a tua mente desejar. Terás também os anjos e os espíritos de Deus prontos, por natureza, a servir-te, tanto quanto uma mente humana pode desejar.
Aforismo 2
Em todas as coisas invoca o nome do Senhor; e não empreendas nem penses coisa alguma sem oração a Deus, por meio do seu Filho unigénito. Usa os espíritos que te foram dados e atribuídos como ministros, sem temeridade nem presunção, como mensageiros de Deus, com a devida reverência para com o Senhor dos espíritos. E o resto da tua vida cumpre-o com paz, para honra de Deus e proveito teu e do teu próximo.
Aforismo 3
Vive para ti e para as Musas. Evita a amizade da multidão. Sê avaro do tempo e benfazejo para com todos. Usa os teus dons, sê vigilante na tua vocação, e que a palavra de Deus nunca se afaste da tua boca.
Aforismo 4
Obedece aos bons conselhos. Foge de toda a procrastinação. Habitua-te à constância e à gravidade, nas palavras e nas obras. Resiste às tentações do tentador com a palavra de Deus. Foge das coisas terrenas e procura as celestes. Não confies na tua própria sabedoria, mas olha para Deus em todas as coisas, segundo a sentença da Escritura: Quando não sabemos o que havemos de fazer, a ti, ó Deus, levantamos os olhos, e de ti esperamos o nosso auxílio. Pois onde todos os refúgios humanos nos abandonam, aí brilha o auxílio de Deus, segundo o dito de Fílon.
Aforismo 5
Amarás o Senhor teu Deus de todo o teu coração e com todas as tuas forças, e ao teu próximo como a ti mesmo. E o Senhor guardar-te-á como a menina dos seus olhos, livrar-te-á de todo o mal e encher-te-á de todo o bem; e nada desejará a tua alma que não te seja plenamente concedido, desde que sirva a salvação da tua alma e do teu corpo.
Aforismo 6
Repete com frequência tudo o que aprendeste e fixa-o na mente. Aprende muito, mas não muitas coisas, porque o entendimento humano não pode ser igualmente capaz em tudo, a não ser que seja divinamente regenerado: para esse, nada é tão difícil ou variado que não o possa alcançar igualmente.
Aforismo 7
Invoca-me no dia da tribulação, e eu te ouvirei, e tu me glorificarás, diz o Senhor. Toda a ignorância é tribulação da mente; por isso, invoca o Senhor na tua ignorância, e Ele ouvir-te-á. E lembra-te de dar honra a Deus e de dizer com o salmista: Não a nós, Senhor, não a nós, mas ao teu nome dá glória.
Segundo septenário (aforismos 8–14)
Aforismo 8
Assim como a Escritura testemunha que Deus dá nomes às coisas e às pessoas e, com eles, distribuiu certos poderes e ofícios tirados dos seus tesouros, assim também os caracteres e os nomes das estrelas não têm poder algum por causa da sua figura ou da sua pronúncia, mas por causa da virtude ou do ofício que Deus ordenou, pela natureza, a esse nome ou carácter. Pois não há poder algum, no céu, na terra ou no inferno, que não desça de Deus; e sem a sua permissão não podem dar nem pôr em ação nada do que têm.
Aforismo 9
A sabedoria mais alta é a que vem de Deus; a seguir, a que está nas criaturas espirituais; depois, nas criaturas corporais; em quarto lugar, na natureza e nas coisas naturais. Depois destas, a grande distância, vêm os espíritos apóstatas, reservados para o juízo final. Em sexto lugar, os ministros dos castigos no inferno, obedientes a Deus. Em sétimo, os pigmeus, que não ocupam o lugar mais baixo, e os que habitam nos elementos e nas coisas elementares.
Convém, portanto, conhecer e distinguir todas as diferenças da sabedoria do Criador e das criaturas, para que nos seja claro o que devemos tomar para nosso uso de cada coisa, e para sabermos de verdade como e de que modo isso se pode fazer. Pois cada criatura foi ordenada para algum fim útil à natureza humana e ao seu serviço, como testemunham as Sagradas Escrituras, a razão e a experiência.
Aforismo 10
Deus Pai todo-poderoso, criador do céu e da terra e de todas as coisas visíveis e invisíveis, apresenta-se nas Sagradas Escrituras como quem vela por nós; e, como um pai terno que ama os filhos, ensina-nos o que é proveitoso e o que não é, o que devemos evitar e o que devemos abraçar. Depois atrai-nos à obediência com grandes promessas de bens corporais e eternos, e afasta-nos, com a ameaça de castigos, das coisas que não nos são proveitosas. Folheia, pois, de noite e de dia, esses escritos santos, para que sejas feliz nas coisas presentes e bem-aventurado para toda a eternidade. Faz isto e viverás, é o que os livros santos te ensinaram.
Aforismo 11
O número quatro é pitagórico e o primeiro quadrado. Ponhamos, pois, aqui o fundamento de toda a sabedoria, depois da sabedoria de Deus revelada nas Sagradas Escrituras e da que se propõe à consideração na natureza.
Atribui, portanto, a quem depende só de Deus, que a sabedoria de todas as criaturas o sirva e lhe obedeça, nolens volens, queira ou não queira. E nisto brilha a omnipotência de Deus. Consiste, pois, nisto: distinguir as criaturas que nos servem de boa vontade das que o fazem contra vontade, e aprender a adaptar a nós a sabedoria e o ofício de cada criatura. Esta arte não se transmite senão divinamente. A quem Deus quer, revela os seus segredos; mas aquele a quem não quer conceder nada dos seus tesouros não alcançará coisa alguma sem a vontade de Deus.
Por isso devemos pedi-lo verdadeiramente só a Deus, que misericordiosamente no-lo comunicará. Pois quem nos deu o seu Filho e nos mandou pedir o seu Espírito Santo, quanto mais não nos sujeitará toda a criação, as coisas visíveis e as invisíveis? Tudo o que pedirdes, recebereis. Tende cuidado em não abusar dos dons de Deus, e todas as coisas cooperarão para a vossa salvação. E, antes de tudo, velai por que os vossos nomes estejam escritos no céu: é coisa menor que os espíritos vos obedeçam, como Cristo adverte.
Aforismo 12
Nos Atos dos Apóstolos, depois da visão, o Espírito diz a Pedro, quando foi chamado pelo centurião Cornélio: Desce e não duvides, porque fui eu que os enviei. Deste modo, por palavras faladas, são transmitidas todas as disciplinas pelos santos anjos de Deus, como se vê pelos monumentos dos egípcios. Estas coisas foram depois viciadas e corrompidas por opiniões humanas e por instigação dos maus espíritos, que semeiam joio entre os filhos da desobediência, como é manifesto por São Paulo e por Hermes Trismegisto.
Não há outro modo de restaurar estas artes senão pela doutrina dos santos espíritos de Deus, porque a verdadeira fé vem pelo ouvir. Mas, para que estejas certo da verdade e não duvides se os espíritos que falam contigo dizem coisas verdadeiras ou falsas, faz que isso dependa só da tua fé em Deus, para que possas dizer com Paulo: Sei em quem confio. Se nenhum pardal cai por terra sem a vontade do Pai que está nos céus, quanto menos permitirá Deus que sejas enganado, ó homem de pouca fé, se dependes inteiramente de Deus e só a Ele te unes?
Aforismo 13
O Senhor vive, e tudo o que vive vive n'Ele. E Ele é verdadeiramente [palavra hebraica no original; o nome divino «Eu sou»], que deu a todas as coisas serem aquilo que são; e só pela sua palavra, por meio do seu Filho, tirou do nada todas as coisas que existem. Chama pelos nomes todas as estrelas e todo o exército do céu.
