Antes da luz elétrica, a noite era escura a sério. Os caminhos ficavam desertos, os sons pareciam maiores e o que não se via imaginava-se. Não admira que a noite tenha sido, em todo o mundo, o tempo dos espíritos, das bruxas e dos medos.
Esta página reúne as principais crenças sobre a noite no folclore português e galego. São lendas e tradições, contadas como tal, com as suas fontes.
A noite na religião
A noite não era só medo. A Igreja rezava de noite: as Completas antes de dormir, as vigílias, a Missa do Galo no Natal e a Vigília Pascal, que começa no escuro e acende o círio.
Na tradição popular, rezava-se ao Anjo da Guarda antes de adormecer, para pedir proteção durante a noite.
➜ Oração da meia-noite de São Cipriano
As horas abertas
A tradição portuguesa falava de horas abertas: momentos em que, segundo a crença, o mundo dos vivos ficava mais exposto ao sobrenatural. Eram sobretudo o meio-dia, as Trindades (o toque do sino ao fim da tarde) e a meia-noite.
A língua guarda outra expressão: as horas mortas, o fim da noite e o início da madrugada, quando ninguém anda na rua.
Nas horas abertas, segundo a tradição, não se devia andar sozinho nos caminhos, sobretudo nas encruzilhadas. O Livro de São Cipriano português inclui mesmo orações para as horas abertas.
➜ Melhores dias e horas para rituais, segundo a tradição
E as 3 da manhã?
A ideia de que as 3 da manhã são «a hora do diabo» é sobretudo recente, espalhada pela internet e pelo cinema de terror. Não faz parte das horas abertas da tradição portuguesa.
➜ Oração das 3 horas da madrugada
O lobisomem
No folclore português, o lobisomem não é um monstro de cinema. É uma pessoa com um «fado» (um destino) que a obriga a correr de noite, transformada em animal. Muitas vezes seria o sétimo filho varão de uma família.
Alexandre Herculano registou a crença da Beira Baixa: os lobisomens têm o fado de se despir de noite no meio do caminho, «principalmente encruzilhada», e correr até de madrugada. Segundo a lenda, o encanto quebrava-se quando alguém os feria até fazer sangue.
A ligação à lua cheia e às balas de prata vem sobretudo do cinema do século XX.
➜ A Lua na magia e na tradição
As bruxas da noite
Nas recolhas de tradição oral, a bruxa portuguesa sai de noite, por vezes transformada em animal, para fazer mal a crianças ou ao gado. Contra ela usavam-se orações, a figa, o sal ou ramos benzidos.
Estas crenças tiveram consequências reais: nos séculos XVI a XVIII, a Inquisição e os tribunais perseguiram pessoas acusadas de feitiçaria, sobretudo mulheres pobres.
A Santa Compaña
Na Galiza, nas Astúrias e no Norte de Portugal, conta-se a lenda da Santa Compaña: uma procissão de almas que percorre os caminhos à meia-noite. À frente vai uma pessoa viva, que leva uma cruz ou uma caldeirinha de água benta, sem saber o que faz. Segundo a lenda, a procissão anuncia uma morte próxima.
Tem outros nomes, como Estadea ou «as da noite». Para se proteger, a tradição mandava traçar um círculo no chão e deitar-se de barriga para baixo até ela passar.
É uma versão ibérica da «caçada selvagem», uma lenda comum a muitos povos europeus.
➜ Os mortos no Livro de São Cipriano
O que explica muitos «medos da noite»
- A escuridão dificulta ver e reconhecer formas, e o cérebro tende a «completar» o que não vê.
- A paralisia do sono, comum e inofensiva, pode vir com a sensação de uma presença no quarto.
- O cansaço e o isolamento aumentam o medo.
Se o medo da noite ou a insónia se tornarem difíceis de gerir, fale com o seu médico.
Continue a ler
➜ O cemitério e o culto dos mortos
➜ PortugalParanormal.pt — relatos e mistérios
Fontes
- «Lobisomem», Wikipédia (cita Alexandre Herculano, Opúsculos, tomo IX) — pt.wikipedia.org
- «Santa Compaña», Wikipedia — en.wikipedia.org
- José Leite de Vasconcelos, Tradições populares de Portugal (1882) — HathiTrust
- «Horas mortas», Dicionário Priberam da Língua Portuguesa — priberam.org