A alquimia foi, durante quase 1500 anos, a tentativa de compreender e transformar a matéria. Os alquimistas procuravam transformar metais comuns em ouro, criar remédios universais e, para muitos, aperfeiçoar a própria alma.
Hoje sabemos que não é possível fazer ouro por meios químicos. Mas a alquimia não foi só ilusão: nos laboratórios dos alquimistas nasceram técnicas e conhecimentos que deram origem à química moderna.
Nesta página resumimos a história documentada, as ideias principais e a forma como a alquimia foi mais tarde reinterpretada pelo ocultismo.
De onde vem a palavra
«Alquimia» vem do árabe al-kīmiyā, que por sua vez deriva provavelmente do grego chēmeia. A palavra chegou-nos pela Península Ibérica, através das traduções de textos árabes feitas na Idade Média.
Uma história em quatro etapas
Egito greco-romano
Os textos alquímicos mais antigos que conhecemos foram escritos em grego, no Egito da época romana. O autor mais importante é Zósimo de Panópolis, que viveu por volta do ano 300 d.C.
Estes textos misturam receitas práticas (tingir metais, imitar pedras preciosas) com ideias filosóficas e religiosas.
O mundo islâmico
Entre os séculos VIII e X, os sábios de língua árabe desenvolveram muito a alquimia. Um grande conjunto de obras circulou sob o nome de Jābir ibn Ḥayyān (conhecido na Europa como Geber).
Deste período vem a teoria de que os metais são formados por enxofre e mercúrio em proporções diferentes. Se a proporção mudasse, o metal poderia, em teoria, transformar-se noutro.
A Europa medieval
A alquimia entrou na Europa latina pelas traduções. Em 1144, Roberto de Chester traduziu do árabe o Livro da composição da alquimia, considerado um dos primeiros textos alquímicos em latim.
Surgiram depois obras muito influentes atribuídas a autores famosos, como a Summa perfectionis, do final do século XIII, publicada sob o nome de Geber.
Renascimento e Revolução Científica
Paracelso (1493–1541) mudou o rumo da alquimia: para ele, o objetivo principal não era o ouro, mas preparar medicamentos.
No século XVII, Robert Boyle publicou The Sceptical Chymist (1661), e até Isaac Newton dedicou anos a experiências alquímicas, deixando muitos manuscritos sobre o tema.
As grandes ideias da alquimia
| Conceito | O que significava |
|---|---|
| Pedra filosofal | Substância capaz de transformar metais em ouro |
| Elixir da longa vida | Remédio que prolongaria a vida |
| Transmutação | Transformação de uma substância noutra |
| Magnum Opus | A «Grande Obra»: o processo completo do alquimista |
| Os quatro elementos | Terra, água, ar e fogo, herdados de Aristóteles |
Os alquimistas descreviam a Grande Obra em fases de cor: o negro (nigredo), o branco (albedo) e o vermelho (rubedo). A ordem e o número de fases variam de autor para autor.
➜ Os quatro elementos na magia
A linguagem secreta dos alquimistas
Os tratados de alquimia são difíceis de ler de propósito. Usam símbolos, animais e imagens para esconder as receitas: o leão verde, o dragão, o casamento do rei e da rainha, a serpente que morde a cauda (o ouroboros).
Cada metal estava ligado a um planeta: o ouro ao Sol, a prata à Lua, o ferro a Marte, o cobre a Vénus, o mercúrio a Mercúrio, o estanho a Júpiter e o chumbo a Saturno.
Alquimia e hermetismo
Muitos alquimistas diziam seguir os ensinamentos de Hermes Trismegisto. O texto mais famoso associado a ele é a Tábua de Esmeralda, com a célebre ideia de que «o que está em baixo é como o que está em cima».
Os estudiosos mostraram que a Tábua de Esmeralda é conhecida primeiro em fontes árabes (séculos VIII–IX) e não é um texto do antigo Egito, como a lenda afirma.
Da alquimia à química
No século XVIII, com Antoine Lavoisier e outros, a química separou-se definitivamente da alquimia. A ideia de transmutar metais foi abandonada.
Curiosamente, no século XX a física nuclear mostrou que é possível transformar um elemento noutro, mas em reatores e aceleradores, a custos enormes. Nada disto confirma os métodos dos alquimistas.
A alquimia no ocultismo moderno
A partir do século XIX, ocultistas passaram a ler a alquimia sobretudo como símbolo de transformação espiritual. No século XX, o psiquiatra Carl Gustav Jung estudou as imagens alquímicas como expressão da psique.
Esta leitura é uma interpretação moderna. Muitos alquimistas antigos trabalhavam de facto com fornos, metais e substâncias reais.
Atenção: as receitas alquímicas antigas usam mercúrio, chumbo, arsénico e outras substâncias tóxicas. Não devem ser reproduzidas.
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Fontes
- Lawrence M. Principe, The Secrets of Alchemy, University of Chicago Press, 2013.
- «Alchemy», Encyclopaedia Britannica — britannica.com
- Science History Institute, «Alchemy» — sciencehistory.org
- The Newton Project (manuscritos de Isaac Newton, incluindo os alquímicos) — newtonproject.ox.ac.uk