Antes da luz elétrica, os barulhos da noite tinham dono. Se a loiça aparecia partida, se um móvel mudava de sítio ou se alguém acordava com um peso no peito, a culpa era do trasgo, do fradinho da mão furada ou do tardo.
São os duendes domésticos do folclore do norte de Portugal e da Galiza. Pequenos, travessos, às vezes úteis, às vezes insuportáveis.
Nesta página reunimos o que a tradição conta sobre eles. São figuras de lenda, não fenómenos a investigar.
Ficha
| Campo | Informação |
|---|---|
| Nomes | Trasgo, trasno (Galiza), trasgu (Astúrias), fradinho da mão furada, diabinho da mão furada, tardo |
| Tipo | Duende doméstico do folclore |
| Regiões | Norte de Portugal (sobretudo Trás-os-Montes), Galiza, Astúrias, Cantábria, Leão |
| Aspeto | Pequeno, barrete ou roupa vermelha, mão furada, por vezes coxo, com cornos ou cauda |
| Comportamento | Barulhos, partidas, objetos mudados de sítio, pesadelos |
| Parentes | Duendes castelhanos, follets catalães, elfos e brownies do norte da Europa |
O trasgo
O trasgo é um homenzinho que vive dentro de casa. As descrições variam de terra para terra. A mais conhecida, das Astúrias, fala de um ser pequeno e escuro, vestido de vermelho, com um barrete vermelho pontiagudo, coxo de uma perna e com um buraco na mão esquerda.
À noite faz barulho, muda as coisas de sítio, entorna a água, parte a loiça, assusta o gado. Se o tratam bem, pode até fazer tarefas da casa. Algumas versões dizem que os trasgos seriam almas de crianças que morreram sem batismo.
O nome é antigo e aparece na literatura espanhola do Século de Ouro, no Lazarillo de Tormes e em obras de Cervantes e Lope de Vega. A origem da palavra não é segura.
Como se livra a casa de um trasgo
O trasgo é vaidoso e gosta de mostrar que é capaz. A tradição aproveita isso: pede-se-lhe uma tarefa impossível.
- Apanhar do chão grãos de milho, milho-miúdo ou linhaça — caem-lhe pelo buraco da mão.
- Trazer água do mar num cesto.
- Branquear uma ovelha negra.
Envergonhado por falhar, vai-se embora e não volta. Noutras versões, deixa-se-lhe um prato de feijões ou grãos para contar: como não consegue contar além de cem, fica ocupado a noite inteira.
A família que mudou de casa
Há um conto muito repetido. Uma família, farta do trasgo, decide mudar de casa às escondidas. A meio do caminho, alguém pergunta se ficou alguma coisa esquecida. Responde o trasgo, que vinha atrás: ficou a candeia, mas ele trá-la.
Na versão galega, o trasno diz que, já que todos vão de casa mudada, também ele vai com o seu barrete encarnado.
A moral é clara: há coisas que não ficam para trás só porque se muda de sítio.
O fradinho da mão furada
Em Portugal, o duende doméstico mais famoso é o fradinho da mão furada, também chamado diabinho da mão furada. Usa um barrete encarnado e entra nos quartos pelo buraco da fechadura.
Tanto faz favores como prega partidas. A tradição diz que se sentava em cima de quem dormia, causando grandes pesadelos. Noutras histórias aparece como generoso, capaz de fazer crescer os bens da casa ou de ajudar a achar tesouros.
A origem do nome é discutida. A explicação óbvia é a da mão furada, como a do trasgo. Mas há quem proponha que venha de topónimos como «Mão Furada», que seriam deformações de «mamoa furada» — um túmulo pré-histórico com um buraco aberto por caçadores de tesouros.
➜ As mouras encantadas e os tesouros
O tardo e o pesadelo
O tardo é outro duende português e galego, também chamado pesadelo. A tradição recolhida por Leite de Vasconcelos diz que incomoda quem dorme, que acorda com um grande pesadelo.
Aparece também nos caminhos e encruzilhadas, onde tenta desorientar quem passa, e pode tomar forma de cão, gato ou cabra.
O que estes seres explicam
Hoje sabemos que a sensação de ter um peso no peito ao acordar, sem conseguir mexer-se, tem nome médico: paralisia do sono. É comum e, em geral, benigna. Se acontece muitas vezes ou causa angústia, fale com o seu médico.
Os duendes da casa são uma forma antiga de dar sentido aos barulhos da noite, aos objetos perdidos e aos maus sonhos. Valem como património e como boas histórias.
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➜ O diabo na tradição portuguesa
Fontes
- «Trasgo», Wikipédia — pt.wikipedia.org
- «Trasgu», Wikipedia — en.wikipedia.org
- «Fradinho da mão furada», Wikipédia — pt.wikipedia.org
- «Tardo», Wikipédia — pt.wikipedia.org
- José Leite de Vasconcelos, Tradições populares de Portugal, 1882