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🏺 Tradição Portuguesa

Amuletos portugueses: o que as avós traziam ao pescoço

Os amuletos tradicionais portugueses: figa de azeviche, coral, signo-saimão, meia-lua, corno, ferradura, bentinhos e pedras de raio, segundo Leite de Vasconcelos.

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Neste artigo
  1. Leite de Vasconcelos e os amuletos
  2. Os amuletos de forma
  3. Os amuletos de matéria
  4. Amuletos religiosos
  5. Plantas
  6. Atenção com as crianças
  7. Continue a ler
  8. Fontes

Uma figa de azeviche presa à roupa do bebé. Uma ferradura atrás da porta. Uma estrela gravada na soleira. Um pequeno corno de coral num fio de ouro.

Durante séculos, os portugueses rodearam-se de amuletos: objetos a que se atribuía o poder de afastar o mau-olhado, as bruxas e a má sorte. Muitos ainda se vendem nas ourivesarias.

Esta página reúne os amuletos tradicionais portugueses, com o que deles registaram os etnógrafos, sobretudo José Leite de Vasconcelos. Cada amuleto é uma crença: nenhum protege de facto contra doenças ou desgraças.

Leite de Vasconcelos e os amuletos

O grande estudioso dos amuletos portugueses foi José Leite de Vasconcelos (1858–1941). Fundou em 1893 o Museu Etnográfico Português, hoje Museu Nacional de Arqueologia, em Lisboa, e juntou ali objetos da vida popular, incluindo amuletos que recolheu pelo país.

Dedicou-lhes vários estudos:

Obra Ano
Tradições Populares de Portugal 1882
Signum Salomonis (o signo-saimão) 1918
A Figa (conferência na Faculdade de Medicina do Porto) 1925
«Amuletos de coral», Boletim de Etnografia 1929

Signum Salomonis e A Figa foram reeditados num só volume, com A Barba em Portugal.

Forma ou matéria

Em 1915, na História do Museu Etnológico Português, Leite de Vasconcelos propôs uma divisão simples, que ajuda a ler qualquer amuleto:

  • amuletos cuja virtude depende da forma: «figa, sino-saimão, moedas, meia-lua, noz de três esquinas, cornicho»;
  • amuletos cuja virtude depende da substância: «contas (de azeviche, de coral), anéis metálicos, ferraduras, mãos de toupeira, dentes, pedras de raio».

Os amuletos de forma

A figa

É o amuleto português por excelência. O Priberam define-a como amuleto «do feitio de mão fechada com a extremidade do polegar passada entre o indicador e o médio». A palavra vem do latim ficus, figo.

O gesto é romano: chamava-se manus fica e usava-se para afastar os espíritos maus. Na origem tinha um sentido sexual, que, segundo a interpretação mais citada, «distraía» o olhar invejoso. Em Portugal e no Brasil, «fazer figas» passou a ser um voto de boa sorte.

As figas faziam-se de madeira, pedra, prata, ouro e, sobretudo, azeviche. Leite de Vasconcelos dedicou-lhe uma conferência inteira, lida na Faculdade de Medicina do Porto em 1925.

➜ Azeviche

O signo-saimão

A estrela de Salomão, de seis ou de cinco pontas, gravada em portas, chaminés e pendentes. O Dicionário Infopédia define o sino-saimão como figura de dois triângulos entrelaçados «usada como talismã contra qualquer influência funesta».

➜ O signo-saimão

A meia-lua

O crescente é um dos amuletos mais antigos do Mediterrâneo. Em Roma, as raparigas usavam a lunula, um pendente em forma de lua, contra as forças maléficas e sobretudo contra o mau-olhado; os rapazes usavam a bulla. Leite de Vasconcelos incluiu a meia-lua entre os amuletos portugueses de forma.

