O Heptameron («Os sete dias») é um pequeno manual latino de magia cerimonial organizado pelos sete dias da semana. Para cada dia indica um anjo principal, um planeta, os «anjos do ar», um perfume e uma conjuração.
A edição mais antiga conhecida foi impressa em Marburgo em 1559, por Andreas Kolbe, ao lado do chamado Quarto Livro de Filosofia Oculta, falsamente atribuído a Cornélio Agrippa. Por volta de 1581 já estava no Índice dos Livros Proibidos.
Autoria: o livro apresenta-se como obra do médico e filósofo Pedro de Abano (c. 1250–c. 1316). O historiador Lynn Thorndike considerou essa atribuição «quase de certeza espúria», e o editor moderno Joseph H. Peterson concorda. O autor real é desconhecido. O texto aproveita materiais mais antigos, como a Chave de Salomão e o Livro Jurado de Honório.
A história, as edições e a influência do livro estão na ficha:
➜ Heptameron: a ficha do livro
Apresentamos o texto como documento histórico. Ele próprio chama ao que ensina «vaidade mágica» e «superstições mágicas». As promessas que contém (riquezas, curas, espíritos obedientes) são afirmações de um texto do século XVI, não factos. Nenhuma prática aqui descrita garante qualquer resultado. Não acrescentamos instruções nem explicações práticas.
Ficha
| Campo | Informação |
|---|---|
| Título original | Heptameron, seu Elementa magica Petri de Abano philosophi |
| Data | Primeira edição conhecida: Marburgo, 1559 (Andreas Kolbe) |
| Autor | Atribuído a Pedro de Abano (atribuição considerada falsa); autor real desconhecido |
| Língua original | Latim |
| Texto seguido | Edição de Londres de 1655 (Robert Turner), no volume do Quarto Livro de Filosofia Oculta: transcrição integral EEBO-TCP |
| Tradução | Grimório.pt, 2026, a partir do texto de 1655 (domínio público) |
Nota de tradução
De onde traduzimos. A edição latina com notas de Joseph H. Peterson (Esoteric Archives) não pôde ser descarregada integralmente para esta tradução. Traduzimos, por isso, a partir da edição de Turner de 1655, que tem a vantagem de imprimir o latim e o inglês lado a lado nas conjurações e exorcismos.
- Onde a edição de 1655 só traz o texto em inglês, traduzimos do inglês.
- Onde só traz o latim (algumas fórmulas e a conjuração de quarta-feira), traduzimos do latim.
- Onde traz as duas versões, damos uma só tradução, seguindo o inglês e assinalando entre parênteses retos quando o latim diz outra coisa.
- Os nomes divinos e mágicos (Adonay, Agla, Tetragrammaton, Eye, Saday…) ficam como na edição. Miguel, Gabriel e Rafael vão na forma portuguesa; os restantes anjos e espíritos ficam com a grafia de 1655.
- Os selos (sigilos) dos anjos e as figuras não são reproduzidos; indicamo-los entre parênteses retos. Letras ilegíveis na transcrição ficam assinaladas com [?].
A edição de 1655 começa o Heptameron logo a seguir ao fim do Quarto Livro; daí as referências ao «livro anterior».
O texto
Heptameron, ou Elementos Mágicos de Pedro de Abano, filósofo
No livro anterior, que é o quarto livro de Agrippa, fala-se suficientemente das cerimónias mágicas e das iniciações.
Mas como ele parece ter escrito para os eruditos e bem experimentados nesta arte, porque não trata especificamente das cerimónias, falando delas antes em geral, pareceu bem acrescentar aqui os elementos mágicos de Pedro de Abano: para que aqueles que até agora são ignorantes e não provaram as superstições mágicas os tenham à mão e saibam como exercitar-se nelas. Pois vemos neste livro como que uma introdução à vaidade mágica; e, como num exercício presente, poderão contemplar as funções distintas dos espíritos, como podem ser trazidos ao discurso e à comunicação; o que se deve fazer em cada dia e em cada hora; e como devem ser lidos, como se estivessem descritos sílaba a sílaba.
Em resumo, neste livro guardam-se os princípios das operações mágicas. Mas porque o maior poder é atribuído aos círculos (pois são como fortalezas que defendem os operadores, a salvo dos espíritos maus), trataremos em primeiro lugar da composição de um círculo.
Do círculo e da sua composição
A forma dos círculos não é sempre uma e a mesma: costuma mudar segundo a ordem dos espíritos que se hão de chamar, os seus lugares, tempos, dias e horas. Porque, ao fazer um círculo, deve considerar-se em que estação do ano, em que dia e em que hora se faz; que espíritos se querem chamar, a que estrela e região pertencem, e que funções têm.
Façam-se, pois, três círculos com nove pés de largura, distantes um do outro um palmo.
No círculo do meio escreva-se: primeiro, o nome da hora em que se faz a obra. Em segundo lugar, o nome do anjo da hora. Em terceiro, o selo do anjo da hora. Em quarto, o nome do anjo que rege o dia em que se faz a obra, e os nomes dos seus ministros. Em quinto, o nome do tempo presente [a estação]. Em sexto, os nomes dos espíritos que regem essa parte do tempo, e dos seus presidentes. Em sétimo, o nome da cabeça do signo que rege essa parte do tempo. Em oitavo, o nome da terra, segundo essa parte do tempo. Em nono, e para completar o círculo do meio, o nome do Sol e da Lua, segundo a mesma regra do tempo; porque, conforme o tempo muda, assim se devem mudar os nomes.
No círculo mais exterior desenhem-se, nos quatro ângulos, os nomes dos anjos que presidem ao ar no dia em que se quer fazer a obra, a saber: o nome do rei e dos seus três ministros.
Fora do círculo, nos quatro ângulos, façam-se pentágonos.
No círculo interior escrevam-se quatro nomes divinos, com cruzes interpostas. No meio do círculo, a saber: para oriente escreva-se Alfa, e para ocidente escreva-se Ómega; e uma cruz divida o meio do círculo.
Acabado assim o círculo, segundo a regra acima escrita, prosseguirás.
Dos nomes das horas e dos anjos que as regem
Deve saber-se também que os anjos regem as horas em ordem sucessiva, segundo o curso dos céus e dos planetas a que estão sujeitos; de modo que o espírito que governa o dia rege também a primeira hora do dia; o segundo a partir deste governa a segunda hora; o terceiro, a terceira hora, e assim por diante. E quando sete planetas e horas fizeram a sua revolução, volta-se de novo ao primeiro, que rege o dia. Falaremos, pois, primeiro dos nomes das horas.
Horas do dia: 1. Yain. 2. Janor. 3. Nasnia. 4. Salla. 5. Sadedali. 6. Thamur. 7. Ourer. 8. Thamic. 9. Neron. 10. Jayon. 11. Abai. 12. Natalon.