Conhece, portanto, a verdadeira força e natureza das coisas, a ordem e o governo de cada criatura visível e invisível, aquele a quem Deus revelou os nomes das suas criaturas. Resta ainda que receba de Deus o poder de extrair as virtudes da natureza e os segredos ocultos da criatura, e de pôr o seu poder em ação, tirando-o das trevas para a luz.
O teu objetivo deve ser, pois, conhecer os nomes dos espíritos, isto é, os seus poderes e ofícios, e como estão sujeitos e designados por Deus para te servir: tal como Rafael foi enviado a Tobias para curar o pai e livrar o filho dos perigos e lhe dar uma esposa. Assim Miguel, a fortaleza de Deus, governa o povo de Deus; Gabriel, mensageiro de Deus, foi enviado a Daniel, a Maria e a Zacarias, pai de João Batista. E ser-te-á dado, se o desejares, quem te ensine tudo o que a tua alma desejar sobre a natureza das coisas. Usarás o seu ministério com temor e tremor diante do teu Criador, Redentor e Santificador, isto é, o Pai, o Filho e o Espírito Santo. Não deixes escapar nenhuma ocasião de aprender, sê vigilante na tua vocação, e nada do que te for necessário te faltará.
Aforismo 14
A tua alma vive para sempre, por aquele que te criou. Invoca, pois, o Senhor teu Deus, e só a Ele servirás. Farás isto se quiseres cumprir o fim para que foste ordenado por Deus e o que deves a Deus e ao próximo.
Deus pede-te uma mente que honre o seu Filho e guarde no coração as palavras do Filho: se o honrares, terás feito a vontade do teu Pai que está nos céus. Ao próximo deves os ofícios da humanidade, e atrair todos os que vêm a ti a honrar o Filho. Esta é a Lei e os Profetas. Nas coisas temporais, deves invocar Deus como pai, para que te dê tudo o que é necessário a esta vida; e deves ajudar o próximo com os dons que Deus te concede, sejam espirituais ou corporais.
Rezarás, pois, assim:
Ó Senhor do céu e da terra, criador e autor de todas as coisas visíveis e invisíveis:
eu, embora indigno, com o teu auxílio te invoco, por teu Filho unigénito, Jesus Cristo, nosso Senhor,
para que me dês o teu Espírito Santo, que me guie na tua verdade para todo o bem. Ámen.
Porque desejo ardentemente conhecer com perfeição as artes desta vida e as coisas que nos são necessárias,
tão submersas em trevas e manchadas por infinitas opiniões humanas
que eu, pelas minhas forças, não posso chegar a conhecê-las se tu não mas ensinares:
concede-me, pois, um dos teus espíritos, que me ensine o que queres que eu saiba e aprenda,
para teu louvor e glória e proveito do nosso próximo.
Dá-me também um coração dócil e capaz de aprender,
para que entenda facilmente o que me ensinares e o guarde no meu entendimento,
para o tirar, como dos teus tesouros inesgotáveis, para todos os usos necessários.
E dá-me a graça de usar esses teus dons com humildade, com temor e tremor,
por nosso Senhor Jesus Cristo, com o teu Espírito Santo. Ámen.
Terceiro septenário (aforismos 15–21)
Aforismo 15
Chamam-se espíritos olímpicos os que habitam no firmamento e nas estrelas do firmamento. O seu ofício é declarar os destinos e administrar os encantamentos fatais, na medida em que Deus lhes permite; pois nada, nem espírito mau nem mau destino, poderá fazer mal a quem tem o Altíssimo por refúgio.
Se, portanto, algum dos espíritos olímpicos ensinar ou declarar o que prenuncia a estrela a que está designado, nada poderá pôr em ação sem permissão do poder divino. Só Deus lhes dá poder para o realizar. A Deus, criador de todas as coisas, obedecem todas as coisas celestes, sublunares e infernais. Descansa, pois, nisto: que Deus seja o teu guia em tudo o que empreenderes, e tudo chegará a um fim feliz e desejado, como testemunha a história de todo o mundo e mostra a experiência de cada dia. Há paz para os piedosos; não há paz para os ímpios, diz o Senhor.
Aforismo 16
Há sete governos diferentes dos espíritos do Olimpo, pelos quais Deus determinou que toda a estrutura e universo deste mundo fosse governado. As suas estrelas visíveis são Aratron, Bethor, Phaleg, Och, Hagith, Ophiel, Phul, na língua olímpica. Cada um destes tem debaixo de si uma poderosa milícia no firmamento.
| Governador | Províncias visíveis |
|---|---|
| Aratron | 49 |
| Bethor | 32 |
| Phaleg | 35 |
| Och | 28 |
| Hagith | 21 |
| Ophiel | 14 |
| Phul | 7 |
Há, portanto, 186 províncias olímpicas em todo o universo, nas quais os sete governadores exercem o seu poder. Todas estão elegantemente expostas na astronomia. Mas aqui deve explicar-se de que modo estes príncipes e potestades podem ser trazidos à comunicação.
Aratron aparece na primeira hora de sábado e dá respostas muito verdadeiras sobre as suas províncias e os seus súbditos. Do mesmo modo aparecem os outros, por ordem, nos seus dias e horas. Cada um deles governa também 490 anos. O início da sua anomalia simples, no ano 60 antes do nascimento de Cristo, foi o início da administração de Bethor, que durou até ao ano de Cristo de 430. Sucedeu-lhe Phaleg, até ao ano 920. Começou então Och, que durou até ao ano 1410; e desde então governa Hagith, até ao ano 1900.
Aforismo 17
Os príncipes dos sete governadores são chamados magicamente, de modo simples, no tempo, dia e hora em que governam, visível ou invisivelmente, pelos seus nomes e ofícios que Deus lhes deu, e apresentando o carácter que eles deram ou confirmaram.
O governador Aratron tem em seu poder as coisas que faz naturalmente, isto é, do mesmo modo e na mesma matéria que, na astronomia, se atribuem ao poder de Saturno. As que faz por sua livre vontade são:
- Pode converter qualquer coisa em pedra num instante, animal ou planta, conservando o mesmo aspeto à vista.
- Converte tesouros em carvões e carvões em tesouro.
- Dá familiares com um poder determinado.
- Ensina a alquimia, a magia e a física [medicina].
- Reconcilia os espíritos subterrâneos com os homens; faz homens peludos.
- Faz alguém ficar invisível.
- Torna fecundos os estéreis e dá vida longa.
[Aqui o original apresenta o carácter de Aratron.]
Tem debaixo de si 49 reis, 42 príncipes, 35 presidentes, 28 duques, 21 ministros que estão diante dele, 14 familiares, sete mensageiros; comanda 36 000 legiões de espíritos; uma legião é 490.
Bethor governa as coisas atribuídas a Júpiter. Vem depressa quando é chamado. A quem é honrado com o seu carácter, eleva-o a grandíssimas dignidades e abre-lhe tesouros. Reconcilia os espíritos do ar, para que deem respostas verdadeiras. Estes transportam pedras preciosas de um lugar para outro e fazem que os remédios operem milagrosamente nos seus efeitos. Dá também os familiares do firmamento e prolonga a vida até 700 anos, se Deus quiser.
[Aqui o original apresenta o carácter de Bethor.]
Tem debaixo de si 42 reis, 35 príncipes, 28 duques, 21 conselheiros, 14 ministros, 7 mensageiros e 29 000 legiões de espíritos.
Phaleg governa as coisas atribuídas a Marte, príncipe da paz. [assim no texto] A quem tem o seu carácter, eleva-o a grandes honras nos assuntos da guerra.
[Aqui o original apresenta o carácter de Phaleg.]
Och governa as coisas solares. Dá 600 anos com saúde perfeita; concede grande sabedoria, dá espíritos excelentíssimos, ensina remédios perfeitos; converte todas as coisas em ouro puríssimo e pedras preciosas; dá ouro e uma bolsa de onde brota ouro. A quem é honrado com o seu carácter, fá-lo ser venerado como uma divindade pelos reis de todo o mundo.
