Baal é, na Bíblia, o grande rival do Deus de Israel. Para os povos de Canaã era outra coisa: o deus da tempestade e da chuva, de quem dependiam as colheitas.
Com o cristianismo, o seu nome passou para a demonologia, e os grimórios acabaram por fazer dele Bael, o primeiro rei da Goetia. Esta página segue as três fases: o deus, o inimigo bíblico e o demónio dos livros de magia.
Ficha
| Campo | Informação |
|---|---|
| Nome e variantes | Baal; ugarítico e hebraico Baʿal; na Goetia, Bael; em Weyer, Baell |
| Significado | «Senhor», «dono» (também «marido») |
| Tipo | Divindade cananeia; depois demónio da tradição cristã |
| Primeira fonte | Textos de Ugarit (c. 1400–1200 a.C.); Bíblia hebraica |
| Tradições | Religião cananeia e fenícia, Bíblia, Cartago, demonologia, grimórios |
| Atributos | Raio, maça, touro, capacete com chifres; «cavaleiro das nuvens» |
Um título antes de ser um nome
Baʿal é uma palavra comum das línguas semíticas do noroeste: quer dizer «senhor» ou «dono». Ainda hoje, em hebraico e em árabe, pode significar «marido».
Por isso havia muitos «Baais»: o senhor de uma cidade, de um monte, de um templo. Com o tempo, o título ficou associado sobretudo ao deus da tempestade, Hadad, que os gregos identificaram com Zeus.
O deus de Ugarit
As melhores fontes vêm de Ugarit, cidade da costa da atual Síria, cujas tábuas de argila foram redescobertas no séc. XX. O chamado Ciclo de Baal, composto entre c. 1400 e 1200 a.C., conta as suas lutas:
- contra Yam, o Mar;
- contra Mot, a Morte, que o chega a engolir;
- pela construção do seu palácio.
Baal é o «cavaleiro das nuvens», senhor da chuva, do raio e do vento. Numa terra que vivia da chuva, a sua morte e regresso explicavam a seca e a fertilidade. Curiosamente, o título «cavaleiro das nuvens» foi mais tarde aplicado a Javé em textos bíblicos.
Baal na Bíblia
O nome aparece cerca de 90 vezes na Bíblia hebraica, quase sempre como deus rival. O episódio mais célebre é o do monte Carmelo (1 Reis 18), no séc. IX a.C.
A rainha Jezabel, princesa fenícia casada com o rei Acab, promovia o culto de Baal em Samaria. Depois de uma longa seca, o profeta Elias desafia os 450 profetas de Baal: cada lado prepara um sacrifício e pede fogo ao seu deus.
Os profetas de Baal invocam-no durante horas, sem resposta; Elias troça deles, sugerindo que o deus talvez esteja a dormir. Quando Elias reza, cai fogo do céu. O povo aclama o Deus de Israel e a chuva regressa.
É um relato religioso, escrito do ponto de vista dos adoradores de Javé. Não é um registo neutro do que acreditavam os seguidores de Baal.
Outro «Baal» bíblico é Baal-Zebub, deus de Ecrom, que deu origem a Belzebu.
Baal Hammon em Cartago
Em Cartago, colónia fenícia no Norte de África, o deus principal era Baal Hammon, associado ao carneiro (e não ao touro). Autores gregos e romanos acusaram os cartagineses de lhe sacrificarem crianças — um tema que os historiadores e arqueólogos continuam a discutir.
De deus a demónio: Bael
Na tradição cristã, os deuses pagãos passaram a ser vistos como demónios, e Baal não foi exceção.
Na Pseudomonarchia Daemonum
Johann Weyer (1577) abre a sua lista com Baell, «o primeiro rei», com poder no Oriente. Descreve-o com três cabeças — de sapo, de homem e de gato — e voz rouca. Diz-se que tornaria as pessoas invisíveis e sábias, e que comandaria 66 legiões.
Na Goetia
A Goetia (séc. XVII) põe Bael como espírito n.º 1: rei que governa no Oriente, que aparece «ora como gato, ora como sapo, ora como homem», e que tornaria as pessoas invisíveis.
No Grande Grimório
No Grande Grimório, Baël é um dos três espíritos ao serviço de Lucífugo Rofocale.
Estas descrições pertencem à literatura dos grimórios. Descrevemos, não ensinamos a invocar. A ligação entre o deus de Ugarit e o Bael da Goetia é apenas o nome: nada da mitologia cananeia passou para o grimório.
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