Horas da noite: 1. Beron. 2. Barol. 3. Thami. 4. Athar. 5. Methon. 6. Rana. 7. Netos. 8. Tusrac. 9. Sassur. 10. Agle. 11. Calerva. 12. Salam.
Dos nomes dos anjos e dos seus selos falar-se-á nos lugares próprios. Vejamos agora os nomes dos tempos.
O ano é quádruplo e divide-se em primavera, verão, outono e inverno, cujos nomes são estes:
- A primavera: Talvi. O verão: Casmaran. O outono: Adarael. O inverno: Farlas.
Primavera
- Os anjos da primavera: Caracasa, Core, Amatiel, Commissoros.
- A cabeça do signo da primavera: Spugliguel.
- O nome da terra na primavera: Amadai.
- Os nomes do Sol e da Lua na primavera: o Sol, Abraym; a Lua, Agusita.
Verão
- Os anjos do verão: Gargatel, Tariel, Gaviel.
- A cabeça do signo do verão: Tubiel.
- O nome da terra no verão: Festativi.
- Os nomes do Sol e da Lua no verão: o Sol, Athemay; a Lua, Armatus.
Outono
- Os anjos do outono: Tarquam, Guabarel.
- A cabeça do signo do outono: Torquaret.
- O nome da terra no outono: Rabinnara.
- Os nomes do Sol e da Lua no outono: o Sol, Abragini; a Lua, Matasignais.
Inverno
- Os anjos do inverno: Amabael, Ctarari.
- A cabeça do signo do inverno: Altarib.
- O nome da terra no inverno: Geremiah.
- Os nomes do Sol e da Lua no inverno: o Sol, Commutaff; a Lua, Affaterim.
As consagrações e bênçãos; e primeiro, a bênção do círculo
Quando o círculo estiver devidamente acabado, asperge-o com água benta ou purificada, e diz:
Purificar-me-ás com o hissopo, Senhor, e ficarei limpo;
lavar-me-ás, e ficarei mais branco do que a neve.
A bênção dos perfumes
O Deus de Abraão, Deus de Isaac, Deus de Jacob,
abençoa aqui as criaturas destas espécies,
para que encham o poder e a virtude dos seus odores,
de modo que nem o inimigo nem qualquer falsa imaginação possam entrar nelas:
por Nosso Senhor Jesus Cristo, etc.
Depois sejam aspergidos com água benta.
O exorcismo do fogo sobre o qual se põem os perfumes
O fogo que se há de usar para as fumigações deve estar num vaso novo de barro ou de ferro; e seja exorcizado desta maneira:
Eu te exorcizo, ó criatura do fogo,
por Aquele por quem todas as coisas foram feitas,
que lances imediatamente de ti toda a fantasia,
para que não possa causar dano em coisa alguma.
Depois diz:
Abençoa, Senhor, esta criatura do fogo e santifica-a,
para que seja abençoada para proclamar o louvor do teu santo nome,
e nenhum dano venha aos exorcistas nem aos espectadores:
por Nosso Senhor Jesus Cristo, etc.
Da veste e do pentáculo
Seja uma veste de sacerdote, se puder ser; mas, se não se puder ter, seja de linho, e limpa.
Depois toma este pentáculo, feito no dia e na hora de Mercúrio, com a Lua crescente, escrito em pergaminho feito de pele de cabrito. Mas primeiro diga-se sobre ele a missa do Espírito Santo, e seja aspergido com água do batismo.
[Figura do pentáculo no original.]
Oração que se diz quando se veste a roupa
Anoor, Amacer, Amides, Theodonias, Anitor,
pelos méritos dos anjos, ó Senhor,
vestirei a veste da salvação,
para que isto que desejo eu possa levar a efeito:
por ti, santíssimo Adonay, cujo reino dura pelos séculos dos séculos. Ámen.
[Nomes como na edição de 1655, que imprime «A Noor, Amacer»; a leitura exata é incerta.]
Da maneira de operar
Esteja a Lua crescente e cheia [inglês equal], se então se puder fazer, e não esteja queimada [combust: demasiado próxima do Sol].
O operador deve estar limpo e purificado durante nove dias antes do começo da obra, e confessado, e ter recebido a sagrada comunhão. Tenha pronto o perfume próprio do dia em que quer realizar a obra. Deve ter também água benta de um sacerdote, um vaso novo de barro com fogo, a veste e o pentáculo; e todas estas coisas sejam devida e corretamente consagradas e preparadas.
Um dos servidores leve o vaso de barro cheio de fogo e os perfumes; outro leve o livro; outro, a veste e o pentáculo; e o mestre leve a espada, sobre a qual se deve dizer uma missa do Espírito Santo. No meio da espada escreva-se este nome, Agla †, e do outro lado o nome † On †.
E, enquanto vai para o lugar consagrado, leia continuamente ladainhas, respondendo os servidores. E, quando chegar ao lugar onde há de erguer o círculo, trace as linhas do círculo como antes ensinámos; e, depois de o fazer, asperja o círculo com água benta, dizendo Asperges me, Domine, etc. [«Aspergir-me-ás, Senhor»].
O mestre deve, pois, estar purificado com jejum, castidade e abstinência de toda a luxúria durante três dias inteiros antes do dia da operação. E no dia em que quiser fazer a obra, vestido com roupas limpas e provido de pentáculos, perfumes e outras coisas necessárias, entre no círculo e chame os anjos das quatro partes do mundo que governam os sete planetas, os sete dias da semana, as cores e os metais, cujos nomes verás nos seus lugares. E, de joelhos, invocando particularmente os ditos anjos, diga [em latim]:
Ó anjos acima ditos,
sede auxiliadores do meu pedido
e ajudai-me nas minhas coisas e pedidos.
Depois chame os anjos das quatro partes do mundo que regem o ar no mesmo dia em que faz a obra ou experiência. E, tendo implorado especialmente todos os nomes e espíritos escritos no círculo, diga [em latim]:
Ó vós todos, eu vos adjuro e vos intimo,
pelo trono de Adonay,
por Hagios, Theos, Ischyros, Athanatos, Paracletos, Alfa e Ómega,
e por estes três nomes secretos, Agla, On, Tetragrammaton,
que hoje deveis cumprir o que desejo.
Feitas estas coisas, leia a conjuração destinada ao dia em que faz a experiência, como antes dissemos. Mas, se eles forem pertinazes e rebeldes e não se mostrarem obedientes, nem à conjuração destinada ao dia, nem às orações antes feitas, use então a conjuração e o exorcismo seguintes.
Exorcismo dos espíritos do ar
[A edição de 1655 imprime este exorcismo primeiro em latim e depois em inglês. Damos uma só tradução.]