[Aqui o original apresenta o carácter de Och.]
Tem debaixo de si 36 536 legiões. Administra tudo sozinho, e todos os seus espíritos o servem por centúrias.
Hagith governa as coisas de Vénus. A quem é honrado com o seu carácter, torna-o muito belo e adornado de toda a formosura. Converte o cobre em ouro num instante, e o ouro em cobre. Dá espíritos que servem fielmente aqueles a quem são atribuídos.
[Aqui o original apresenta o carácter de Hagith.]
Tem 4000 legiões de espíritos, e sobre cada mil põe reis para os seus tempos determinados.
Ophiel é o governador das coisas atribuídas a Mercúrio. O seu carácter é este: [aqui o original apresenta o carácter de Ophiel]. Os seus espíritos são 100 000 legiões. Dá facilmente espíritos familiares; ensina todas as artes; e a quem é honrado com o seu carácter, torna-o capaz de converter num instante o mercúrio na pedra filosofal.
Phul tem este carácter: [aqui o original apresenta o carácter de Phul]. Muda todos os metais em prata, por palavra e por obra; governa as coisas lunares; cura a hidropisia; dá espíritos da água, que servem os homens em forma corporal e visível; e faz os homens viver 300 anos.
Os preceitos mais gerais deste segredo:
- Cada governador age com todos os seus espíritos, ou naturalmente, isto é, sempre do mesmo modo, ou então por sua livre vontade, se Deus não os impedir.
- Cada governador pode fazer tudo o que se faz naturalmente em muito tempo, a partir de matéria já preparada, e fazê-lo também de repente, a partir de matéria não preparada. Assim Och, príncipe das coisas solares, prepara o ouro nas montanhas em muito tempo; em menos tempo, pela arte química; e magicamente, num instante.
- O verdadeiro e divino mago pode usar todas as criaturas de Deus e os ofícios dos governadores do mundo à sua vontade, porque os governadores do mundo lhe obedecem, vêm quando são chamados e executam as suas ordens; mas Deus é o autor disso, como quando Josué fez parar o Sol no céu. Aos magos medianos mandam alguns dos seus espíritos, que lhes obedecem só em algum assunto determinado; mas não ouvem os falsos magos: expõem-nos, por ordem de Deus, aos enganos dos demónios e lançam-nos em diversos perigos, como testemunha o profeta Jeremias, no capítulo oitavo, a respeito dos judeus.
- Em todos os elementos estão os sete governadores com as suas hostes, que se movem com o movimento igual do firmamento; e os inferiores dependem sempre dos superiores, como se ensina na filosofia.
- O homem que é verdadeiro mago nasce mago desde o ventre da mãe; os outros, que se dão a este ofício, são infelizes. É isto que diz João Batista: Ninguém pode fazer coisa alguma por si, se não lhe for dado do alto.
- Todo o carácter dado por um espírito, seja por que causa for, tem eficácia no assunto para que foi dado, no tempo fixado; mas deve ser usado no mesmo dia e na mesma hora planetária em que foi dado.
- Deus vive, e a tua alma vive: guarda a tua aliança, e terás tudo o que o espírito te revelar em Deus, porque se fará tudo o que o espírito te prometer.
Aforismo 18
Há outros nomes dos espíritos olímpicos, transmitidos por outros; mas só são eficazes os que são transmitidos a alguém pelo espírito revelador, visível ou invisível. E são dados a cada um conforme está predestinado; por isso se chamam constelações, e raramente têm eficácia por mais de 40 anos. Por isso é mais seguro que o principiante na arte trabalhe só pelos ofícios dos espíritos, sem os seus nomes; e, se estiver predestinado a alcançar a arte da magia, as outras partes da arte oferecer-se-lhe-ão por si mesmas. Pede, pois, uma fé constante, e Deus fará tudo acontecer a seu tempo.
Aforismo 19
O Olimpo e os seus habitantes oferecem-se por si mesmos aos homens em forma de espíritos, e estão prontos a cumprir por eles os seus ofícios, quer eles queiram quer não; quanto mais o farão se forem pedidos? Mas aparecem também espíritos maus e destruidores, por inveja e malícia do diabo, e porque os homens os atraem a si com os seus pecados, como castigo devido aos pecadores.
Quem desejar, portanto, ter trato familiar com os espíritos, guarde-se de todos os pecados graves e peça diligentemente ao Altíssimo que seja o seu guarda; e romperá todos os laços e impedimentos do diabo. E dedique-se ao serviço de Deus, e Ele dar-lhe-á aumento de sabedoria.
Aforismo 20
Todas as coisas são possíveis aos que creem e as querem receber; mas aos incrédulos e aos que não querem, todas são impossíveis. Não há maior impedimento do que uma mente vacilante, a leviandade, a inconstância, o falar tolo, a embriaguez, as luxúrias e a desobediência à palavra de Deus. O mago deve, portanto, ser um homem piedoso, honesto, constante nas palavras e nas obras, de fé firme em Deus, prudente, e que não cobice nada senão a sabedoria sobre as coisas divinas.
Aforismo 21
Quando quiseres chamar algum dos espíritos olímpicos, observa o nascer do Sol nesse dia e de que natureza é o espírito que desejas; e, dizendo a oração seguinte, os teus desejos serão cumpridos:
Deus omnipotente e eterno, que ordenaste toda a criação para teu louvor e glória e para a salvação do homem,
peço-te que envies o teu espírito N. N., da ordem solar,
que me informe e ensine as coisas que lhe perguntar;
ou que me traga remédio contra a hidropisia, etc.
Contudo, não se faça a minha vontade, mas a tua,
por Jesus Cristo, teu Filho unigénito, nosso Senhor. Ámen.
Mas não reterás o espírito mais do que uma hora inteira, a não ser que te esteja familiarmente atribuído. [Para o despedir:]
Porque vieste em paz e tranquilamente, e respondeste aos meus pedidos,
dou graças a Deus, em cujo nome vieste;
e agora podes partir em paz para as tuas ordens,
e voltar a mim quando te chamar pelo teu nome, ou pela tua ordem, ou pelo teu ofício,
que te foi concedido pelo Criador. Ámen.
Eclesiastes, capítulo 5: Não sejas precipitado com a tua boca, nem se apresse o teu coração a proferir palavra diante de Deus; porque Deus está no céu, e tu na terra: por isso sejam poucas as tuas palavras, porque o sonho vem da multidão dos cuidados.
Quarto septenário (aforismos 22–28)
Aforismo 22
Chamamos segredo àquilo que nenhum homem pode alcançar pelo engenho humano sem revelação: ciência escondida por Deus na criatura, que Ele, no entanto, permite que seja revelada pelos espíritos, para o devido uso da própria coisa. Estes segredos dizem respeito às coisas divinas, naturais ou humanas. Mas podes examinar alguns, os mais escolhidos, que recomendarás com muitos outros.
Aforismo 23
Começa pela natureza do segredo, seja por meio de um espírito em forma de pessoa, seja por virtudes separadas, seja em órgãos humanos, seja de qualquer outro modo por que possa realizar-se. Conhecido isto, pede a um espírito que conheça essa arte que te declare brevemente o que é esse segredo; e pede a Deus que te inspire com a sua graça, para que leves o segredo ao fim que desejas, para louvor e glória de Deus e proveito do teu próximo.
Aforismo 24
Os maiores segredos são sete:
- O primeiro é curar todas as doenças no espaço de sete dias, por caracteres, por coisas naturais ou pelos espíritos superiores, com a assistência divina.
- O segundo é poder prolongar a vida até à idade que quisermos: digo, a vida corporal e natural.
