«Esta criança tem quebranto.» Durante séculos, foi assim que muitas mães e avós portuguesas explicaram um bebé que não mamava, chorava sem parar ou andava «murcho».
O quebranto é uma das crenças populares mais antigas e mais espalhadas de Portugal. Está ligado ao mau-olhado, mas não é exatamente a mesma coisa.
Nesta página vemos o que dizem os dicionários e os etnógrafos, como se distinguia do mau-olhado e do enguiço, e que rezas se diziam para o «tirar». No fim, uma nota de saúde importante.
Ficha
| Campo | Informação |
|---|---|
| Nome | Quebranto |
| Palavra | Derivada de quebrantar (quebrar, abater) |
| Tipo | Crença popular; «mal» tratado por benzedeiras |
| Causa, segundo a crença | O mau-olhado, a inveja, um olhar ou um elogio |
| Vítimas mais citadas | Crianças pequenas, mas também adultos, animais e colheitas |
| Sinais, segundo a crença | Abatimento, fraqueza, bocejos, falta de apetite, choro |
| Tratamento tradicional | Benzedura, rezas, amuletos |
| Estudos de referência | Adolfo Coelho, «O Quebranto» (1895); Leite de Vasconcelos |
O que diz a palavra
O Dicionário Priberam dá três sentidos a quebranto: «feitiço; mau-olhado»; «fraqueza, debilidade»; e, em linguagem figurada, «prostração; languidez».
A palavra vem do verbo quebrantar, do latim vulgar crepantare. A ideia de fundo é simples: quem tem quebranto está quebrado, sem forças.
A palavra é antiga na língua. Numa farsa de Gil Vicente, a Farsa de Quem Tem Farelos (século XVI), uma velha amaldiçoa assim um rapaz que troça dela:
Má cainça que te coma,
mao quebranto te quebrante.
(Citado por Luís de Pina, 1928.)
Quebranto, mau-olhado e enguiço
Na fala do povo, as três palavras misturam-se muito. O médico e etnógrafo Luís de Pina, num estudo de 1928 sobre o folclore de Guimarães, chamou-lhes «irmãs colaças ou próximas parentes». Ainda assim, há diferenças de ênfase:
| Palavra | O que sublinha |
|---|---|
| Mau-olhado | A causa: o olhar de inveja ou de admiração que faz mal |
| Quebranto | O efeito: o abatimento e a fraqueza de quem foi «olhado» |
| Enguiço | O azar e o «encravar» das coisas; enguiçar também é avariar |
O autor Hernâni Matos resume bem a ideia popular: o quebranto «é causado pelo mau-olhado e tem sintomas próprios».
➜ Mau-olhado: a crença, a história e as benzeduras
➜ Enguiço: o que é na tradição portuguesa
Quem apanhava quebranto
As crianças
As crianças pequenas eram as vítimas mais temidas. Um elogio («que menino tão lindo!») podia, segundo a crença, deitar-lhe quebranto sem querer. Por isso ainda há quem acrescente «Deus o abençoe» depois de gabar um bebé.
As mães protegiam os filhos com amuletos. José Leite de Vasconcelos registou em 1882 que as crianças traziam ao pulso um cordão com um vintém de prata, uma conta de azeviche e uma figa, «por causa de cousas más» (Beira Alta, Douro). Mais tarde, em 1929, escreveu que o coral «livra de quebranto quem o traz no braço ou no pescoço».
Adultos, animais e colheitas
O quebranto não era só coisa de crianças. Recolhas no Algarve, publicadas pelo investigador Luciano Pereira (2016), dizem que o mal se podia deitar «a crianças, adultos, animais e coisas», como a carne que se estava a fazer ou as searas.
Uma vaca que deixava de dar leite, um porco que não engordava ou uma planta que secava podiam ter, aos olhos da aldeia, «quebranto».
Como se «tirava» o quebranto
Quem tirava o quebranto era a benzedeira ou o benzedor. Usava rezas em verso, cruzes sobre a pessoa, raminhos de arruda ou alecrim, e muitas vezes a prova do azeite num prato com água.
➜ Benzedeiras e rezadeiras em Portugal
Duas benzeduras recolhidas
As fórmulas são textos populares, sem autor, e mudam de terra para terra. Transcrevemos apenas versões publicadas, com a fonte.
No Alto Minho, segundo a recolha publicada por Luciano Pereira, a benzedeira faz cruzes com um raminho de arruda e diz o nome da pessoa:
Eu te benzo em cruz
pelas chagas de Jesus,
pelas passadas que a Virgem deu
pela rua da amargura.
Se tens quebranto ou inveja
ou maus olhos que pra ti olharam…
Em Prado (Melgaço), Leite de Vasconcelos registou uma fórmula curta, em que dois olhos fazem o mal e quatro olhos santos o desfazem:
Dois olhos me feriram,
e quatro me sararão:
dois sejam de Nossa Senhora
e dois de S. João.
A lógica é a mesma das outras rezas portuguesas: o mal entrou pelos olhos e sai pela força do sagrado. Na fórmula de Guimarães, «dois» deram o mal e «três» (a Santíssima Trindade) o tiram.
➜ Benzeduras portuguesas: as fórmulas recolhidas
Os estudiosos do quebranto
- Adolfo Coelho publicou em 1895 um estudo inteiro chamado «Tradições Populares Portuguesas. O Quebranto», na Revista de Ciências Naturais (vol. III).
- José Leite de Vasconcelos registou rezas e amuletos contra o mau-olhado ao longo de toda a obra, das Tradições Populares de Portugal (1882) à Etnografia Portuguesa.
- Luís de Pina estudou as crenças de Guimarães ligadas às bruxas e à medicina popular (1928).
Para a Inquisição, que via estas práticas com desconfiança, benzer o quebranto podia ser «superstição». Mas a grande maioria das benzedeiras nunca chegou a tribunal.
➜ Processos de feitiçaria na Inquisição portuguesa
Nota de saúde
O quebranto é uma crença, não um diagnóstico. Os «sinais» que o povo lhe atribuía — choro persistente, falta de apetite, prostração, febre, vómitos, um bebé «murcho» — podem ser sinais de doença real, às vezes grave.
Num bebé ou numa criança pequena, estes sinais são motivo para ir ao médico ou ao pediatra, sem esperar por rezas. A boa regra das benzedeiras antigas continua válida: benzer e mandar ao médico.
Em Portugal: SNS 24 — 808 24 24 24. Em emergência, 112.
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➜ Olho gordo e mau-olhado na tradição de São Cipriano
Fontes
- Dicionário Priberam, «quebranto» e «enguiço» — dicionario.priberam.org
- Luís de Pina, «Bruxas e medicina (folclore de Guimarães)», Trabalhos de Antropologia e Etnologia, 1928 — PDF
- Luciano Pereira, «O mau-olhado na cultura popular», Anais do 25.º Colóquio da Lusofonia, Montalegre, 2016, pp. 188–198 — comum.rcaap.pt
- José Leite de Vasconcelos, Tradições Populares de Portugal, Porto, 1882 — archive.org; Alexandra Vieira, «Os amuletos em Portugal: o coral vermelho», Arqueologia em Portugal 2020, pp. 1849–1864 — bibliotecadigital.unipb.pt
- Hernâni Matos, «O sentido da visão: superstições, rezas e benzeduras», Do Tempo da Outra Senhora, 2011 — blogspot