Nós, feitos à imagem de Deus, dotados de poder por Deus e feitos segundo a sua vontade,
vos exorcizamos pelo poderosíssimo e fortíssimo nome de Deus, El, forte e admirável
(aqui nomeará os espíritos que quer que apareçam, de qualquer ordem que sejam),
e vos ordenamos por Aquele que disse a palavra e foi feito,
e por todos os nomes de Deus,
e pelo nome Adonay, El, Elohim, Elohe, Zebaoth, Elion, Escerchie, Jah, Tetragrammaton, Saday, Senhor Deus altíssimo:
vos exorcizamos e poderosamente vos ordenamos que apareçais imediatamente diante de nós, aqui diante deste círculo,
em bela forma humana, sem deformidade nem torcedura alguma.
Vinde vós todos, porque vos ordenamos
pelo nome Y e V, que Adão ouviu e falou;
e pelo nome de Deus Agla, que Lot ouviu, e foi salvo com a sua família;
e pelo nome Joth, que Jacob ouviu do anjo que lutava com ele, e foi livrado da mão de seu irmão Esaú;
e pelo nome Anaphexeton, que Aarão ouviu e falou, e se tornou sábio;
e pelo nome Zebaoth, que Moisés nomeou, e todos os rios e águas da terra do Egito se tornaram sangue;
e pelo nome Ecerchie Oriston, que Moisés nomeou, e todos os rios produziram rãs, que subiram às casas dos egípcios, destruindo todas as coisas;
e pelo nome Elion, que Moisés nomeou, e houve grande granizo, como não houve desde o princípio do mundo;
e pelo nome Adonay, que Moisés nomeou, e subiram gafanhotos, que apareceram sobre toda a terra do Egito e devoraram tudo o que o granizo tinha deixado;
e pelo nome Schemes amathia, que Josué invocou, e o Sol deteve o seu curso;
e pelo nome Alfa e Ómega, que Daniel nomeou, e destruiu Bel e matou o Dragão;
e no nome Emmanuel, que os três jovens, Sidrac, Misac e Abdénago, cantaram no meio da fornalha ardente, e foram libertados;
e pelo nome Hagios, e pelo selo de Adonay [latim: pelo trono de Adonay],
e por Ischyros, Athanatos, Paracletus;
e por estes três nomes secretos, Agla, On, Tetragrammaton, eu vos adjuro e vos intimo;
e por estes nomes, e por todos os outros nomes do Deus vivo e verdadeiro, e por Nosso Senhor Todo-Poderoso,
eu vos exorcizo e ordeno [latim acrescenta: a vós que por vossa culpa fostes lançados dos céus até ao lugar infernal],
por Aquele que disse a palavra e foi feito, a quem todas as criaturas obedecem;
e pelo tremendo juízo de Deus;
pelo mar incerto, de vidro, que está diante da face da divina Majestade, poderoso e potente;
pelos quatro animais diante do trono, que têm olhos à frente e atrás;
e pelo fogo em redor do seu trono;
e pelos santos anjos do céu [latim acrescenta: e por aquela que se chama Igreja de Deus];
pela grande sabedoria de Deus, poderosamente vos exorcizamos,
para que apareçais aqui diante deste círculo, para cumprir a nossa vontade em todas as coisas que nos parecerem boas;
pelo selo [latim: trono] de Baldachia,
e por este nome Primeumaton, que Moisés nomeou, e a terra abriu-se e engoliu Coré, Datan e Abiram;
e no poder desse nome Primeumaton, que comanda todo o exército do céu,
nós vos amaldiçoamos e vos privamos de todo o vosso ofício, alegria e lugar,
e vos atamos na profundeza do abismo sem fundo, para lá ficardes até ao dia do último juízo;
e vos atamos no fogo eterno e no lago de fogo e enxofre,
se não aparecerdes imediatamente aqui diante deste círculo para fazer a nossa vontade.
Vinde, pois, por estes nomes: Adonay Zebaoth, Adonay Amioram.
Vinde, vinde, Adonay vos ordena;
Saday, o mais poderoso e temível Rei dos reis, a cujo poder nenhuma criatura pode resistir,
seja para vós temibilíssimo, se não obedecerdes e não aparecerdes logo, afáveis, diante deste círculo;
que a ruína miserável e o fogo inextinguível fiquem convosco.
Vinde, pois, em nome de Adonay Zebaoth, Adonay Amioram;
vinde, vinde, porque tardais? Apressai-vos:
Adonay, Saday, o Rei dos reis vos ordena;
El, Aty, Titeip, Azia, Hin, Jen, Minosel, Achadan,
Vay, Vaah, Ey, Exe, a, El, El, El, a, Hy, Hau, Hau, Hau, Va, Va, Va, Va.
Oração a Deus, para dizer nas quatro partes do mundo, dentro do círculo
Amorule, Taneha, Latisten, Rabur, Teneba, Latisten, Escha, Aladia, Alfa e Ómega, Leyste, Oriston, Adonay:
ó meu misericordiosíssimo Pai celeste, tem misericórdia de mim, ainda que pecador;
faz aparecer em mim, neste dia, o braço do teu poder (ainda que eu seja teu filho indigno)
contra estes espíritos obstinados e perniciosos,
para que eu, pela tua vontade, me torne contemplador das tuas obras divinas,
e seja iluminado com toda a sabedoria, e sempre adore e glorifique o teu nome.
Humildemente te imploro e suplico
que estes espíritos que chamo pelo teu juízo sejam atados e constrangidos a vir,
e a dar respostas verdadeiras e perfeitas às coisas que lhes perguntar,
e que nos declarem e mostrem as coisas que por mim ou por nós lhes forem ordenadas,
sem fazer mal a criatura alguma, sem ferir nem aterrorizar a mim ou aos meus companheiros,
sem fazer mal a qualquer outra criatura, e sem assustar ninguém;
mas sejam obedientes aos meus pedidos em todas as coisas que lhes ordenar.
Depois ponha-se no meio do círculo, estenda a mão para o pentáculo e diga:
Pelo pentáculo de Salomão vos chamei: dai-me uma resposta verdadeira.
Depois diga [a edição de 1655 dá o latim e o inglês; traduzimos uma vez]:
Beralanensis, Baldachiensis, tronos de Paumachia e de Apologia,
pelos poderosíssimos reis e potestades, e pelos príncipes mais poderosos, Genio, Liachidae,
ministros do trono tartáreo, príncipe principal do trono de Apologia na nona legião:
eu vos invoco, e invocando-vos vos conjuro,
e, armado com o poder da suprema Majestade, fortemente vos ordeno,
por Aquele que falou e foi feito, e a quem todas as criaturas obedecem;
e por este nome inefável, Tetragrammaton Jehovah,
ao ouvir o qual os elementos são derrubados, o ar estremece, o mar recua, o fogo se apaga, a terra treme,
e todo o exército dos celestes, terrestres e infernais treme, se perturba e se confunde:
portanto, imediatamente e sem demora, vinde de todas as partes do mundo,
e dai respostas racionais a todas as coisas que vos perguntar;
e vinde pacificamente, visíveis e afáveis, agora, sem demora, manifestando o que desejamos,
conjurados pelo nome do Deus eterno, vivo e verdadeiro, Helioren;
e cumpri as nossas ordens, e persisti até ao fim, e segundo a nossa intenção,
visíveis e afáveis, falando-nos com voz clara, inteligível e sem qualquer ambiguidade.