- O terceiro é ter a obediência das criaturas dos elementos que existem em forma de espíritos pessoais; e também dos pigmeus, dos sagani, das ninfas, das dríades e dos espíritos dos bosques.
- O quarto é poder falar com conhecimento e entendimento de todas as coisas visíveis e invisíveis, e compreender o poder de cada coisa e aquilo a que pertence.
- O quinto é o homem ser capaz de se governar segundo o fim para que Deus o destinou.
- O sexto é conhecer Deus, e Cristo, e o seu Espírito Santo: esta é a perfeição do microcosmo.
- O sétimo é ser regenerado, como Henoch, rei do mundo inferior.
Estes sete segredos pode um homem de mente honesta e constante aprendê-los dos espíritos, sem ofensa alguma a Deus.
Os segredos médios são também sete:
- O primeiro é a transmutação dos metais, a que o vulgo chama alquimia; que certamente é dada a muito poucos, e só por graça especial.
- O segundo é curar doenças com metais, ou pelas virtudes magnéticas das pedras preciosas, ou pelo uso da pedra filosofal, e coisas semelhantes.
- O terceiro é poder realizar milagres astronómicos e matemáticos, como são as máquinas hidráulicas; tratar assuntos pela influência do céu, e coisas desse género.
- O quarto é realizar as obras da magia natural, de qualquer tipo que sejam.
- O quinto é conhecer todos os segredos da física [ciência da natureza].
- O sexto é conhecer o fundamento de todas as artes que se exercem com as mãos e os ofícios do corpo.
- O sétimo é conhecer o fundamento de todas as artes que se exercem pela natureza angélica do homem.
Os segredos menores são sete:
- O primeiro é fazer as coisas com diligência e juntar muito dinheiro.
- O segundo é subir de um estado humilde a dignidades e honras, e fundar uma família nova, que seja ilustre e faça grandes coisas.
- O terceiro é distinguir-se nos assuntos militares, alcançar com felicidade grandes feitos e ser cabeça entre os chefes de reis e príncipes.
- [O quarto é] ser bom administrador da casa, no campo e na cidade.
- O quinto é ser um mercador industrioso e afortunado.
- [O sexto é] ser filósofo, matemático e médico segundo Aristóteles, Platão, Ptolomeu, Euclides, Hipócrates e Galeno.
- [O sétimo é] ser teólogo segundo a Bíblia e as Escolas, como ensinaram todos os escritores de teologia, antigos e modernos.
Aforismo 25
Já declarámos o que é um segredo, e os seus géneros e espécies. Resta mostrar como podemos chegar a conhecer as coisas que desejamos.
O verdadeiro e único caminho para todos os segredos é recorrer a Deus, autor de todo o bem, e, como Cristo ensina:
- Buscai primeiro o reino de Deus e a sua justiça, e todas estas coisas vos serão acrescentadas.
- Vede também que os vossos corações não se sobrecarreguem com a glutonaria, a embriaguez e os cuidados desta vida.
- Confiai também os vossos cuidados ao Senhor, e Ele o fará.
- Eu, o Senhor teu Deus, ensino-te o que te é proveitoso e guio-te no caminho por onde andas.
- Dar-te-ei entendimento e ensinar-te-ei o caminho por onde hás de ir, e guiar-te-ei com os meus olhos.
- Se vós, sendo maus, sabeis dar coisas boas aos vossos filhos, quanto mais o vosso Pai que está nos céus dará o seu Espírito Santo aos que lho pedirem?
- Se fizerdes a vontade do meu Pai que está nos céus, sereis verdadeiramente meus discípulos, e viremos a vós e faremos em vós a nossa morada.
Se levares estes sete passos da Escritura da letra ao espírito, ou à ação, não poderás errar, mas chegarás ao termo desejado; não falharás o alvo, e o próprio Deus, pelo seu Espírito Santo, ensinar-te-á coisas verdadeiras e proveitosas. Dar-te-á também os seus anjos ministros, para serem teus companheiros, ajudantes e mestres de todos os segredos do mundo, e mandará a todas as criaturas que te obedeçam, de modo que, alegrando-te, possas dizer com os apóstolos que os espíritos te obedecem; e, por fim, estarás certo da maior coisa de todas: que o teu nome está escrito no céu.
Aforismo 26
Há outro caminho, mais comum, pelo qual os segredos te podem ser revelados mesmo sem que o saibas: por Deus, ou pelos espíritos que têm os segredos em seu poder; ou por sonhos, ou por imaginações e impressões fortes, ou pela constelação do nascimento, por conhecimento celeste. Deste modo se fazem os homens heroicos, que são muitíssimos, e todos os sábios do mundo: Platão, Aristóteles, Hipócrates, Galeno, Euclides, Arquimedes, Hermes Trismegisto, pai dos segredos, com Teofrasto Paracelso. Todos estes tiveram em si todas as virtudes dos segredos. Aqui se incluem também Homero, Hesíodo, Orfeu e Pitágoras; mas estes não tiveram tais dons de segredos como os anteriores. Aqui se incluem as ninfas e os filhos de Melusina, e os deuses dos gentios, Aquiles, Eneias, Hércules; e também Ciro, Alexandre Magno, Júlio César, Luculo, Sila e Mário.
É regra que cada um conheça o seu anjo e lhe obedeça segundo a palavra de Deus, e que se guarde dos laços do anjo mau, para não cair nas calamidades de Bruto e de Marco António. Para isto remete-se ao livro de Joviano Pontano sobre a Fortuna, e ao seu Eutychus.
O terceiro caminho é o trabalho diligente e duro, sem o qual não se obtém da Divindade nada de grande e digno de admiração, como se diz:
Tu nihil invita dices faciesve Minerva.
Nada dirás nem farás contra a vontade de Minerva.
Detestamos todos os maus magos, que se fazem sócios dos demónios com as suas superstições ilícitas, e obtêm e realizam algumas coisas que Deus permite que se façam, em lugar de castigos dos demónios. Assim fazem também outros atos maus, sendo o diabo o autor, como as Escrituras testemunham de Judas. A estes pertencem todos os idólatras antigos e do nosso tempo, e os que abusam da fortuna, de que os pagãos estão cheios. E a estes pertence toda a evocação caróntica [necromântica] de espíritos, como a obra de Saul com a mulher [de Endor], e a profecia de Lucano [na Farsália] sobre o soldado morto, a respeito do desfecho da guerra de Farsália, e coisas semelhantes.
Aforismo 27
Faz um círculo com o centro A, que seja B, C, D, E. A oriente fique B–C, um quadrante; a norte, C–D; a ocidente, D–E; e a sul, E–B [Turner escreve «E. D.»]. Divide cada quadrante em sete partes, para que haja ao todo 28 partes; e volta a dividi-las em quatro, para que haja 112 partes do círculo: tantos são os verdadeiros segredos a revelar.
Este círculo, assim dividido, é o selo dos segredos do mundo, que tiram do único centro A, isto é, do Deus invisível, para toda a criação. O príncipe dos segredos orientais reside no meio e tem três nobres de cada lado, cada um dos quais tem quatro debaixo de si, e o próprio príncipe tem quatro que lhe pertencem. E deste modo os outros príncipes e nobres têm os seus quadrantes de segredos, com os seus quatro segredos.
O segredo oriental é o estudo de toda a sabedoria; o ocidental, da força; o do sul, da agricultura; o do norte, de uma vida mais rígida. De modo que os segredos orientais são tidos como os melhores; os do sul, médios; e os do ocidente e do norte, menores [Turner escreve «East and North»].
O uso deste selo dos segredos é saberes de onde procedem os espíritos ou anjos que podem ensinar os segredos que Deus lhes confiou. Eles têm nomes tirados dos seus ofícios e poderes, conforme o dom que Deus distribuiu a cada um. Um tem o poder da espada; outro, da peste; outro, de lançar a fome sobre o povo, como Deus determina. Alguns são destruidores de cidades, como os dois que foram enviados para destruir Sodoma e Gomorra e os lugares vizinhos, de que a Sagrada Escritura dá exemplos. Uns são vigias dos reinos; outros, guardas das pessoas particulares.
