Na manhã de 1 de novembro, em muitas terras portuguesas, grupos de crianças batem às portas com um saco de pano e dizem uma quadra. Pedem o Pão-por-Deus e recebem broas, frutos secos ou rebuçados.
É um costume ligado ao Dia de Todos os Santos e ao culto dos mortos, muito mais antigo do que a explicação mais repetida, o Terramoto de 1755.
Esta página trata do costume em si. Para as datas religiosas de 1 e 2 de novembro (Todos os Santos e Fiéis Defuntos), veja a página própria.
➜ Dia de Finados e Todos os Santos
Ficha
| Campo | Informação |
|---|---|
| Nome | Pão-por-Deus |
| Data | 1 de novembro, de manhã |
| Quem | Sobretudo crianças |
| O que se dá | Pão, broas, bolos, romãs, nozes, castanhas, amêndoas, rebuçados, moedas |
| Outros nomes | Bolinho, Dia do Bolinho, santoro, «fiéis de Deus» |
| Tipo | Tradição popular ligada ao culto dos mortos |
Como se faz
As crianças saem cedo, em grupo, com um saquinho de pano. Batem à porta e recitam uma quadra. A mais conhecida:
Pão por Deus,
fiel de Deus,
bolinho no saco,
andai com Deus.
Outra, dita a quem não dá nada:
Ó tia, dá Pão-por-Deus?
Se o não tem, dê-lho Deus!
(Textos populares, com muitas variantes locais.)
Os padrinhos davam aos afilhados um bolo especial, o santoro ou «bolo dos santos».
A origem: mais antiga do que 1755
Comida para os mortos
Levar comida às sepulturas é um costume antiquíssimo. No século VI, os cânones reunidos por São Martinho de Dume (bispo de Braga) já diziam: «não seja lícito aos cristãos levar refeições às sepulturas dos defuntos» (cânone 69 dos Capitula Martini).
A Igreja foi transformando essa oferta aos mortos em esmola aos pobres pelas almas: dar pão a quem pede, no dia dos mortos, era uma forma de rezar por eles.
➜ São Martinho de Dume e as superstições dos camponeses
Um nome antigo
Segundo documentação citada por estudiosos, no século XV o dia 1 de novembro já era chamado em alguns documentos «dia de pão por Deus». Ou seja, o nome existia bem antes do terramoto.
O Terramoto de 1755
O Terramoto de Lisboa aconteceu precisamente num 1 de novembro de 1755, Dia de Todos os Santos. Diz a explicação popular que, no ano seguinte, os que tinham perdido tudo saíram a pedir «pão por Deus».
O terramoto não criou o costume, mas é provável que tenha reforçado a sua memória, sobretudo em Lisboa. Esta ligação é hoje muito repetida em escolas e jornais, mas é uma leitura posterior.
Nomes e variantes
- Pão-por-Deus: o nome mais comum;
- Bolinho ou Dia do Bolinho: região de Leiria e arredores;
- santoros: nome do bolo em várias terras;
- nos Açores, as «caspiadas» são bolos associados à data;
- fora de Portugal: migalho (Galiza), Pan por Dios (Tenerife), «Finadinho» (Florianópolis, Brasil).
Pão-por-Deus e Halloween
As duas festas têm um ar de família: crianças que pedem de porta em porta perto de 1 de novembro. Mas não são a mesma coisa.
| Pão-por-Deus | Halloween (hoje) |
|---|---|
| Manhã de 1 de novembro | Noite de 31 de outubro |
| Quadras em português | Trick or treat |
| Sem máscaras | Disfarces e máscaras |
| Sentido religioso (esmola pelas almas) | Festa comercial e lúdica |
Nos últimos anos, o Halloween tem substituído o Pão-por-Deus em muitas cidades. Várias escolas e associações procuram hoje recuperar a tradição portuguesa.
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Fontes
- Wikipédia, «Pão-por-Deus»: https://pt.wikipedia.org/wiki/Pão-por-Deus
- Capitula Martini Bracarensis, cân. 69 (texto latino): https://www.benedictus.mgh.de/quellen/chga/chga_059t.htm
- Teófilo Braga, O Povo Português nos seus Costumes, Crenças e Tradições (1885).
- José Leite de Vasconcelos, Opúsculos (volumes de Etnologia).