Visões e aparições
[Também esta secção vem primeiro em latim e depois em inglês.]
Feitas devidamente estas coisas, aparecerão infinitas visões e fantasmas, tocar de órgãos e de toda a espécie de instrumentos musicais. Isto é feito pelos espíritos, para que, com o terror, obriguem os companheiros a sair do círculo, porque nada podem contra o mestre. Depois disto verás uma companhia infinita de arqueiros, com uma grande multidão de animais horríveis, que se disporão como se quisessem devorar os companheiros; contudo, nada temam.
Então o sacerdote ou mestre, estendendo a mão para o pentáculo, dirá:
Fugi daqui, iniquidades, pela virtude do estandarte de Deus.
E então os espíritos serão obrigados a obedecer ao mestre, e os companheiros não verão mais nada.
Depois diga o exorcista, estendendo a mão para o pentáculo:
Eis o pentáculo de Salomão, que trouxe diante da vossa presença.
Eis a pessoa do exorcista no meio do exorcismo, que está armado por Deus, sem medo e bem provido,
que poderosamente vos invoca e chama exorcizando.
Vinde, pois, depressa, na virtude destes nomes: Aye Saraye, Aye Saraye [latim: três vezes];
não tardeis a vir, pelos nomes eternos do Deus vivo e verdadeiro, Eloy, Archima, Rabur [latim: Kabut],
e pelo pentáculo aqui presente, que poderosamente reina sobre vós,
e pela virtude dos espíritos celestes, vossos senhores,
e pela pessoa do exorcista: conjurados, apressai-vos a vir e a obedecer ao vosso mestre, que se chama Octinomos.
Feito isto, haverá assobios nas quatro partes do mundo [latim: assobiarás nos quatro cantos do mundo], e logo verás grandes movimentos. E, quando os vires, diz:
Porque tardais? Porque vos demorais? Que fazeis?
Preparai-vos para obedecer ao vosso mestre,
em nome do Senhor Bathat ou Vachat, precipitando-se sobre Abrac,
Abeor vindo sobre Aberer.
Então virão imediatamente na sua forma própria. E, quando os vires diante do círculo, mostra-lhes o pentáculo coberto de linho fino; descobre-o e diz:
Eis a vossa confusão, se recusardes obedecer.
E de repente aparecerão em forma pacífica, e dir-te-ão: «Pede o que quiseres, porque estamos prontos a cumprir todas as tuas ordens, pois o Senhor sujeitou-nos a isso.» E, quando os espíritos tiverem aparecido, dirás:
Sede bem-vindos, espíritos, ou nobilíssimos reis,
porque vos chamei por Aquele diante de quem se dobra todo o joelho,
das coisas do céu, das coisas da terra e das coisas debaixo da terra,
em cujas mãos estão todos os reinos dos reis, e não há quem possa contradizer a sua Majestade.
Por isso vos ato, para que permaneçais afáveis e visíveis diante deste círculo, tanto tempo e com tanta constância,
e não partais sem a minha licença,
até que tenhais cumprido a minha vontade verdadeiramente e sem engano algum,
pela virtude do poder daquele que pôs ao mar os seus limites,
que ele não pode ultrapassar, nem passar além da lei do seu poder,
a saber, do Deus altíssimo, Senhor e Rei, que criou todas as coisas. Ámen.
Depois ordena o que quiseres, e será feito. Em seguida, despede-os assim:
† Em nome do Pai, † e do Filho, † e do Espírito Santo,
ide em paz para os vossos lugares;
haja paz entre nós e vós;
estai prontos a vir quando fordes chamados.
Estas são as coisas que Pedro de Abano disse acerca dos elementos mágicos.
Exemplo de um círculo
Mas, para que melhor conheças a maneira de compor um círculo, porei aqui um esquema; de modo que, se alguém quiser fazer um círculo na primavera, para a primeira hora do domingo, deve fazê-lo da mesma maneira que a figura seguinte.
Figura de um círculo para a primeira hora do domingo, na primavera.
[Figura no original. Os nomes que nela se leem são:]
- Nos quatro ângulos exteriores: Varcan, rei; Tus; Andos; Cynabal.
- No círculo do meio: Michael [Miguel], Dardiel, Huratapel, Talvi, Caracasa, Core, Amatiel, Commissoros, Spugliguel, Amaday, Abraym, Agusita, Yayn, Michael [e o selo de Miguel].
- No círculo interior: ✚ Adonay ✚ Eloy ✚ Agla ✚ Tetragrammaton; Alfa e Ω.
[A transcrição de 1655 tem várias grafias diferentes destes nomes: «Spughguel», «Aguista», «An[?]aliel».]
Resta agora explicar a semana e cada um dos seus dias; e primeiro, o domingo.
Domingo
Considerações do domingo
O anjo do domingo, o seu selo, o planeta, o signo do planeta e o nome do quarto céu:
-
Miguel [selo] — ☉ Sol — ♌ Leão — Machen.
-
Os anjos do domingo: Miguel, Dardiel, Huratapal.
- Os anjos do ar que regem o domingo: Varcan, rei.
- Os seus ministros: Tus, Andas, Cynabal.
- O vento a que estão sujeitos os ditos anjos do ar: o vento norte.
- Os anjos do quarto céu que regem o domingo, que se devem chamar das quatro partes do mundo:
- A oriente: Samael, Baciel, Atel, Gabriel, Vionatraba.
- A ocidente: Anael, Pabel, Ustael, Burchat, Suceratos, Capabili.
- A norte: Aiel, Aniel ou Aquiel, Masgabriel, Sapiel, Matuyel.
- A sul: Haludiel, Machasiel, Charsiel, Uriel, Naromiel.
- O perfume do domingo: sândalo-vermelho [red sanders].
A conjuração do domingo [em latim e em inglês na edição de 1655]
Conjuro e confirmo sobre vós, anjos fortes e santos de Deus,
no nome Adonay, Eye, Eye, Eya, que é Aquele que foi, é e há de vir, Eye, Abray;
e no nome Saday, Cados, Cados, Cados, que está sentado no alto sobre os querubins;
e pelo grande nome do próprio Deus, forte e poderoso, que é exaltado acima de todos os céus,
Eye, Saray, criador dos séculos [latim: plasmator saeculorum],
que criou o mundo, o céu, a terra, o mar e tudo o que neles há, no primeiro dia,
e os selou com o seu santo nome Phaa;
e pelo nome dos santos anjos que dominam no quarto céu [latim: no quarto exército],
e servem diante do poderosíssimo Salamia, anjo grande e honrado;
e pelo nome da sua estrela, que é o Sol;
e pelo seu signo;
e pelo imenso nome do Deus vivo, e por todos os nomes ditos,
eu te conjuro, Miguel, ó grande anjo, que és o regente principal do domingo;
e pelo nome Adonay, o Deus de Israel, que criou o mundo e tudo o que nele há,
que trabalhes por mim e cumpras todos os meus pedidos,
segundo a minha vontade e o meu desejo, na minha causa e no meu negócio.