Daqui qualquer um pode facilmente formar os seus nomes na sua própria língua: de modo que quem quiser pode pedir um anjo médico, matemático ou filosófico, ou um anjo da sabedoria civil, ou da sabedoria sobrenatural ou natural, ou de qualquer outra coisa. E peça-o a sério, com grande desejo da mente, com fé e constância; e, sem dúvida, receberá o que pede do Pai e Deus de todos os espíritos. Esta fé ultrapassa todos os selos e sujeita-os à vontade do homem.
O modo de chamar os anjos por caracteres vem depois desta fé, e depende só da revelação divina; mas, sem essa fé a precedê-lo, fica na obscuridade. Contudo, se alguém os quiser usar como memorial, e não de outro modo, e como coisa simplesmente criada por Deus para este fim, a que tal poder ou essência espiritual está ligado, pode usá-los sem ofensa a Deus. Mas guarde-se de cair na idolatria e nos laços do diabo, que com os seus sortilégios astutos engana facilmente os incautos. E ele não é apanhado senão pelo dedo de Deus, e está designado para serviço do homem; de modo que serve os piedosos contra vontade, mas não sem tentações e tribulações, porque o mandamento diz que ele morderá o calcanhar de Cristo, a descendência da mulher.
Devemos, portanto, exercitar-nos nas coisas espirituais com temor e tremor e com grande reverência para com Deus, e tratar com as essências espirituais com gravidade e justiça. E quem se mete nestas coisas guarde-se de toda a leviandade, soberba, cobiça, vaidade, inveja e impiedade, se não quiser perecer miseravelmente.
Aforismo 28
Porque todo o bem vem de Deus, o único bom, as coisas que queremos obter d'Ele devemos procurá-las pela oração, em espírito e verdade e com um coração simples. A conclusão do segredo dos segredos é que cada um se exercite na oração pelas coisas que deseja, e não sofrerá recusa. Ninguém despreze a oração: pois a quem Deus é pedido, a esse Ele pode e quer dar.
Reconheçamos, pois, o autor, a quem pedimos humildemente o que desejamos. Um Pai misericordioso e bom ama os filhos dos desejos, como Daniel, e ouve-nos mais depressa do que somos capazes de vencer a dureza dos nossos corações para rezar. Mas não quer que demos as coisas santas aos cães, nem que desprezemos e desdenhemos os dons do seu tesouro. Por isso, lê e relê com diligência e frequência o primeiro septenário dos segredos, e guia e dirige a tua vida e todos os teus pensamentos segundo esses preceitos; e todas as coisas cederão aos desejos da tua mente, no Senhor em quem confias.
Quinto septenário (aforismos 29–35)
Aforismo 29
Como o nosso estudo da magia avança por ordem a partir das regras gerais já expostas, passemos agora à sua explicação particular. Os espíritos ou são ministros divinos da palavra, da Igreja e dos seus membros; ou então servem as criaturas nas coisas corporais, em parte para a salvação da alma e do corpo, em parte para a sua perdição. E nada se faz, bom ou mau, sem uma ordem e um governo certos e determinados.
Quem procura um fim bom, siga-o; e quem deseja um fim mau, persegue-o também, e com empenho, para castigo divino, e afasta-se da vontade divina. Por isso, cada um compare os seus fins com a palavra de Deus, como com uma pedra de toque que julga entre o bem e o mal; e proponha a si mesmo o que deve evitar e o que deve procurar; e o que estabelecer e determinar para si, siga-o com diligência, sem procrastinar nem adiar, até alcançar o termo marcado.
Aforismo 30
Os que desejam riquezas, glória deste mundo, magistraturas, honras, dignidades, tiranias (e isso magicamente), se se esforçarem diligentemente, alcançá-las-ão, cada um segundo o seu destino, a sua diligência e as suas ciências mágicas. Assim o testemunha a história de Melesina [nome incerto] e dos seus magos, que determinaram que nenhum italiano obtivesse jamais o governo ou o reino de Nápoles, e fizeram que quem reinava no seu tempo fosse derrubado do trono. Tão grande é o poder dos anjos guardiães ou tutelares dos reinos do mundo.
Aforismo 31
Chama o príncipe do reino, dá-lhe uma ordem, manda o que quiseres, e será feito, se esse príncipe não for de novo desligado da obediência por um mago posterior. Assim, o reino de Nápoles poderia ser restituído aos italianos, se algum mago chamasse aquele que instituiu esta ordem e o obrigasse a revogar o que fez. Poderia também ser obrigado a restituir os poderes secretos tirados do tesouro da magia: um livro, uma gema, uma trompa mágica; e, tendo-os, qualquer um poderia facilmente, se quisesse, fazer-se monarca do mundo.
Mas o judeu [Judaeus; a figura não é identificada no texto] preferiu viver entre deuses até ao juízo, em vez do bem passageiro deste mundo; e o seu coração está tão cego que nada entende do Deus do céu e da terra, nem pensa em mais nada, mas goza os deleites das coisas imortais, para sua eterna perdição. E pode ser chamado mais facilmente do que o anjo de Plotino no templo de Ísis.
Aforismo 32
Do mesmo modo, os romanos foram ensinados pelos livros das Sibilas, e por esse meio fizeram-se senhores do mundo, como as histórias testemunham. Mas os senhores do príncipe de um reino concedem as magistraturas menores. Quem desejar, portanto, um cargo ou dignidade menor, chame magicamente um nobre do príncipe, e os seus desejos serão cumpridos.
Aforismo 33
Mas quem cobiça dignidades desprezíveis, como só as riquezas, chame o príncipe das riquezas ou um dos seus senhores, e obterá o que deseja no género por que quer enriquecer: pelos bens da terra, pelo comércio, pelos dons dos príncipes, pelo estudo dos metais ou pela química. Conforme apresentar um exemplo de enriquecer por estes meios, assim obterá o seu desejo.
Aforismo 34
Toda a maneira de evocação é do mesmo género e forma, e este caminho era familiar, antigamente, às Sibilas e aos sumos sacerdotes. No nosso tempo, por ignorância e impiedade, perdeu-se totalmente; e o que resta está depravado por infinitas mentiras e superstições.
Aforismo 35
O entendimento humano é o único autor de todas as obras maravilhosas, desde que se junte a algum espírito; e, uma vez unido, produz o que quer. Por isso devemos proceder com cuidado na magia, para que as sereias e outros monstros não nos enganem, pois também eles desejam a companhia da alma humana. Que o mago se esconda sempre, com cuidado, debaixo das asas do Altíssimo, para não se oferecer a ser devorado pelo leão que ruge; porque os que desejam as coisas terrenas muito dificilmente escapam aos laços do diabo.
Sexto septenário (aforismos 36–42)
Aforismo 36
Deve ter-se cuidado para que não se misturem experiências com experiências, mas que cada uma seja simples e separada; porque Deus e a natureza ordenaram todas as coisas para um fim certo e determinado. Assim, por exemplo, os que fazem curas com as ervas e raízes mais simples são os que curam com mais felicidade. E deste modo, nas constelações, nas palavras e caracteres, nas pedras e coisas semelhantes, escondem-se as maiores influências ou virtudes, que valem por um milagre.
Assim também as palavras que, pronunciadas, fazem logo obedecer as criaturas visíveis e invisíveis, tanto as deste nosso mundo como as da água, do ar, subterrâneas e olímpicas, supracelestes e infernais, e também as divinas.
Por isso deve estudar-se sobretudo a simplicidade, e o conhecimento desses simples deve ser pedido a Deus; de outro modo, por nenhum outro meio ou experiência se podem descobrir.