O corno

O corno é um amuleto contra o mau-olhado de raízes antigas, muito ligado ao Sul de Itália (o cornicello). Em Portugal, Leite de Vasconcelos registou em 1882 que «contra a má olhadura ou mau olhado é bom um corno de veado». Em Guimarães, Luís de Pina anotou em 1928 os «cornichos de vaca-loira», as mandíbulas do escaravelho Lucanus cervus.

Os «sinos-saimão» de hoje

Há ourivesarias portuguesas que vendem ainda um berloque chamado signo-saimão que junta quatro amuletos: a estrela, a meia-lua, a figa e o corno. É a herança moderna destas crenças, reunida numa só peça.

Os amuletos de matéria

Azeviche e coral

As duas matérias mais usadas nos amuletos das crianças. Leite de Vasconcelos registou que as crianças traziam ao pulso um cordão com um vintém de prata, uma conta de azeviche e uma figa, «por causa de cousas más» (Beira Alta, Douro), e que as mulheres que amamentavam traziam azeviche (Guimarães).

Do coral escreveu que «livra de quebranto quem o traz no braço ou no pescoço». Em Vila do Conde dizia-se que valia o mesmo que o azeviche contra o mau-olhado. Num registo de expostos da Misericórdia de Lisboa, de 1792, um bebé abandonado levava «por sinal um coral».

➜ Coral

➜ O quebranto

Ferradura, anéis e moedas

A ferradura pendura-se à porta. Os anéis metálicos e as moedas (muitas vezes furadas, para pendurar) entravam na mesma família dos amuletos de metal.

Pedras de raio, dentes e mãos de toupeira

As pedras de raio eram machados de pedra pré-históricos que o povo julgava caídos com os raios. Dentes e mãos de toupeira completam a lista de Leite de Vasconcelos: partes de animais a que se atribuía força protetora.

Amuletos religiosos

A fronteira entre a devoção católica e o amuleto foi sempre fina. Luís de Pina registou em Guimarães, ao lado das figas, a regra de São Bento, medalhas de santos, cruzes, relíquias e escapulários.

  • Bentinhos e escapulários: o Priberam define o bentinho como «escapulário bento que os católicos trazem pendente do pescoço». Para a Igreja, o escapulário é um sacramental, sinal de devoção, e não um talismã; as próprias ordens carmelitas rejeitam leituras supersticiosas.
  • Cruzes: da cruz simples à Cruz de Caravaca, muito difundida em Portugal.
  • A medalha de São Bento, com as suas letras de esconjuro.

➜ A Cruz de Caravaca

Plantas

Arruda e alecrim também se usavam como amuletos: atrás da orelha, no bolso, à cabeceira do berço. Leite de Vasconcelos registou no Minho uma tesoura aberta, arruda e alecrim junto ao berço, «para as bruxas as não chuparem».

Atenção com as crianças

Fios, cordões e contas ao pescoço ou ao pulso de bebés e crianças pequenas têm risco real de asfixia e estrangulamento. Se quiser manter a tradição, guarde o amuleto como recordação, sempre fora do alcance da criança e longe do berço.

Continue a ler

➜ Amuletos e talismãs

➜ Superstições portuguesas

➜ Amuletos de proteção na tradição de São Cipriano

Fontes

  • José Leite de Vasconcelos, Tradições Populares de Portugal, Porto, 1882 — archive.org; Signum Salomonis. A Figa. A Barba em Portugal, Etnográfica Press — books.openedition.org
  • Alexandra Vieira, «Os amuletos em Portugal — dos objetos às superstições: o coral vermelho», Arqueologia em Portugal 2020 — Estado da Questão, Lisboa, AAP, pp. 1849–1864 — bibliotecadigital.unipb.pt
  • Luís de Pina, «Bruxas e medicina (folclore de Guimarães)», Trabalhos de Antropologia e Etnologia, 1928 — PDF
  • Museu Nacional de Arqueologia, «O Fundador» — museunacionalarqueologia.gov.pt
  • «Fig sign», «Lunula (amulet)» e «Brown Scapular», Wikipedia — en.wikipedia.org

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