[O latim acrescenta:] E aqui declararás a tua causa e o teu negócio, e por que coisa fazes esta conjuração.
Os espíritos do ar do domingo estão sob o vento norte. A sua natureza é procurar ouro, pedras preciosas, carbúnculos e riquezas; fazer alguém obter favor e benevolência; desfazer as inimizades dos homens; elevar os homens a honras; trazer ou levar enfermidades. Mas de que maneira aparecem já foi dito no livro anterior, das cerimónias mágicas.
Segunda-feira
Considerações da segunda-feira
O anjo da segunda-feira, o seu selo, o planeta, o signo do planeta e o nome do primeiro céu:
-
Gabriel [selo] — ☽ Lua — ♋ Caranguejo — Shamain.
-
Os anjos da segunda-feira: Gabriel, Miguel, Samael.
- Os anjos do ar que regem a segunda-feira: Arcan, rei.
- Os seus ministros: Bilet, Missabu, Abuzaha.
- O vento a que estão sujeitos os ditos anjos do ar: o vento oeste.
- Os anjos do primeiro céu que regem a segunda-feira, que se devem chamar das quatro partes do mundo:
- De oriente: Gabriel, Gabrael, Madiel, Deamiel, Janaek.
- De ocidente: Sachiel, Zaniel, Habaiel, Bachanael, Corabael.
- De norte: Mael, Uvael, Valnum, Baliel, Balay, Humastrau.
- De sul: Curaniel, Dabriel, Darquiel, Hanun, Anayl, Vetuel.
- O perfume da segunda-feira: aloés.
A conjuração da segunda-feira
Conjuro e confirmo sobre vós, anjos fortes e bons,
no nome Adonay, Adonay, Adonay, Eye, Eye, Eye, Cados, Cados, Cados, Achim, Achim, Ja, Ja, forte Ja,
que apareceu no monte Sinai, com a glorificação do rei Adonay, Saday, Zebaoth, Anathay, Ya, Ya, Ya, Marinata, Abim, Jeia,
que criou o mar e todos os lagos e águas no segundo dia, as que estão acima dos céus e as que estão na terra,
e selou o mar com o seu alto nome, e deu-lhe limites que não pode ultrapassar;
e pelos nomes dos anjos que dominam na primeira legião, que servem Orphaniel, anjo grande, precioso e honrado;
e pelo nome da sua estrela, que é a Lua;
e por todos os nomes ditos, eu te conjuro, Gabriel, que és o regente principal da segunda-feira, o segundo dia,
que trabalhes por mim e cumpras, etc. [como na conjuração do domingo]
Os espíritos do ar da segunda-feira estão sujeitos ao vento oeste, que é o vento da Lua. A sua natureza é dar prata; levar coisas de um lugar para outro; tornar os cavalos velozes; e revelar os segredos das pessoas, tanto presentes como futuros. Mas de que maneira aparecem podes ver no livro anterior.
Terça-feira
Considerações da terça-feira
O anjo da terça-feira, o seu selo, o planeta, os signos que esse planeta governa e o nome do quinto céu:
-
Samael [selo] — ♂ Marte — ♈ Carneiro, ♏ Escorpião — Machon.
-
Os anjos da terça-feira: Samael, Satael, Amabiel.
- Os anjos do ar que regem a terça-feira: Samax, rei.
- Os seus ministros: Carmax, Ismoli, Paffran.
- O vento a que estão sujeitos os ditos anjos: o vento leste.
- Os anjos do quinto céu que regem a terça-feira, que se devem chamar das quatro partes do mundo:
- A oriente: Friagne, Guael, Damael, Calzas, Arragon.
- A ocidente: Lama, Astagna, Lobquin, Soncas, Jazel, Isiael, Irel.
- A norte: Rahumel, Hyniel, Rayel, Seraphiel, Mathiel, Fraciel.
- A sul: Sacriel, Janiel, Galdel, Osael, Vianuel, Zaliel.
- O perfume da terça-feira: pimenta.
A conjuração da terça-feira
Conjuro e chamo por vós, anjos fortes e bons,
no nome Ya, Ya, Ya, He, He, He, Va, Hy, Hy, Ha, Ha, Ha, Va, Va, Va, An, An, An, Aia, Aia, Aia, El, Ay, Elibra, Eloim, Eloim,
e pelos nomes do Deus altíssimo, que fez do mar terra seca [latim: que fez aparecer a terra seca],
e pela sua palavra fez a terra, e produziu as árvores,
e pôs o seu selo sobre as plantas dela, com o seu nome precioso, honrado, temido e santo;
e pelo nome dos anjos que governam na quinta casa [latim: no quinto exército],
que servem o grande anjo Acimoy, forte, poderoso e honrado;
e pelo nome da constelação [latim: estrela] que se chama Marte.
E chamo por ti, Samael, e pelos nomes acima ditos, grande anjo, que presides ao dia de Marte;
e pelo nome Adonay, o Deus vivo e verdadeiro,
que me ajudes a cumprir os meus trabalhos, etc. [como na conjuração do domingo]
Os espíritos do ar da terça-feira estão sob o vento leste. A sua natureza é causar guerras, mortandade, morte e incêndios; dar dois mil soldados de cada vez; trazer a morte, enfermidades ou saúde. A maneira como aparecem podes ver no livro anterior.
Quarta-feira
Considerações da quarta-feira
O anjo da quarta-feira, o seu selo, o planeta, os signos que esse planeta governa e o nome do segundo céu:
-
Rafael [selo] — ☿ Mercúrio — ♊ Gémeos, ♍ Virgem — Raquie.
-
Os anjos da quarta-feira: Rafael, Meil, Seraphiel.
- Os anjos do ar que regem a quarta-feira: Mediat ou Modiat, rei.
- Os ministros: Suquinos, Sallales.
- O vento a que estão sujeitos os ditos anjos do ar: o vento sudoeste.
- Os anjos do segundo céu que governam a quarta-feira, que se devem chamar das quatro partes do mundo:
- A oriente: Mathlai, Tarmiel, Baraborat.
- A ocidente: Jerescue, Mitraton.
- A norte: Thiel, Rael, Jariahel, Venahel, Velel, Abuiori, Ucirnuel.
- A sul: Milliel, Nelapa, Babel, Caluel, Vel, Laquel.