Aforismo 37
E que todas as sortes tenham o seu lugar com decência. Ordem, razão e meio são as três coisas que tornam fácil toda a aprendizagem, tanto das criaturas visíveis como das invisíveis.
O curso da ordem é este: umas criaturas são criaturas da luz; outras, das trevas. Estas estão sujeitas à vaidade, porque se precipitam nas trevas e se prendem a castigos eternos pela sua rebelião. O seu reino é, em parte, muito belo nas coisas passageiras e corruptíveis, porque não pode subsistir sem alguma virtude e grandes dons de Deus; e, em parte, imundíssimo e horrível de dizer, porque abunda em toda a maldade e pecado: idolatria, desprezo de Deus, blasfémias contra o verdadeiro Deus e as suas obras, culto dos demónios, desobediência aos magistrados, sedições, homicídios, roubos, tirania, adultérios, luxúrias perversas, raptos, furtos, mentiras, perjúrios, soberba e desejo cobiçoso de mandar. Nesta mistura consiste o reino das trevas.
Mas as criaturas da luz estão cheias da verdade eterna e da graça de Deus, são senhoras de todo o mundo e reinam sobre os senhores das trevas, como membros de Cristo. Entre umas e outras há guerra contínua, até que Deus ponha fim à contenda com o juízo final.
Aforismo 38
A magia é, portanto, dupla na sua primeira divisão: uma é de Deus, que Ele concede às criaturas da luz; a outra também é de Deus, mas é o dom que Ele dá às criaturas das trevas. E esta é também dupla: uma para um fim bom, como quando os príncipes das trevas são obrigados a fazer bem às criaturas, forçando-os Deus; outra para um fim mau, quando Deus permite que estes castiguem os maus, para que sejam magicamente enganados para a perdição; ou ainda quando lhes manda que sejam lançados na perdição.
A segunda divisão da magia é que realiza umas obras com instrumentos visíveis, por coisas visíveis; outras, com instrumentos invisíveis, por coisas invisíveis; e outras com meios mistos, tanto nos instrumentos como nos efeitos.
A terceira divisão é esta: há coisas que se realizam só pela invocação de Deus; esta magia é em parte profética e filosófica e em parte, por assim dizer, teofrástica. Há outras que, por ignorância do verdadeiro Deus, se fazem com os príncipes dos espíritos, para cumprir os desejos de alguém: tal é a obra dos mercurialistas.
A quarta divisão é que alguns exercem a sua magia com os anjos bons em lugar de Deus, como se tivessem descido do Deus altíssimo: tal foi a magia de Baalim [Balaão]. Outra magia é a que exerce as suas ações com os chefes dos espíritos maus: tais foram os que trabalhavam com os deuses menores dos pagãos.
A quinta divisão é que alguns tratam com os espíritos abertamente e face a face, o que é dado a poucos; outros trabalham por sonhos e outros sinais, que os antigos tiravam dos seus augúrios e sacrifícios.
A sexta divisão é que alguns trabalham com criaturas imortais, outros com criaturas mortais, como as ninfas, os sátiros e outros habitantes semelhantes dos outros elementos, os pigmeus, etc.
A sétima divisão é que os espíritos servem alguns por vontade própria, sem arte; a outros, chamados por arte, mal os atendem.
Entre estas espécies de magia, a mais excelente de todas é a que depende só de Deus. A segunda, a daqueles a quem os espíritos servem fielmente por vontade própria. A terceira é a própria dos cristãos, que depende do poder que Cristo tem no céu e na terra.
Aforismo 39
Há uma preparação em sete partes para aprender a arte mágica.
A primeira é meditar de dia e de noite em como chegar ao verdadeiro conhecimento de Deus, tanto pela sua palavra revelada desde a fundação do mundo, como pelo selo da criação e das criaturas, e pelos efeitos maravilhosos que as criaturas visíveis e invisíveis de Deus mostram.
Em segundo lugar, é preciso que o homem desça a si mesmo e estude sobretudo conhecer-se: que parte mortal e que parte imortal tem em si, e que parte lhe é própria e qual lhe é alheia.
Em terceiro, que aprenda, pela parte imortal de si, a adorar, amar e temer o Deus eterno e a adorá-lo em espírito e verdade; e, com a parte mortal, a fazer as coisas que sabe serem agradáveis a Deus e proveitosas ao próximo.
Estes são os três primeiros e principais preceitos da magia, com que se deve preparar todo aquele que deseja obter a verdadeira magia ou sabedoria divina, para ser tido por digno dela e como alguém a quem as criaturas angélicas servem de boa vontade, não só ocultamente, mas também manifestamente, e como que face a face.
Em quarto lugar, cada um deve estar atento para ver a que género de vida foi chamado desde o ventre da mãe, para que saiba se nasceu para a magia, e para que espécie dela. Isto qualquer um o pode perceber facilmente, lendo estas coisas, e pela experiência pode ter êxito nelas; porque tais coisas e tais dons não são dados senão aos pequenos e humildes.
Em quinto lugar, devemos cuidar de entender quando os espíritos nos assistem ao empreender os maiores assuntos. Quem entende isto, é manifesto que será feito mago por ordenação de Deus, isto é, uma pessoa que usa o ministério dos espíritos para realizar coisas excelentes. Aqui, na maior parte dos casos, pecam: por negligência, ignorância ou desprezo, ou por excesso de superstição; ofendem também pela ingratidão para com Deus, com a qual muitos homens famosos atraíram depois sobre si a ruína; pecam ainda pela temeridade e obstinação, e quando não usam os seus dons para a honra de Deus que se requer.
Em sexto lugar, o mago precisa de fé e de silêncio, sobretudo para não revelar nenhum segredo que o espírito lhe tenha proibido, como mandou a Daniel selar algumas coisas, isto é, não as declarar em público; assim como a Paulo não foi lícito dizer abertamente tudo o que viu numa visão. Ninguém acreditará quanto se contém neste único preceito.
Em sétimo lugar, naquele que quer ser mago requer-se a maior justiça: que não empreenda nada de ímpio, perverso ou injusto, nem o deixe sequer entrar no pensamento; e assim será divinamente defendido de todo o mal.
Aforismo 40
Quando o mago decidir fazer alguma coisa incorpórea, com algum sentido exterior ou interior, governe-se pelas sete leis seguintes para alcançar o seu fim mágico.
A primeira lei é esta: que saiba que tal espírito lhe foi destinado por Deus, e medite que Deus vê todos os seus pensamentos e ações; por isso dirija todo o curso da sua vida segundo a regra prescrita na palavra de Deus.
Segunda: reze sempre com David: Não retires de mim o teu Santo Espírito, e sustenta-me com o teu espírito generoso; e não nos deixes cair em tentação, mas livra-nos do mal. Peço-te, ó Pai celeste, que não dês poder a nenhum espírito mentiroso, como fizeste sobre Acab, que pereceu; mas guarda-me na tua verdade. Ámen.
Terceira: habitue-se a provar os espíritos, como a Escritura adverte; pois não se colhem uvas dos espinhos. Provemos todas as coisas e retenhamos o que é bom e louvável, para evitar tudo o que é contrário ao poder divino.
A quarta é manter-se afastado e limpo de toda a superstição. Porque isto é superstição: atribuir divindade, neste campo, a coisas em que nada há de divino; ou escolher ou inventar para nós uma forma de adorar Deus que Ele não mandou. Tais são as cerimónias mágicas de Satanás, pelas quais ele se oferece descaradamente para ser adorado como Deus.
A quinta coisa a evitar é todo o culto dos ídolos, que liga algum poder divino a ídolos ou a outras coisas por iniciativa própria, onde não foi posto pelo Criador nem pela ordem da natureza: coisas que muitos magos falsos e perversos inventam.
