Um ensalmo é uma fórmula dita, quase sempre em verso, para afastar um mal: o quebranto, o mau-olhado, a trovoada, uma doença. Em Portugal diz-se também talhar, benzer ou rezar o mal.
Esta página não apresenta versões modernas nem «receitas». Reúne ensalmos tal como foram impressos por dois recolectores do século XIX, Leite de Vasconcellos e Teófilo Braga, com a terra onde foram ouvidos e a página exata.
São documentos etnográficos. Mostram como o povo falava com o sagrado. Não provam que as fórmulas tenham qualquer efeito, e os recolectores também não o afirmavam.
Ficha
| Campo | Informação |
|---|---|
| Obra 1 | J. Leite de Vasconcellos, Tradições populares de Portugal, Porto, Clavel & C.ª, 1882 |
| Obra 2 | Teófilo Braga, O povo portuguez nos seus costumes, crenças e tradições, vol. II, Lisboa, Livraria Ferreira, 1885 |
| Regiões | Sobretudo Minho, Douro e Trás-os-Montes |
| Estado | Domínio público |
| Texto seguido | Digitalizações do Internet Archive |
| Seleção e notas | Grimório.pt, 2026 |
Como transcrevemos. Ortografia original («ceu», «Sr.», «trez»). As indicações entre parênteses retos que acompanham as fórmulas são dos próprios autores. Corrigimos só erros evidentes da leitura ótica da digitalização.
Aviso. Várias fórmulas falam de doenças (erisipela, «cobrão», «espinhela»). Hoje sabemos que são problemas médicos com tratamento. Quem tiver estes sintomas deve procurar um médico.
O Sol na cabeça
- Quando o Sol entra na cabeça, e a faz doer, talha-se assim:
O Sol é luz,
O Sol é claridade.
São tres pessoas da SS. Trindade.
O Sol nasce no Nascente,
E põe-se no Poente.
Assim como isto é verdade,
Vá-me este mal d'aqui p'ra fóra p'ra sempre.
[Põe-se um guardanapo de olhos, dobrado, sobre um copo meio d'agua, na cabeça do doente, com a agua para baixo, ao Sol. A oração diz-se tres vezes, e reza-se um P. Nosso, etc.] (Gondomar).
— Leite de Vasconcellos, Tradições populares de Portugal, 1882, § 20, p. 14.
Repare-se na estrutura típica: «Assim como isto é verdade…». O ensalmo afirma uma coisa certa (o Sol nasce e põe-se) e pede que o mal siga a mesma ordem.
O «sempre-verde»: fogo e mau-olhado
Leite publicara antes estas fórmulas num artigo chamado Carmina magica do povo portuguez. Reproduziu-as no livro:
Sempre-verde venerado,
Na campa do Sr. fostes achado
Sem ser nado
Nem samiado:
Talha este fogo,
Este reborado.
Ar de vivo
Ou morto excommungado.
Tudo aqui talha
Pelo poder de Deus
E da Virge-Maria, etc.
(Famalicão).
Sempre-verde bem fadado.
Fostes nascido sem ser semeado
Na campa de N. S. J. Christo
Fostes achado,
Para talhar este fogo
E este reborado,
E este cão e este mão olhado. […]
(Minho)
— Leite de Vasconcellos, 1882, p. 40.
Noutro passo, Leite explica que o sempre-verde é «geralmente sabugueiro» e que com ele «se talha a erysipela e a fogagem» (p. 122). O «fogo» destas fórmulas é uma inflamação da pele.
Contra o «ar de excommungado»
Leite conta que, no Minho, uma nuvem carregada «leva excommungados», e que a dor de cabeça súbita é «o ar ruim do excommungado». Para isso se rezava três vezes, fazendo três cruzes, uma oração que termina com uma Salve-Rainha:
J. Christo nasceu,
J. Christo morreu,
J. C. resuscitou:
E assim como é verdade
O Sr. me tire esta dor.
Este mão olhado
De vivo, de morto
Ou de excommungado:
Pelo poder de Deus
E do Sr. Santiago.
(Minho).
— Leite de Vasconcellos, 1882, § 120, pp. 52–53.
A trovoada: Santa Bárbara
Leite recolheu várias versões da oração a Santa Bárbara. Três delas:
S. Barbara bemdita
Que no ceu estaes escrita,
Com papel e agua benta,
Abrandae esta tormenta
Lá para a banda dos montes,
Que não haja pão nem vinho,
Nem flor de rosmaninho,
Nem se ouça cantar os gallos
Nem repenicar os sinos.
(Minho).
S. Barborinha se vestiu e se calçou,
Ao caminho se botou.
O Senhor le preguntou:
— S. Barborinha, onde vaes?
— Eu, Senhor, comvosco vou.
— Tu comigo não irás.