- A fumigação da quarta-feira: almécega [mastick, resina do lentisco].
A conjuração da quarta-feira [a edição de 1655 só traz o latim; traduzimos do latim]
Conjuro-vos e confirmo-vos, anjos fortes, santos e poderosos,
no nome forte, temibilíssimo e bendito Ja, Adonay, Eloim, Saday, Saday, Saday, Eie, Eie, Eie, Asamie, Asaraie;
e no nome Adonay, Deus de Israel, que criou os grandes luzeiros para distinguir o dia da noite;
e pelo nome de todos os anjos que servem no segundo exército diante de Tetra, anjo maior, forte e poderoso;
e pelo nome da estrela, que é Mercúrio;
e pelo nome do selo, que é selado por Deus fortíssimo e honrado;
por todas as coisas ditas, sobre ti, Rafael, grande anjo, conjuro, que és o regente do quarto dia;
e pelo santo nome que estava escrito na fronte de Aarão, sacerdote do altíssimo Criador;
e pelos nomes dos anjos que foram confirmados na graça do Salvador;
e pelo nome do trono dos animais que têm seis asas,
que trabalhes por mim, etc. [como na conjuração do domingo]
Os espíritos do ar da quarta-feira estão sujeitos ao vento sudoeste. A sua natureza é dar todos os metais; revelar todas as coisas terrenas, passadas, presentes e futuras; apaziguar os juízes; dar vitórias na guerra; reedificar, e ensinar experiências e todas as ciências perdidas; transformar corpos mistos de elementos, sob condição, de um noutro; dar enfermidades ou saúde; elevar os pobres e abater os poderosos; atar ou soltar espíritos; abrir fechaduras ou ferrolhos. Estes espíritos têm a operação dos outros, mas não no seu poder perfeito, e sim em virtude ou conhecimento. De que maneira aparecem já foi dito antes.
Quinta-feira
Considerações da quinta-feira
O anjo da quinta-feira, o seu selo, o planeta, os signos do planeta e o nome do sexto céu:
-
Sachiel [selo] — ♃ Júpiter — ♐ Sagitário, ♓ Peixes — Zebul.
-
Os anjos da quinta-feira: Sachiel, Castiel, Asasiel.
- Os anjos do ar que governam a quinta-feira: Suth, rei.
- Os ministros: Maguth, Gutrix.
- O vento a que estão sujeitos os ditos anjos do ar: o vento sul.
Mas, porque não se encontram anjos do ar acima do quinto céu, diz-se à quinta-feira as orações seguintes nas quatro partes do mundo [a edição dá o latim e o inglês]:
- A oriente: Ó Deus grande e excelso, e honrado pelos séculos infinitos.
- A ocidente: Ó Deus sábio, puro e justo, de clemência divina, rogo-te, Pai santíssimo, que hoje eu possa cumprir e compreender perfeitamente o meu pedido, a minha obra e o meu trabalho. Tu que vives e reinas pelos séculos infinitos dos séculos. Ámen.
- A norte: Ó Deus poderoso, forte e sem princípio.
-
A sul: Ó Deus poderoso e misericordioso.
-
O perfume da quinta-feira: açafrão.
A conjuração da quinta-feira
Conjuro e confirmo sobre vós, anjos santos,
pelo nome Cados, Cados, Cados, Eschereie, Eschereie, Eschereie, Hatim, Ya, forte fundador dos séculos,
Cantine, Jaym, Janic, Anic, Calbat, Sabbac, Berisay, Alnaym;
e pelo nome Adonay, que criou os peixes e os répteis nas águas,
e as aves sobre a face da terra, que voam para o céu, no quinto dia;
e pelos nomes dos anjos que servem no sexto exército diante de Pastor, anjo santo, e grande e poderoso príncipe;
e pelo nome da sua estrela, que é Júpiter, e pelo nome do seu selo;
e pelo nome Adonay, o Deus supremo, criador de todas as coisas;
e pelo nome de todas as estrelas, e pela sua força e virtude;
e por todos os nomes ditos, eu te conjuro, Sachiel, grande anjo, que és o regente principal da quinta-feira,
que trabalhes por mim, etc. [como na conjuração do domingo]
Os espíritos do ar da quinta-feira estão sujeitos ao vento sul. A sua natureza é procurar o amor das mulheres; tornar os homens alegres e contentes; apaziguar contendas e discórdias; aplacar os inimigos; curar os doentes e adoecer os sãos; e causar perdas ou tirá-las. A sua maneira de aparecer já foi dita.
Sexta-feira
Considerações da sexta-feira
O anjo da sexta-feira, o seu selo, o planeta, os signos que esse planeta governa e o nome do terceiro céu:
-
Anael [selo] — ♀ Vénus — ♈ [assim na edição; seria de esperar ♉ Touro], ♎ Balança — Sagun.
-
Os anjos da sexta-feira: Anael, Rachiel, Sachiel.
- Os anjos do ar que reinam na sexta-feira: Sarabotes, rei.
- Os ministros: Amahiel, Aba, Abalidoth, Blaef.
- O vento a que estão sujeitos os ditos anjos do ar: o vento oeste.
- Os anjos do terceiro céu que regem a sexta-feira, que se devem chamar das quatro partes do mundo:
- A oriente: Setchiel, Chedusitaniel, Corat, Tamael, Tenaciel.
- A ocidente: Turiel, Coniel, Babiel, Kadie, Maltiel, Huphaltiel.
- A norte: Peniel, Penael, Penat, Rafael, Raniel, Doremiel.
- A sul: Porna, Sachiel, Chermiel, Samael, Santanael, Famiel.
- O perfume da sexta-feira: [inglês pepperwort; planta não identificada com segurança].
A conjuração da sexta-feira
Conjuro e confirmo sobre vós, anjos fortes, santos e poderosos,
no nome On, Hey, Heya, Ja, Je, Adonay, Saday;
e no nome Saday, que criou os quadrúpedes e os répteis, e o homem, no sexto dia,
e deu a Adão poder sobre todas as criaturas; por isso bendito seja o nome do Criador no seu lugar;
e pelo nome dos anjos que servem no terceiro exército, diante de Dagiel, grande anjo, forte e poderoso príncipe;
e pelo nome da estrela, que é Vénus, e pelo seu selo, que é santo;
e por todos os nomes ditos, eu te conjuro, Anael, que és o regente principal do sexto dia,
que trabalhes por mim, etc. [como na conjuração do domingo]
Os espíritos do ar da sexta-feira estão sujeitos ao vento oeste. A sua natureza é dar prata; excitar os homens e incliná-los à luxúria; reconciliar inimigos pela luxúria; fazer casamentos; atrair os homens ao amor das mulheres; causar ou tirar enfermidades; e fazer todas as coisas que têm movimento.