Sexta: devem evitar-se também todas as imitações e artifícios enganadores do diabo, com que ele imita o poder da criação e do Criador, para produzir coisas com uma palavra, de modo que não sejam o que são. Isso pertence só à omnipotência de Deus e não é comunicável à criatura.
Sétima: agarremo-nos firmemente aos dons de Deus e do seu Espírito Santo, para os conhecermos e abraçarmos com diligência, de todo o coração e com todas as forças.
Aforismo 41
Chegamos agora aos nove últimos aforismos de todo este tomo, nos quais, com a ajuda da misericórdia divina, concluiremos esta Isagoge mágica.
Em primeiro lugar, deve observar-se o que entendemos, nesta obra, por mago. Consideramos mago aquele a quem, pela graça de Deus, as essências espirituais servem para manifestar o conhecimento de todo o universo e dos segredos da natureza nele contidos, visíveis ou invisíveis. Esta descrição do mago é clara e universal.
Mago mau é aquele a quem, por permissão divina, os espíritos maus servem, para sua perdição temporal e eterna, para enganar os homens e afastá-los de Deus. Tal foi Simão Mago, de quem se fala nos Atos dos Apóstolos e em Clemente, a quem São Pedro fez cair por terra, quando ele se fazia elevar no ar, como se fosse um deus, pelos espíritos imundos. A esta ordem pertencem também todos os que estão assinalados nas duas tábuas da Lei, com as suas más obras.
As subdivisões e espécies de ambos os géneros de magia serão indicadas nos tomos seguintes. Aqui basta distinguir as ciências, qual é boa e qual é má; pois o homem procurou obter ambas desde o princípio, para sua ruína e perdição, como Moisés e Hermes demonstram.
Aforismo 42
Em segundo lugar, devemos saber que o mago é uma pessoa predestinada a esta obra desde o ventre da mãe; e que ninguém se arrogue coisas tão grandes se não for chamado divinamente pela graça para algum fim bom. [Ser chamado] para um fim mau é para que se cumpram as Escrituras: É necessário que venham escândalos; mas ai daquele homem por quem vêm. Por isso, como já muitas vezes advertimos, devemos viver neste mundo com temor e tremor.
Não negarei, contudo, que alguns homens possam obter, com estudo e diligência, alguma espécie de ambos os géneros de magia, se for permitido. Mas nunca chegarão às espécies mais altas; e, se as cobiçarem e as tentarem, ofenderão sem dúvida alma e corpo. Tais são os que, pelas operações de falsos magos, são por vezes levados ao monte Horeb, ou a algum ermo ou deserto; ou ficam mutilados de algum membro, ou são simplesmente despedaçados, ou privados do entendimento: como acontecem muitas coisas assim pelo seu uso, quando os homens são abandonados por Deus e entregues ao poder de Satanás.
Sétimo septenário (aforismos 43–49)
Aforismo 43
O Senhor vive, e as obras de Deus vivem n'Ele pela sua determinação, pela qual quer que existam; pois quer que usem a sua liberdade em obediência aos seus mandamentos ou em desobediência a eles. Aos obedientes propôs as suas recompensas; aos desobedientes, o castigo merecido.
Por isso estes espíritos, por livre vontade, pela sua soberba e desprezo do Filho de Deus, revoltaram-se contra Deus, seu Criador, e estão reservados para o dia da ira. Ficou-lhes um poder muito grande na criação, mas limitado; estão confinados aos seus limites com o freio de Deus. Por isso o mago de Deus, que significa um sábio de Deus, ou alguém instruído por Deus, é conduzido pela mão de Deus a todo o bem eterno, tanto às coisas médias como às coisas corporais mais altas.
Grande é o poder de Satanás, por causa dos grandes pecados dos homens. Por isso também os magos de Satanás realizam grandes coisas, maiores do que alguém acreditaria: embora se mantenham dentro dos seus limites, estão acima de toda a compreensão humana quanto às coisas corporais e passageiras desta vida, como muitas histórias antigas e exemplos diários testemunham.
Os dois géneros de magia diferem um do outro nos seus fins: um conduz ao bem eterno e usa as coisas temporais com ação de graças; o outro pouco se preocupa com as coisas eternas e ocupa-se inteiramente das corporais, para gozar livremente todas as suas luxúrias e prazeres, com desprezo de Deus e da sua ira.
Aforismo 44
A passagem da vida comum do homem para a vida mágica não é mais do que um sono daquela vida e um despertar para esta; porque as coisas que acontecem aos homens ignorantes e insensatos na sua vida comum acontecem também ao mago, mas este quer e sabe. [isto é: o mago vive as mesmas coisas, mas com consciência delas]
O mago entende quando a mente medita por si mesma; delibera, raciocina, estabelece e determina o que se deve fazer; observa quando os seus pensamentos procedem de uma essência divina separada, e prova de que ordem é essa essência divina separada.
Mas o homem que ignora a magia é levado de um lado para o outro, como em guerra com os seus afetos; não sabe quando saem da sua própria mente ou quando são impressos pela essência que o assiste; e não sabe derrubar os conselhos dos seus inimigos pela palavra de Deus, nem guardar-se dos laços e enganos do tentador.
Aforismo 45
O maior preceito da magia é saber o que cada um deve receber para seu uso do espírito que o assiste, e o que deve recusar. Pode aprendê-lo do salmista, que diz: Como purificará o jovem o seu caminho? Guardando a tua palavra, Senhor. Guardar a palavra de Deus, de modo que o maligno não a arranque do coração, é o principal preceito da sabedoria.
É lícito admitir e pôr em prática outras sugestões que não sejam contrárias à glória de Deus e à caridade para com o próximo, sem perguntar de que espírito procedem. Mas devemos ter cuidado para não nos ocuparmos demasiado de coisas desnecessárias, segundo a advertência de Cristo: Marta, Marta, andas inquieta com muitas coisas; mas Maria escolheu a melhor parte, que não lhe será tirada. Tenhamos, pois, sempre em conta o dito de Cristo: Buscai primeiro o reino de Deus e a sua justiça, e todas estas coisas vos serão acrescentadas; isto é, todas as coisas devidas ao microcosmo mortal, como o alimento, o vestuário e as artes necessárias desta vida.
Aforismo 46
Nada fica tão bem ao homem como a constância nas palavras e nas obras, e quando o semelhante se alegra com o seu semelhante. Não há ninguém mais feliz do que estes, porque os santos anjos andam à volta deles e têm a sua guarda. Pelo contrário, os homens inconstantes são mais leves do que nada e do que folhas podres. [Turner acrescenta aqui: «Escolhemos destes o aforismo 46»; frase obscura]
Assim como cada um se governa, assim atrai a si espíritos da sua natureza e condição. Mas alguém aconselha com toda a verdade que ninguém se leve para além da sua própria vocação, para não atrair a si, dos confins da terra, algum espírito maligno que o enlouqueça e engane ou o leve à perdição final.
Este preceito aparece com toda a clareza: pois Midas, quando quis converter todas as coisas em ouro, atraiu a si um espírito capaz de o fazer; e, enganado por ele, teria sido levado à morte pela fome, se a sua loucura não tivesse sido corrigida pela misericórdia de Deus. O mesmo aconteceu, no nosso tempo, a uma certa mulher perto de Frankfurt an der Oder, que queria juntar e devorar dinheiro de qualquer coisa.
Oxalá os homens pesassem com diligência este preceito e não tivessem por fábulas as histórias de Midas e semelhantes! Seriam muito mais diligentes em moderar os seus pensamentos e afetos, e não seriam tão continuamente atormentados pelos espíritos das montanhas de ouro da Utopia. Devemos, pois, observar com toda a diligência que tal presunção seja expulsa da mente pela palavra, enquanto é nova; e que não ganhe hábito na mente ociosa, vazia da palavra divina.
