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As fadas

De onde vêm as fadas? A palavra «fatum», as Moiras e as Parcas, o verbo «fadar», as fadas de Gil Vicente, as jãs do Algarve e as crenças europeias.

4 min de leitura · Revisto em
Neste artigo
  1. Ficha
  2. A palavra: fatum, fado e fadar
  3. As senhoras do destino na Antiguidade
  4. As fadas em Portugal
  5. Crenças europeias
  6. Dos contos de fadas às asas
  7. Continue a ler
  8. Fontes

Hoje imaginamos as fadas como seres pequenos, com asas e varinha. Essa imagem tem pouco mais de 150 anos. Durante muitos séculos, a fada foi outra coisa: a mulher sobrenatural que decide o destino.

A língua portuguesa guarda essa memória melhor do que quase todas as outras. Fada, fado e fadar vêm da mesma palavra latina.

Esta página percorre a origem da palavra, as figuras antigas do destino, as fadas na literatura e no folclore português, e as crenças europeias mais conhecidas.

Ficha

Campo Informação
Nome e variantes Fada (port.), fata (it.), fée (fr.), fairy (ing.); jãs, xanas (formas regionais)
Tipo Figura do folclore
Origem do nome Latim fatum, «destino», plural fata
Tradições Folclore europeu, romanceiro ibérico, contos de fadas
Atributos Destino, nascimento, dons, fiar, águas e fontes

A palavra: fatum, fado e fadar

Em latim, fatum significava a palavra dita pelos deuses: oráculo, profecia, destino. O plural fata passou a ser entendido como feminino singular e deu «fada» em português, fata em italiano e fée em francês.

Do mesmo fatum vem «fado», que o dicionário define como a força que se julga controlar os acontecimentos, aquilo que tem de acontecer. Só no século XIX a palavra passou a designar também a canção de Lisboa.

E há o verbo «fadar»: predestinar, determinar a sorte de alguém, dotar, vaticinar. Quem é «bem-fadado» nasceu com boa sorte.

As senhoras do destino na Antiguidade

As fadas têm antepassadas claras nas deusas do destino:

Tradição Figuras
Grega As Moiras: Cloto (fia), Láquesis (mede), Átropos (corta o fio)
Romana As Parcas ou Fata: Nona, Décima e Morta
Nórdica As Nornas

Segundo a crença grega, as Moiras apareciam três noites depois do nascimento de uma criança para decidir o curso da sua vida. É exatamente o papel das fadas nos contos: estar junto ao berço e «fadar» o recém-nascido.

As fadas em Portugal

No romanceiro

Um verso do romance popular O caçador diz:

Sete fadas me fadaram
Nos braços de mi'madrinha

(texto popular, recolhido no romanceiro tradicional)

A imagem é a do batismo: as fadas dão o destino à criança ao colo da madrinha. Nos textos antigos distinguem-se as «boas fadas» das «más fadas».

Em Gil Vicente

Gil Vicente pôs fadas em cena no teatro da corte:

  • No Auto das Fadas (c. 1511), a feiticeira Genebra Pereira queixa-se ao rei por viver com medo de ser presa. Em cena aparecem um diabo e três fadas marinhas, que distribuem «sortes» aos membros da corte.
  • Na Comédia de Rubena (1521), duas fadas, Ledera e Minea, profetizam o destino da recém-nascida Cismena.

➜ Bruxaria em Portugal

As jãs e as mouras

Os etnógrafos José Leite de Vasconcelos e Teófilo Braga registaram a crença nas jãs, fadas das águas, que na tradição algarvia fiavam de noite um linho de finura extraordinária.

As fadas portuguesas estão muito próximas das mouras encantadas: mulheres belas, ligadas a fontes, penedos e tesouros, que aparecem na noite de São João. Leite de Vasconcelos admitiu que as mouras tivessem herdado traços de antigas ninfas e espíritos das águas. Uma das hipóteses para a palavra «moura» liga-a mesmo às Moiras gregas, mas é discutida.

➜ As mouras encantadas

Crenças europeias

Proteção e desconfiança

No folclore das ilhas britânicas, as fadas não eram «boazinhas». Eram imprevisíveis e podiam ser perigosas. Para as afastar, usavam-se o ferro, o pão, o trevo de quatro folhas, a roupa vestida do avesso e os sinos das igrejas.

Sobre a sua origem, a tradição dava várias explicações: anjos caídos que ficaram entre o céu e o inferno, almas dos mortos, espíritos da natureza ou antigos deuses pagãos.

As crianças trocadas

Uma crença grave era a do changeling: a criança roubada pelas fadas e substituída por outra. Muitos estudiosos pensam que servia para explicar doenças ou deficiências de crianças.

Teve consequências reais. Na Irlanda, em 1895, Bridget Cleary foi morta pelo marido e por familiares, convencidos de que ela tinha sido trocada por uma fada.

Registos e fraudes

  • Em 1691, o pastor escocês Robert Kirk escreveu The Secret Commonwealth of Elves, Fauns and Fairies.
  • Em 1917, duas raparigas inglesas tiraram as fotografias das fadas de Cottingley, publicadas em 1920 e defendidas por Arthur Conan Doyle. Décadas depois, as autoras admitiram que as fadas eram recortes de papel.

Dos contos de fadas às asas

A expressão «contos de fadas» vem do francês contes de fées, popularizado por Madame d'Aulnoy no fim do século XVII. Os Irmãos Grimm, pelo contrário, trocaram muitas vezes as fadas por feiticeiras.

A fada pequena e alada é sobretudo criação da arte e da literatura vitoriana do século XIX. É a imagem que chegou aos livros infantis e ao cinema.

Continue a ler

➜ Anjos, demónios e entidades

➜ As mouras encantadas

➜ O trasgo e os seres domésticos do folclore

➜ Dicionário do oculto: letra F

Fontes

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