Sábado
Considerações do sábado, ou dia do Sabat
O anjo do sábado, o seu selo, o planeta e os signos que governam o planeta:
-
Cassiel [selo] — ♄ Saturno — ♑ Capricórnio, ♒ Aquário. [A edição não dá aqui o nome de nenhum céu.]
-
Os anjos do sábado: Cassiel, Machatan, Uriel.
- Os anjos do ar que regem o sábado: Maymon, rei.
- Os ministros: Abumalith, Assaibi, Balidet.
- O vento a que estão sujeitos os ditos anjos do ar: o vento sul.
- A fumigação do sábado: enxofre.
Já se declarou, nas considerações da quinta-feira, que não há anjos que rejam o ar acima do quinto céu; por isso, nos quatro ângulos do mundo, usa as orações que vês destinadas a esse fim na quinta-feira.
A conjuração do sábado
Conjuro e confirmo sobre vós, Caphriel ou Cassiel, Machator e Seraquiel, anjos fortes e poderosos;
e pelo nome Adonay, Adonay, Adonay, Eie, Eie, Eie, Acim, Acim, Acim, Cados, Cados, Ina ou Ima, Ima, Saclay, Ja, Sar,
Senhor e criador do mundo, que descansou no sétimo dia;
e por Aquele que, do seu agrado, o deu a guardar aos filhos de Israel, pelas suas gerações,
para que o guardassem e santificassem, e tivessem por isso boa recompensa no mundo que há de vir;
e pelos nomes dos anjos que servem no sétimo exército, diante de Booel, grande anjo e poderoso príncipe;
e pelo nome da sua estrela, que é Saturno, e pelo seu santo selo;
e pelos nomes ditos antes, eu te conjuro, Caphriel, que és o regente principal do sétimo dia, que é o dia do Sabat,
que trabalhes por mim, etc. [como na conjuração do domingo]
Os espíritos do ar do sábado estão sujeitos ao vento sudoeste [assim no texto, embora pouco antes diga «vento sul»]. A sua natureza é semear discórdias, ódio, maus pensamentos e cogitações; dar licença livremente para matar qualquer um; e aleijar ou mutilar qualquer membro. A maneira como aparecem está declarada no livro anterior.
Tabelas dos anjos das horas, segundo o curso dos dias
[No original, cada dia tem uma tabela de quatro colunas. Dividimo-la em duas, para leitura no telemóvel.]
DOMINGO
| Hora do dia | Anjo da hora |
|---|---|
| 1. Yayn | Miguel |
| 2. Janor | Anael |
| 3. Nasnia | Rafael |
| 4. Salla | Gabriel |
| 5. Sadedali | Cassiel |
| 6. Thamur | Sachiel |
| 7. Ourer | Samael |
| 8. Tanic | Miguel |
| 9. Neron | Anael |
| 10. Jayon | Rafael |
| 11. Abay | Gabriel |
| 12. Natalon | Cassiel |
| Hora da noite | Anjo da hora |
|---|---|
| 1. Beron | Sachiel |
| 2. Barol | Samael |
| 3. Thanu | Miguel |
| 4. Athir | Anael |
| 5. Mathon | Rafael |
| 6. Rana | Gabriel |
| 7. Netos | Cassiel |
| 8. Tafrac | Sachiel |
| 9. Sassur | Samael |
| 10. Aglo | Miguel |
| 11. Calerna | Anael |
| 12. Salam | Rafael |
SEGUNDA-FEIRA
| Hora do dia | Anjo da hora |
|---|---|
| 1. Yayn | Gabriel |
| 2. Janor | Cassiel |
| 3. Nasnia | Sachiel |
| 4. Salla | Samael |
| 5. Sadedali | Miguel |
| 6. Thamur | Anael |
| 7. Ourer | Rafael |
| 8. Tanic | Gabriel |
| 9. Neron | Cassiel |
| 10. Jayon | Sachiel |
| 11. Abay | Samael |
| 12. Natalon | Miguel |
| Hora da noite | Anjo da hora |
|---|---|
| 1. Beron | Anael |
| 2. Barol | Rafael |
| 3. Thanu | Gabriel |
| 4. Athir | Cassiel |
| 5. Mathon | Sachiel |
| 6. Rana | Samael |
| 7. Netos | Miguel |
| 8. Tafrac | Anael |
| 9. Sassur | Rafael |
| 10. Aglo | Gabriel |
| 11. Calerna | Cassiel |
| 12. Salam | Sachiel |
TERÇA-FEIRA
| Hora do dia | Anjo da hora |
|---|---|
| 1. Yayn | Samael |
| 2. Janor | Miguel |
| 3. Nasnia | Anael |
| 4. Salla | Rafael |
| 5. Sadedali | Gabriel |
| 6. Thamur | Cassiel |
| 7. Ourer | Sachiel |
| 8. Tanic | Samael |
| 9. Neron | Miguel |
| 10. Jayon | Anael |
| 11. Abay | Rafael |
| 12. Natalon | Gabriel |
| Hora da noite | Anjo da hora |
|---|---|
| 1. Beron | Cassiel |
| 2. Barol | Sachiel |
| 3. Thanu | Samael |
| 4. Athir | Miguel |
| 5. Mathon | Anael |
| 6. Rana | Rafael |
| 7. Netos | Gabriel |
| 8. Tafrac | Cassiel |
| 9. Sassur | Sachiel |
| 10. Aglo | Samael |
| 11. Calerna | Miguel |
| 12. Salam | Anael |
QUARTA-FEIRA
| Hora do dia | Anjo da hora |
|---|---|
| 1. Yayn | Rafael |
| 2. Janor | Gabriel |
| 3. Nasnia | Cassiel |
| 4. Salla | Sachiel |
| 5. Sadedali | Samael |
| 6. Thamur | Miguel |
| 7. Ourer | Anael |
| 8. Tanic | Rafael |
| 9. Neron | Gabriel |
| 10. Jayon | Cassiel |
| 11. Abay | Sachiel |
| 12. Natalon | Samael |
| Hora da noite | Anjo da hora |
|---|---|
| 1. Beron | Miguel |
| 2. Barol | Anael |
| 3. Thanu | Rafael |
| 4. Athir | Gabriel |
| 5. Mathon | Cassiel |
| 6. Rana | Sachiel |
| 7. Netos | Samael |
| 8. Tafrac | Miguel |
| 9. Sassur | Anael |
| 10. Aglo | Rafael |
| 11. Calerna | Gabriel |
| 12. Salam | Cassiel |
QUINTA-FEIRA
| Hora do dia | Anjo da hora |
|---|---|
| 1. Yayn | Sachiel |
| 2. Janor | Samael |
| 3. Nasnia | Miguel |
| 4. Salla | Anael |
| 5. Sadedali | Rafael |
| 6. Thamur | Gabriel |
| 7. Ourer | Cassiel |
| 8. Tanic | Sachiel |
| 9. Neron | Samael |
| 10. Jayon | Miguel |
| 11. Abay | Anael |
| 12. Natalon | Rafael |
| Hora da noite | Anjo da hora |
|---|---|
| 1. Beron | Gabriel |
| 2. Barol | Cassiel |
| 3. Thanu | Sachiel |
| 4. Athir | Samael |
