O coral vermelho foi, durante milénios, um dos amuletos mais populares do Mediterrâneo. Pendurava-se ao pescoço das crianças e ainda hoje se vê nos pequenos cornos vermelhos de Nápoles.
Mas o coral não é uma pedra. É o esqueleto de uma colónia de animais marinhos que crescem muito devagar e que hoje estão ameaçados.
Em Portugal, o coral vermelho vive na costa do Algarve e está protegido por lei.
Ficha
| Característica | Coral vermelho |
|---|---|
| Nome | Coral vermelho (Corallium rubrum) |
| Tipo | Esqueleto de um animal marinho (octocoral), material orgânico |
| Composição | Carbonato de cálcio, colorido por pigmentos carotenoides |
| Dureza (Mohs) | Cerca de 3,5 |
| Cor | Vermelho, rosa, laranja-avermelhado |
| Onde vive | Mediterrâneo e Atlântico, de Portugal a Cabo Verde; em Portugal, sobretudo o Algarve |
| Outros nomes | Coral precioso, coral-vermelho |
O que é o coral
O coral vermelho é formado por pequenos pólipos, parentes das anémonas, que vivem juntos numa colónia em forma de arbusto. O esqueleto que constroem é duro, feito de carbonato de cálcio, e é essa parte que se trabalha em joalharia.
Vive normalmente entre 10 e 200 metros de profundidade, em grutas e paredes rochosas pouco iluminadas.
Cresce muito devagar: em média, poucos milímetros a cerca de 2 cm por ano em altura. Uma colónia grande pode ter muitas décadas, e algumas chegam perto dos cem anos.
Mito: o sangue da Medusa
Na mitologia grega, contada por Ovídio nas Metamorfoses, o herói Perseu cortou a cabeça da Górgona Medusa. Pousou-a sobre algas na margem, e o sangue transformou as plantas em coral vermelho, que endurece ao contacto com o ar.
Por isso os gregos também lhe chamavam gorgeia, da palavra Górgona.
O coral como amuleto
Na Antiguidade
Plínio, o Velho (século I) regista, na História Natural (livro 32), uma crença do seu tempo: ramos de coral atados às crianças pequenas eram considerados uma proteção.
Plínio conta também que os indianos valorizavam as contas de coral tanto quanto as romanas valorizavam as pérolas. O coral foi, de facto, um grande produto de exportação do Mediterrâneo para a Índia.
Colares de coral aparecem ainda em sepulturas egípcias e da pré-história europeia.
Em Itália: o cornicello
No sul de Itália, sobretudo em Nápoles, o cornicello é um pequeno corno torcido, muitas vezes de coral vermelho, usado contra o malocchio (mau-olhado) e a má sorte.
Segundo a crença popular italiana, o mau-olhado ameaçava sobretudo mães que amamentavam, bebés, árvores de fruto e animais. O vermelho do coral e a forma de corno juntavam-se como proteção.
Desde o início do século XIX, Torre del Greco, perto de Nápoles, tornou-se o grande centro europeu do trabalho do coral.
➜ Hamsá
Na tradição do Mediterrâneo
A mesma ideia atravessa todo o Mediterrâneo: pendurar coral nas crianças para as proteger. É uma tradição cultural muito antiga, próxima da das figas de azeviche na Galiza e em Portugal.
➜ Azeviche
Na crença esotérica moderna
Na tradição esotérica moderna, o coral é associado a:
- proteção, sobretudo das crianças e da casa;
- o mar e a água;
- vitalidade, pela cor de sangue;
- fertilidade, herança da crença italiana.
São crenças e símbolos. O coral não tem efeitos terapêuticos demonstrados.
Atenção com crianças
Não coloque colares, pulseiras ou fios de contas em bebés e crianças pequenas. Há risco de asfixia e de estrangulamento. Se quiser manter a tradição, guarde o coral como recordação, fora do alcance da criança.
Um animal ameaçado
A apanha intensiva, sobretudo em águas pouco profundas, esgotou o coral vermelho em muitas zonas do Mediterrâneo. As colónias grandes e antigas tornaram-se raras.
Em 2007, os Estados Unidos propuseram incluir o género Corallium na CITES (a convenção sobre o comércio de espécies ameaçadas), citando o crescimento lento e a sobre-exploração. A proposta não foi aprovada, mas a pesca é hoje regulada no Mediterrâneo.
Em Portugal
O coral vermelho foi documentado na costa algarvia, com imagens obtidas ao largo de Sagres em 2011. Em 2012, as autoridades apreenderam corais com 70 a 140 anos, apanhados ilegalmente.
Em 2020, o Governo anunciou legislação para proteger o coral vermelho da costa portuguesa, com multas que podem chegar aos 5 milhões de euros.
Não apanhe nem compre coral de origem desconhecida. Se quiser coral, prefira peças antigas (de família ou antiquário) ou peças com origem legal comprovada.
Coral falso e tingido
Muito do «coral» vendido não é coral vermelho:
- coral-bambu e coral-esponja, mais baratos, muitas vezes tingidos de vermelho;
- vidro, plástico e pastas prensadas;
- pó de coral misturado com resina (coral «reconstituído»).
Se a cor sair num algodão com um pouco de acetona, é tinta.
Cuidados
- Macio e sensível a ácidos: vinagre, limão, perfume e produtos de limpeza danificam-no.
- Calor e sol: podem desbotar a cor.
- Limpeza: apenas pano macio húmido; nunca sal nem ultrassons.
- Guarde-o separado de pedras mais duras.
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➜ Âmbar
Fontes
- «Precious coral», Wikipedia — en.wikipedia.org
- «Cornicello», Wikipedia — en.wikipedia.org
- Plínio, o Velho, Naturalis Historia, livro 32, 24 — penelope.uchicago.edu
- CITES, CoP14 Prop. 21 (Corallium spp.), 2007 — cites.org
- CCMAR (Universidade do Algarve), «Anunciadas novas medidas de proteção para o coral vermelho», 2020 — ccmar.ualg.pt