Tu na terra ficarás:
Todos os trovões que vier
Todos tu abrandarás […]
(Melres).
— Vou espalhar as trovoadas
Que no ceu andam armadas.
Deitá-las p'ra a serra do Marão,
Onde não haja palha nem grão,
Nem meninas a chorar,
Nem gallos a cantar.
(Villa Real).
— Leite de Vasconcellos, 1882, p. 65.
Todas mandam a tempestade para um lugar ermo, «onde não haja» gente, gado nem searas.
O bicho e o cobrão
b) Nos ensalmos figura sempre um grande numero de plantas: […] com as palhas-alhas talha-se o cobrão (herpes); e uma fórmula de talhar o bicho diz (Minho e Gaia):
Eu te benzo com tres palhas-alhas,
Com tres maravalhas
E tres da Anna do Matheus
E tres do meu cão.
Vae-te embora
Que já stou são.
— Leite de Vasconcellos, 1882, § 251, p. 122.
Contra o olhar do sapo
Quando um sapo nos fita é preciso dizer de repente, tres vezes, cuspindo sempre fóra (Maia):
Santos — em mim.
Quebrantos — em ti.
— Leite de Vasconcellos, 1882, p. 196.
A oração do quebranto em Gil Vicente
Teófilo Braga mostra que estas fórmulas já circulavam no século XVI. Cita uma «Oração do quebranto» das obras de Gil Vicente:
Estava Santa Anna ó pé do loureiro,
Vem o anjo por mensageiro,
Vae-te á porta do ouro,
Acharás teu parceiro.
Vae Joaquim apoz o carneiro,
E n'aquella hora que Deus verdadeiro
Concebeu Anna em limpo celleiro
A Sancta Maria rezam o salteiro,
Que já o quebranto cahiu no ribeiro.
— Teófilo Braga, O povo portuguez, vol. II, 1885, p. 128 (Braga remete para Gil Vicente, Obras, t. II, p. 13).
A estrutura é a de muitas benzeduras posteriores: uma pequena história sagrada que acaba com o mal a «cair no ribeiro», isto é, a ir-se embora com a água.
Uma benzedeira condenada em 1694
Braga transcreve passagens da sentença contra Anna Martins (1694), que «curava de varias enfermidades» apenas com «palavras» e «bênçãos». Ao benzer, andava com as contas em círculo à volta da cabeça do doente, dizendo:
Pelo poder de Deus de S. Pedro e de S. Paulo e de todos os Santos que te livrem d'aquelles males; eu te degrado para a ilha do Enxofre, e para o mar coalhado […]
Eu degrado o ár da figueira,
o ár do soar e desoar da porta,
o ár da gallinha choca
o ár do cisco da casa.
— Teófilo Braga, O povo portuguez, vol. II, 1885, p. 217.
«Degradar» é desterrar: o mal é mandado para longe, como um condenado ao degredo.
➜ Processos de feitiçaria na Inquisição portuguesa
A espinhela caída
A espinhela cahida, é o nome que o povo dá a uma deslocação do appendice chifoideu; cura-se atando uma fita do dedo polegar até ao cotovelo e depois á cinta, com as palavras:
A Senhora Senhorinha
Trez novellos de oiro tinha,
Um urdia,
Outro tecia,
Outro espinhela, espinhaço
E baço erguia. […]
— Teófilo Braga, O povo portuguez, vol. II, 1885, p. 228. O «appendice chifoideu» é o apêndice xifoide, a ponta inferior do esterno.
Notas
Três vezes. Quase todas as fórmulas se dizem três vezes, muitas vezes seguidas de um Pai-Nosso. É a marca das benzeduras portuguesas: palavras populares encaixadas na oração da Igreja.
Antiguidade. A fórmula do quebranto em Gil Vicente e a sentença de 1694 mostram que o género é antigo. Isso não quer dizer que cada versão recolhida em 1882 tenha séculos: as fórmulas mudavam de boca em boca.
O que falta. Adolfo Coelho e Consiglieri Pedroso publicaram também ensalmos no século XIX. Só os juntaremos quando pudermos conferir o texto original. As recolhas de J. A. Pires de Lima (m. 1951) ainda não estão em domínio público.
Onde ler
- Leite de Vasconcellos, Tradições populares de Portugal (1882) — Internet Archive
- Teófilo Braga, O povo portuguez, vol. II (1885) — Internet Archive
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➜ Superstições portuguesas nas recolhas antigas
➜ Tradição Portuguesa — índice
Fontes
- J. Leite de Vasconcellos, Tradições populares de Portugal, Porto, Clavel & C.ª, 1882 — archive.org
- Teófilo Braga, O povo portuguez nos seus costumes, crenças e tradições, vol. II, Lisboa, Livraria Ferreira, 1885 — archive.org