| 5. Mathon | Miguel |
| 6. Rana | Anael |
| 7. Netos | Zaphael [gralha: pela ordem dos planetas seria Rafael] |
| 8. Tafrac | Gabriel |
| 9. Sassur | Cassiel |
| 10. Aglo | Sachiel |
| 11. Calerna | Samael |
| 12. Salam | Miguel |
SEXTA-FEIRA
| Hora do dia | Anjo da hora |
|---|---|
| 1. Yayn | Anael |
| 2. Janor | Rafael |
| 3. Nasnia | Gabriel |
| 4. Salla | Cassiel |
| 5. Sadedali | Sachiel |
| 6. Thamur | Samael |
| 7. Ourer | Miguel |
| 8. Tanic | Anael |
| 9. Neron | Rafael |
| 10. Jayon | Gabriel |
| 11. Abay | Cassiel |
| 12. Natalon | Sachiel |
| Hora da noite | Anjo da hora |
|---|---|
| 1. Beron | Samael |
| 2. Barol | Miguel |
| 3. Thanu | Anael |
| 4. Athir | Rafael |
| 5. Mathon | Gabriel |
| 6. Rana | Cassiel |
| 7. Netos | Sachiel |
| 8. Tafrac | Samael |
| 9. Sassur | Miguel |
| 10. Aglo | Anael |
| 11. Calerna | Rafael |
| 12. Salam | Gabriel |
SÁBADO
| Hora do dia | Anjo da hora |
|---|---|
| 1. Yayn | Cassiel |
| 2. Janor | Sachiel |
| 3. Nasnia | Samael |
| 4. Salla | Miguel |
| 5. Sadedali | Anael |
| 6. Thamur | Rafael |
| 7. Ourer | Gabriel |
| 8. Tanic | Cassiel |
| 9. Neron | Sachiel |
| 10. Jayon | Samael |
| 11. Abay | Miguel |
| 12. Natalon | Anael |
| Hora da noite | Anjo da hora |
|---|---|
| 1. Beron | Rafael |
| 2. Barol | Gabriel |
| 3. Thanu | Cassiel |
| 4. Athir | Sachiel |
| 5. Mathon | Samael |
| 6. Rana | Miguel |
| 7. Netos | Anael |
| 8. Tafrac | Rafael |
| 9. Sassur | Gabriel |
| 10. Aglo | Cassiel |
| 11. Calerna | Sachiel |
| 12. Salam | Samael |
Mas deve observar-se, de passagem, que a primeira hora do dia, em qualquer país e em qualquer estação, se atribui ao nascer do Sol, quando ele primeiro aparece a levantar-se no horizonte; e a primeira hora da noite é a décima terceira hora a contar da primeira hora do dia. Mas destas coisas já se disse bastante.
FIM.
Notas
«Vaidade mágica». A introdução, escrita pelo editor do século XVI que juntou o Heptameron ao Quarto Livro, chama ao conteúdo «superstições mágicas» e «vaidade». É um traço curioso de um livro que, ao mesmo tempo, dá todas as fórmulas.
Os nomes das horas. Na lista inicial e nas tabelas finais a edição de 1655 usa grafias diferentes (Thamic/Tanic, Thami/Thanu, Athar/Athir, Methon/Mathon, Tusrac/Tafrac, Agle/Aglo, Calerva/Calerna). Mantivemos as duas, como estão. Estes nomes não têm origem conhecida em nenhuma língua.
A ordem dos anjos nas horas. As tabelas seguem a ordem clássica das horas planetárias (Saturno, Júpiter, Marte, Sol, Vénus, Mercúrio, Lua), aplicada aos sete anjos. A primeira hora de cada dia pertence ao anjo desse dia. As «horas» são as doze partes iguais em que se divide o tempo entre o nascer e o pôr do Sol (e entre o pôr e o nascer), e por isso mudam de duração ao longo do ano.
Os sete céus. Os nomes Shamain, Raquie, Sagun, Machen, Machon e Zebul vêm de listas judaicas dos céus (como Shamayim, Raqia, Zebul, Machon), adaptadas à ordem dos planetas. A sétima (Saturno) não é nomeada.
Os nomes divinos. Hagios, Theos, Ischyros, Athanatos são palavras gregas («Santo, Deus, Forte, Imortal») do hino litúrgico Trisagion. Agla é tradicionalmente lido como acrónimo hebraico de «Tu és poderoso para sempre, Senhor». On é grego («O que é»). Tetragrammaton designa o nome de Deus de quatro letras.
Episódios bíblicos. O exorcismo enumera as pragas do Egito (Êxodo 7–10), o Sol detido por Josué (Josué 10), Bel e o Dragão (acrescento grego de Daniel), os três jovens na fornalha (Daniel 3) e a terra que engoliu Coré, Datan e Abiram (Números 16). As «quatro criaturas com olhos à frente e atrás» e o «mar de vidro» vêm do Apocalipse (capítulo 4).
Perfumes. Sândalo-vermelho, aloés (o lenho aromático), pimenta, almécega, açafrão e enxofre são os perfumes de 1655. O de sexta-feira, pepperwort, não tem identificação segura em português.
Natureza dos espíritos. As listas de poderes (dar ouro, curar, causar guerras, matar) são o que o texto afirma. Não têm qualquer base factual, e algumas descrevem dano a pessoas: reproduzimo-las só porque fazem parte do texto.
Gralhas da edição de 1655. Assinalámos as mais claras: ♈ em vez de ♉ para Vénus, «Zaphael» em vez de Rafael numa hora de quinta-feira, e a contradição sobre o vento do sábado.
Onde ler o original
- Texto latino com a tradução de Robert Turner (1655) e notas de Joseph H. Peterson: Heptameron — Esoteric Archives
- Texto integral da edição de Londres de 1655 (Agrippa, Fourth Book, com o Heptameron), transcrição EEBO-TCP: Text Creation Partnership, A26563
Continue a ler
➜ Heptameron: a ficha do livro
Fontes
- Heptameron, or Magical Elements, trad. Robert Turner (1655) — Esoteric Archives, ed. Joseph H. Peterson (título latino, edição de Marburgo de 1559, Índice de 1581, juízo de Thorndike)
- Henry Cornelius Agrippa's Fourth Book of Occult Philosophy… Heptameron, trad. Robert Turner, Londres, 1655 — EEBO-TCP (A26563)
- Pietro d'Abano — Wikipedia (inglês) (atribuição tradicional do Heptameron, obra anónima)
- Lynn Thorndike, A History of Magic and Experimental Science, vol. II, Nova Iorque, Columbia University Press, 1923.