O azeviche é a «pedra» negra e brilhante das figas que, durante séculos, se penduraram ao pescoço das crianças na Galiza e em Portugal para as proteger do mau-olhado.
Na verdade não é uma pedra: é madeira fossilizada, uma forma muito dura de lenhite, aparentada com o carvão.
A sua história passa pelas minas das Astúrias, pelas oficinas de Santiago de Compostela e pelas joias de luto da rainha Vitória.
Ficha
| Característica | Azeviche |
|---|---|
| Nome | Azeviche (castelhano azabache; inglês jet; latim gagates) |
| Composição | Lenhite compacta: madeira fossilizada, cerca de 75 % carbono |
| Origem | Sobretudo árvores antigas da família das araucárias |
| Dureza (Mohs) | 2,5 a 4 |
| Cor | Negro intenso, brilho aveludado quando polido |
| Onde se encontra | Astúrias (Espanha), Whitby (Inglaterra) e outros locais |
O que é o azeviche
O azeviche formou-se a partir de troncos de árvores que caíram em águas paradas e foram soterrados e comprimidos durante o período Jurássico.
É leve, morno ao toque e fácil de esculpir, mas quebradiço. Como o âmbar, ganha eletricidade estática quando é esfregado e atrai pedacinhos de papel.
As jazidas mais famosas são duas:
- Whitby, em Inglaterra, com cerca de 181 milhões de anos;
- Astúrias, sobretudo a costa entre Gijón e Ribadesella (com destaque para Oles, em Villaviciosa), o maior depósito da Península Ibérica.
A palavra portuguesa «azeviche» e a castelhana azabache vêm do árabe.
Na Antiguidade
Os romanos chamavam-lhe gagates. Plínio, o Velho (século I) diz que o nome vem de Gagas, na Lícia (atual Turquia).
Plínio descreve-o como negro, leve e poroso, e diz que, queimado, afasta as serpentes e deita um cheiro forte. Regista ainda que os «magos» o usavam numa forma de adivinhação.
O azeviche foi usado para amuletos contra o mau-olhado já em época romana, e Santo Isidoro de Sevilha (século VII) falou das suas virtudes protetoras.
Santiago de Compostela e os azabacheros
Na Idade Média, o azeviche das Astúrias tornou-se a grande recordação dos peregrinos que chegavam a Santiago.
Os artesanos, chamados azabacheros, formaram um grémio já no século XIV. Foi um dos grémios mais ricos da cidade, com centenas de profissionais entre os séculos XV e XVII. Trabalhavam junto à catedral, na praça e rua que ainda hoje se chama Azabachería.
Faziam:
- figuras de Santiago peregrino;
- conchas de vieira;
- figas contra o mau-olhado;
- contas de rosário.
No século XVIII, com a diminuição dos peregrinos, o ofício entrou em declínio. Hoje resta um pequeno número de mestres.
A figa de azeviche
A figa é uma mão fechada com o polegar entre o indicador e o médio. É um gesto e um amuleto muito antigos, já conhecidos em época romana.
A figa de azeviche juntava duas proteções: o gesto e a «pedra» negra. Na tradição galega, os peregrinos levavam-nas para proteger os filhos e os familiares mais frágeis. Na crença popular, as crianças e os idosos eram os mais vulneráveis ao mau-olhado.
Em Portugal, a figa, muitas vezes de azeviche, tornou-se um dos amuletos populares mais comuns. O etnógrafo José Leite de Vasconcelos dedicou-lhe um estudo inteiro, A Figa (1925). Ainda hoje se vendem figas de azeviche em ourivesarias e lojas tradicionais.
➜ Hamsá, a mão contra o mau-olhado
Joias de luto
No século XIX, depois da morte do príncipe Alberto em 1861, a rainha Vitória usou joias de azeviche de Whitby no luto. O azeviche tornou-se a joia de luto da moda por toda a Europa.
A procura foi tal que surgiram muitas imitações, como o «azeviche francês», que era vidro negro.
Na crença esotérica moderna
Na tradição esotérica moderna, o azeviche é associado a:
- proteção contra o mau-olhado e a inveja, herança direta da tradição popular;
- luto e passagem, pela ligação às joias vitorianas;
- «absorver» energias negativas.
São crenças. O azeviche não tem efeitos terapêuticos demonstrados.
Como distinguir o verdadeiro
- Peso: o azeviche é leve e morno; o vidro é frio e pesado.
- Risco: numa porcelana não vidrada deixa traço castanho; o vidro não risca.
- Imitações comuns: vidro negro, ebonite (borracha endurecida), plásticos e antracite.
Cuidados
- Frágil: parte-se e lasca com quedas e choques.
- Água e calor: evite banhos prolongados e fontes de calor, que o podem fissurar.
- Sal: não o guarde em sal grosso.
- Fogo: o azeviche arde, como o carvão. Não o aproxime de velas. ➜ Como usar velas com segurança
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Fontes
- «Jet (gemstone)», Wikipedia — en.wikipedia.org
- «Azabache» e «Higa», Xacopedia (enciclopédia do Caminho de Santiago) — xacopedia.com
- Plínio, o Velho, Naturalis Historia, livro 36, 141–142 — penelope.uchicago.edu
- José Leite de Vasconcelos, A Figa, Porto, 1925
- «Azeviche», Wikipédia — pt.wikipedia.org