Astaroth é um dos grandes nomes dos grimórios: grão-duque no Grande Grimório, um dos três poderes supremos no Grimorium Verum, duque na Goetia.
O mais surpreendente é a origem. Por trás deste demónio masculino está Astarte, uma das deusas mais importantes do antigo Médio Oriente. A história de Astaroth é a história de como uma deusa foi transformada em demónio — e mudou de sexo pelo caminho.
Ficha
| Campo | Informação |
|---|---|
| Nome e variantes | Astaroth, Astarot; hebraico ʿAštōreṯ; fenício ʿAštart; grego Astartē |
| Tipo | Deusa cananeia e fenícia; depois demónio da tradição cristã |
| Primeira fonte | Textos de Ugarit e fenícios; na Bíblia, 1 Reis 11:5 |
| Tradições | Religião cananeia e fenícia, Bíblia, demonologia, grimórios |
| Atributos | Da deusa: leão, cavalo, carro de guerra. Do demónio: dragão, víbora |
A deusa Astarte
Astarte (ʿAštart) foi venerada desde a Idade do Bronze em cidades como Ugarit, Emar e Mari, e depois nas cidades fenícias de Sídon, Tiro e Biblos. O seu culto chegou ao Egito, a Chipre e às colónias do Mediterrâneo.
Era deusa da guerra, do poder real, da beleza e da sexualidade; em Ugarit, também da caça. O seu símbolo principal era o leão. Os estudos atuais notam que não era propriamente uma «deusa da fertilidade», ao contrário do que se escreveu durante muito tempo.
Os gregos identificaram-na com Afrodite; na Mesopotâmia corresponde a Ishtar, a antiga Inanna suméria.
Na Bíblia: Astarote
A Bíblia hebraica chama-lhe ʿAštōreṯ. Segundo 1 Reis 11:5, o rei Salomão seguiu «Astarte, deusa dos sidónios»; mais tarde, o rei Josias destruiu os lugares do seu culto (2 Reis 23:13).
A maioria dos estudiosos pensa que a forma hebraica é deliberadamente deformada: os escribas terão posto no nome as vogais da palavra bōšet, «vergonha». A forma plural, ʿAštārōt, designa as imagens ou as várias formas da deusa — e é dela que vem «Astaroth».
De deusa a demónio
A tradição cristã leu os deuses estrangeiros como demónios disfarçados, apoiando-se em São Paulo (1 Coríntios 10:20: o que os pagãos sacrificam, sacrificam-no aos demónios).
No início do séc. XI, o monge inglês Ælfric de Eynsham já apresentava Astaroth como demónio. A deusa perdeu o sexo e a identidade: tornou-se um duque do inferno.
Nos grimórios e na demonologia
Pseudomonarchia Daemonum e Goetia
Johann Weyer, na Pseudomonarchia Daemonum (1577), descreve Astaroth como um grande duque, com aspeto de anjo feio montado num dragão infernal, com uma víbora na mão direita. Diria a verdade sobre o passado, o presente, o futuro e as coisas secretas, e comandaria 40 legiões.
Weyer acrescenta um pormenor famoso: o exorcista devia manter-se afastado por causa do seu hálito fétido. A Goetia (séc. XVII) repete a descrição: é o espírito n.º 29, que ensinaria também as ciências liberais.
Lembre-se que Weyer compilou esta lista para mostrar o absurdo da magia demoníaca, não para a promover.
➜ A Goetia
Grimorium Verum e Grande Grimório
No Grimorium Verum, Astaroth é um dos três poderes supremos, com Lúcifer e Belzebu, e governa a América. Aparece «em figura humana, de cor negra e branca».
No Grande Grimório, tem o título de grão-duque, abaixo de Lúcifer e Belzebu.
A atribuição da América, continente desconhecido na Antiguidade, é por si só um sinal de que estas hierarquias são modernas.
Loudun e Michaëlis
O exorcista Sébastien Michaëlis incluiu Astaroth nas suas listas de demónios (1612). O nome aparece também no suposto pacto de Urbain Grandier, o padre queimado em Loudun em 1634: o documento, escrito em latim e ao contrário, trazia as «assinaturas» de Satanás, Belzebu, Lúcifer, Leviatã, Astaroth e Elimi. Era uma prova fabricada no processo.
➜ Asmodeu e as possessões de Loudun
Na cultura
A imagem mais reproduzida é a do Dicionário Infernal de Collin de Plancy (edição de 1863, ilustrações de Louis Le Breton): um homem nu com garras, asas e coroa, uma serpente na mão, montado numa criatura alada.
Hoje Astaroth aparece em jogos, banda desenhada e música. Quase sempre se esquece que, antes de ser demónio, foi uma deusa venerada durante mais de mil anos.
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