Aforismo 47
Quem vive fielmente na sua vocação terá também os espíritos como companheiros constantes dos seus desejos, que o ajudarão sucessivamente em todas as coisas. E, se tiver algum conhecimento de magia, não se recusarão a mostrar-se-lhe, a conversar com ele familiarmente e a servi-lo nos vários ministérios a que estão destinados: os espíritos bons, nas coisas boas, para a salvação; os maus, em toda a coisa má, para a perdição.
Não faltam exemplos nas histórias de todo o mundo, e acontecem diariamente. Teodósio, antes da vitória sobre Arbogasto, é exemplo dos bons; Bruto, antes de ser morto, é exemplo dos espíritos maus, quando foi perseguido pelo espírito de César e exposto ao castigo, até se matar a si mesmo, ele que tinha matado o próprio pai e o pai da pátria.
Aforismo 48
Toda a magia é uma revelação de espíritos do mesmo género que essa magia. Assim, em Hesíodo, as nove Musas são chamadas a nona magia, como ele próprio claramente testemunha na Teogonia. Em Homero, o génio de Ulisses, na Psicagogia [a descida ao mundo dos mortos, Odisseia, canto XI]. Em Hermes, os espíritos das partes mais sublimes da mente. Deus revelou-se a Moisés na sarça. Aos três sábios que vieram procurar Cristo a Jerusalém, o anjo do Senhor foi o seu guia. Os anjos do Senhor dirigiram Daniel.
Por isso não há nada de que alguém se possa gloriar: Pois não é daquele que quer, nem daquele que corre, mas daquele de quem Deus se compadece, ou de algum outro destino espiritual. Daqui nasce toda a magia, e para aqui volta, seja boa ou má. Deste modo Tages, o primeiro mestre da magia dos romanos, brotou da terra. Diana dos Efésios mostrou o seu culto como se tivesse sido enviado do céu. Assim também Apolo; e toda a religião dos pagãos foi tirada dos mesmos espíritos. Nem as opiniões dos saduceus são invenções humanas.
Aforismo 49
A conclusão desta Isagoge é, portanto, a mesma que já dissemos: assim como há um só Deus, de quem vem todo o bem, há um só pecado, a saber, a desobediência à vontade de Deus que manda, de onde vem todo o mal. Assim, o temor de Deus é o princípio de toda a sabedoria e o proveito de toda a magia; pois ao temor de Deus segue-se a obediência à vontade de Deus; e depois disto seguem-se a presença de Deus e do Espírito Santo, o ministério dos santos anjos e todos os bens dos tesouros inesgotáveis de Deus.
Mas a magia inútil e condenável nasce disto: onde perdemos do coração o temor de Deus e deixamos o pecado reinar em nós, aí o príncipe deste mundo, o deus deste mundo, começa e levanta o seu reino, em lugar das coisas santas, naqueles que acha úteis ao seu reino. Aí, como a aranha apanha a mosca que cai na sua teia, assim Satanás estende as suas redes e apanha os homens com os laços da cobiça, até os sugar e arrastar para o fogo eterno. A estes favorece e eleva bem alto, para que a queda seja maior.
Leitor benévolo, aplica os olhos e a mente às histórias sagradas e profanas e às coisas que vês fazer-se todos os dias no mundo, e acharás todas as coisas cheias de magia, segundo uma ciência dupla, boa e má. Para que melhor se distingam, poremos aqui a sua divisão e subdivisão, como conclusão destas Isagoges, para que cada um contemple o que deve seguir e o que deve evitar, e até onde deve cada um trabalhar, para um fim conveniente da vida e do viver.
Ciências boas
- Teosofia: conhecimento da palavra de Deus e governo da própria vida segundo a palavra de Deus; conhecimento do governo de Deus por meio dos anjos, a que a Escritura chama vigias, e compreensão do mistério dos anjos.
- Antroposofia, dada ao homem: conhecimento das coisas naturais; sabedoria nas coisas humanas.
Ciências más
- Cacosofia: desprezo da palavra de Deus e viver segundo a vontade do diabo; ignorância do governo de Deus por meio dos anjos; desprezar a guarda dos anjos e ter por companheiros os do diabo; idolatria; ateísmo.
- Cacodemonia: conhecimento dos venenos na natureza e o seu uso; sabedoria em todas as artes más, para destruição do género humano, e usá-las com desprezo de Deus, para dano e perdição dos homens.
FIM.
Notas
O nome «Arbatel». O livro não o explica. A edição de Esoteric Archives propõe uma origem hebraica, «quádruplo» + El («Deus»), ligada ao nome divino de quatro letras (Tetragrama). É uma hipótese, não um dado seguro.
Os septenários. A edição inglesa de Turner (1655) numera mal alguns títulos (chama «terceiro» a dois septenários). Seguimos a divisão lógica 7 × 7 do latim: 1–7, 8–14, 15–21, 22–28, 29–35, 36–42, 43–49.
Espíritos olímpicos (aforismos 16–17). A ordem segue os planetas: Saturno (Aratron), Júpiter (Bethor), Marte (Phaleg), Sol (Och), Vénus (Hagith), Mercúrio (Ophiel) e Lua (Phul). Os nomes não aparecem em nenhum texto anterior conhecido. A cronologia de períodos de 490 anos punha Hagith a governar até 1900; os leitores posteriores deduziram que se lhe seguiria Ophiel.
«Príncipe da paz» (aforismo 17). É estranho aplicado a Marte, mas é o que dizem as edições; não corrigimos.
Curas e longevidade. As promessas de curar doenças em sete dias, «curar a hidropisia» ou viver 300, 600 ou 700 anos são afirmações do autor, típicas da literatura mágica do século XVI. Não têm qualquer base médica.
Sagani (aforismo 24). Termo de Paracelso para certos espíritos elementais. Os «pigmeus» são, no mesmo vocabulário, os espíritos da terra.
Nápoles (aforismos 30–31). O autor alude a uma lenda sobre magos que teriam impedido os italianos de governar o reino de Nápoles (então sob a coroa de Espanha). «Melesina» e o «judeu» não são identificados com segurança.
Referências clássicas. «Evocação caróntica» vem de Caronte, o barqueiro dos mortos. Lucano, na Farsália (livro VI), conta como a feiticeira Ericto faz falar um soldado morto. Tages é, na tradição etrusca, a criança que brotou de um sulco da terra e ensinou a adivinhação. O fantasma de César que aparece a Bruto vem de Plutarco.
Paracelso (aforismo 26). É uma das raras menções nominais a autores do século XVI no livro, e mostra a proximidade do Arbatel aos círculos paracelsianos.
Onde ler o original
- Tradução inglesa de Robert Turner (1655), com introdução e notas de Joseph H. Peterson: Arbatel De magia veterum — Esoteric Archives
- Texto integral da edição de Londres de 1655 (Agrippa, Fourth Book, com o Arbatel no fim), transcrição EEBO-TCP: Text Creation Partnership, A26563
- Bibliografia, manuscritos e edições de 1575 e 1579: De magia veterum — Theatrum Paracelsicum
Continue a ler
➜ Heptameron de Pedro de Abano
➜ John Dee
Fontes
- Arbatel De magia veterum, trad. Robert Turner (1655) — Esoteric Archives, ed. Joseph H. Peterson
- Henry Cornelius Agrippa's Fourth Book of Occult Philosophy… and Arbatel of Magick, trad. Robert Turner, Londres, 1655 — EEBO-TCP (A26563)
- Arbatel de magia veterum — Wikipedia (inglês) (datação, Perna, Zwinger, hipótese Gohory, Weyer, Dee)
- De magia veterum — Theatrum Paracelsicum
- Joseph H. Peterson (ed. e trad.), Arbatel: Concerning the Magic of the Ancients, Lake Worth, Ibis Press, 2009.