A magia enoquiana é o sistema mágico nascido das sessões de John Dee, sábio da corte de Isabel I de Inglaterra, e do seu vidente Edward Kelley, entre 1582 e 1589.
Segundo os diários de Dee, os anjos ditaram-lhes uma língua própria, um alfabeto, tábuas de letras e invocações. Dee chamou-lhe língua «angélica»; o nome «enoquiana» veio depois, por associação ao patriarca bíblico Enoque, que segundo a tradição teria falado com os anjos.
Esta página conta a história documentada destes textos e o que os linguistas dizem da língua. Não ensina a praticar o sistema.
Ficha
| Campo | Informação |
|---|---|
| Origem | Sessões de John Dee e Edward Kelley, Inglaterra e Europa Central |
| Datas | 1581–1589 |
| Manuscritos | British Library, sobretudo Sloane MS 3188 e 3189 |
| Primeira publicação | Meric Casaubon, A True & Faithful Relation (1659) |
| Língua | «Angélica» ou enoquiana; alfabeto de 21 letras |
| Renascimento | Golden Dawn (fim do séc. XIX) |
Dee, Kelley e as «conferências espirituais»
John Dee (1527–1608/09) foi matemático, astrólogo, geógrafo e dono de uma das maiores bibliotecas da Inglaterra, em Mortlake. Convencido de que o saber humano tinha limites, procurou falar com os anjos através de um vidente.
As primeiras tentativas desiludiram-no. Em 1582 apareceu Edward Kelley, que se apresentou inicialmente com o nome «Edward Talbot». Kelley olhava para uma pedra ou espelho (shew-stone) e descrevia o que via e ouvia; Dee escrevia tudo.
As sessões eram rodeadas de oração cristã. Dee via-as como uma busca religiosa.
➜ John Dee
A viagem pela Europa Central
Em setembro de 1583, os dois partiram com as famílias para a Europa Central. Estiveram com o rei Estêvão Báthory, da Polónia, e com o imperador Rodolfo II, em Praga.
Em 1587, na Boémia, Kelley anunciou que o anjo Uriel ordenava aos dois homens que partilhassem tudo, incluindo as mulheres. Dee aceitou, com grande angústia, e pouco depois interrompeu as sessões. Regressou a Inglaterra em 1589 e encontrou a biblioteca saqueada.
Os textos e os objetos
Os livros
- Os Cinco Livros do Mistério registam as sessões de dezembro de 1581 a maio de 1583 (Sloane MS 3188).
- O Liber Loagaeth («Livro de Enoque», 1583) contém 96 grelhas de letras, na maioria sem tradução (Sloane MS 3189).
- As Chamadas ou Chaves (Calls, Keys): 19 invocações na língua angélica, com tradução inglesa. A 19.ª serve, na tradição posterior, para «abrir» os 30 «Aethyrs», níveis espirituais numerados de 30 a 1.
- A Grande Tábua, formada por quatro tábuas associadas aos quatro elementos e às quatro partes do mundo (as «torres de vigia» dos ocultistas posteriores).
Os objetos
- O Sigillum Dei Aemeth («selo da verdade de Deus»), um diagrama circular com figuras geométricas, letras e números, de que Dee mandou fazer versões em cera.
- A Mesa Santa, gravada com letras enoquianas.
- O espelho de obsidiana de Dee, que está hoje no British Museum. Análises de 2019 indicaram obsidiana do México: é um objeto asteca, que chegou à Europa após a conquista espanhola.
A língua: verdadeira ou inventada?
Dee acreditava tratar-se da língua de Adão no Paraíso, com que teria dado nome a todas as coisas.
| Característica | O que se sabe |
|---|---|
| Alfabeto | 21 letras, escritas da direita para a esquerda |
| Nomes das letras | Un (A), Pa (B), Veh (C), Gal (D)… |
| Sintaxe | Segue de perto a do inglês |
| Gramática | Traduções insuficientes para uma morfologia regular |
O linguista Donald Laycock estudou o corpus e concluiu que se trata de uma língua construída muito próxima do inglês. Os textos sem tradução do Liber Loagaeth lembram mais a glossolalia (falar «em línguas») do que um idioma real.
Quem a criou — Kelley, de forma consciente ou em transe, ou os dois — continua em aberto. Não há prova de uma origem sobrenatural.
Casaubon e a primeira publicação (1659)
Durante décadas os papéis de Dee ficaram inéditos. Em 1659, Meric Casaubon publicou parte deles como A True & Faithful Relation…, com a intenção de desacreditar Dee e Kelley, acusando-os de lidar com o Diabo.
A edição tem erros de transcrição conhecidos, mas foi durante muito tempo a principal via de acesso ao material.
A Golden Dawn e depois
Nos anos 1880–1890, a Golden Dawn redescobriu os manuscritos de Dee e integrou-os num sistema com a Cabala, o tarot e os elementos. Grande parte da «magia enoquiana» moderna vem dessa reorganização, não diretamente de Dee.
Aleister Crowley explorou os 30 Aethyrs no México (1900) e na Argélia (1909), com Victor Neuburg. O relato saiu em 1911 como The Vision and the Voice.
➜ Thelema
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➜ Monas Hieroglyphica de John Dee
Fontes
- Enochian magic — Wikipedia
- Enochian — Wikipedia
- John Dee — Wikipedia
- Dr Dee's mirror — British Museum
- Donald C. Laycock, The Complete Enochian Dictionary (1978).