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A magia enoquiana — a «língua dos anjos» de John Dee

A magia enoquiana: as sessões de John Dee e Edward Kelley (1582–1589), o alfabeto e a língua «angélica», as tábuas e as chamadas, e a sua adoção pela Golden Dawn.

4 min de leitura · Revisto em
Neste artigo
  1. Ficha
  2. Dee, Kelley e as «conferências espirituais»
  3. Os textos e os objetos
  4. A língua: verdadeira ou inventada?
  5. Casaubon e a primeira publicação (1659)
  6. A Golden Dawn e depois
  7. Continue a ler
  8. Fontes

A magia enoquiana é o sistema mágico nascido das sessões de John Dee, sábio da corte de Isabel I de Inglaterra, e do seu vidente Edward Kelley, entre 1582 e 1589.

Segundo os diários de Dee, os anjos ditaram-lhes uma língua própria, um alfabeto, tábuas de letras e invocações. Dee chamou-lhe língua «angélica»; o nome «enoquiana» veio depois, por associação ao patriarca bíblico Enoque, que segundo a tradição teria falado com os anjos.

Esta página conta a história documentada destes textos e o que os linguistas dizem da língua. Não ensina a praticar o sistema.

Ficha

Campo Informação
Origem Sessões de John Dee e Edward Kelley, Inglaterra e Europa Central
Datas 1581–1589
Manuscritos British Library, sobretudo Sloane MS 3188 e 3189
Primeira publicação Meric Casaubon, A True & Faithful Relation (1659)
Língua «Angélica» ou enoquiana; alfabeto de 21 letras
Renascimento Golden Dawn (fim do séc. XIX)

Dee, Kelley e as «conferências espirituais»

John Dee (1527–1608/09) foi matemático, astrólogo, geógrafo e dono de uma das maiores bibliotecas da Inglaterra, em Mortlake. Convencido de que o saber humano tinha limites, procurou falar com os anjos através de um vidente.

As primeiras tentativas desiludiram-no. Em 1582 apareceu Edward Kelley, que se apresentou inicialmente com o nome «Edward Talbot». Kelley olhava para uma pedra ou espelho (shew-stone) e descrevia o que via e ouvia; Dee escrevia tudo.

As sessões eram rodeadas de oração cristã. Dee via-as como uma busca religiosa.

➜ John Dee

A viagem pela Europa Central

Em setembro de 1583, os dois partiram com as famílias para a Europa Central. Estiveram com o rei Estêvão Báthory, da Polónia, e com o imperador Rodolfo II, em Praga.

Em 1587, na Boémia, Kelley anunciou que o anjo Uriel ordenava aos dois homens que partilhassem tudo, incluindo as mulheres. Dee aceitou, com grande angústia, e pouco depois interrompeu as sessões. Regressou a Inglaterra em 1589 e encontrou a biblioteca saqueada.

➜ O arcanjo Uriel

Os textos e os objetos

Os livros

  • Os Cinco Livros do Mistério registam as sessões de dezembro de 1581 a maio de 1583 (Sloane MS 3188).
  • O Liber Loagaeth («Livro de Enoque», 1583) contém 96 grelhas de letras, na maioria sem tradução (Sloane MS 3189).
  • As Chamadas ou Chaves (Calls, Keys): 19 invocações na língua angélica, com tradução inglesa. A 19.ª serve, na tradição posterior, para «abrir» os 30 «Aethyrs», níveis espirituais numerados de 30 a 1.
  • A Grande Tábua, formada por quatro tábuas associadas aos quatro elementos e às quatro partes do mundo (as «torres de vigia» dos ocultistas posteriores).

Os objetos

  • O Sigillum Dei Aemeth («selo da verdade de Deus»), um diagrama circular com figuras geométricas, letras e números, de que Dee mandou fazer versões em cera.
  • A Mesa Santa, gravada com letras enoquianas.
  • O espelho de obsidiana de Dee, que está hoje no British Museum. Análises de 2019 indicaram obsidiana do México: é um objeto asteca, que chegou à Europa após a conquista espanhola.

➜ O Livro de Soyga

A língua: verdadeira ou inventada?

Dee acreditava tratar-se da língua de Adão no Paraíso, com que teria dado nome a todas as coisas.

Característica O que se sabe
Alfabeto 21 letras, escritas da direita para a esquerda
Nomes das letras Un (A), Pa (B), Veh (C), Gal (D)…
Sintaxe Segue de perto a do inglês
Gramática Traduções insuficientes para uma morfologia regular

O linguista Donald Laycock estudou o corpus e concluiu que se trata de uma língua construída muito próxima do inglês. Os textos sem tradução do Liber Loagaeth lembram mais a glossolalia (falar «em línguas») do que um idioma real.

Quem a criou — Kelley, de forma consciente ou em transe, ou os dois — continua em aberto. Não há prova de uma origem sobrenatural.

Casaubon e a primeira publicação (1659)

Durante décadas os papéis de Dee ficaram inéditos. Em 1659, Meric Casaubon publicou parte deles como A True & Faithful Relation…, com a intenção de desacreditar Dee e Kelley, acusando-os de lidar com o Diabo.

A edição tem erros de transcrição conhecidos, mas foi durante muito tempo a principal via de acesso ao material.

A Golden Dawn e depois

Nos anos 1880–1890, a Golden Dawn redescobriu os manuscritos de Dee e integrou-os num sistema com a Cabala, o tarot e os elementos. Grande parte da «magia enoquiana» moderna vem dessa reorganização, não diretamente de Dee.

Aleister Crowley explorou os 30 Aethyrs no México (1900) e na Argélia (1909), com Victor Neuburg. O relato saiu em 1911 como The Vision and the Voice.

➜ A Golden Dawn

➜ Thelema

Continue a ler

➜ Monas Hieroglyphica de John Dee

➜ Angelologia

➜ Magia renascentista

➜ Magia cerimonial

Fontes

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