Asmodeu é um dos poucos demónios com nome próprio que aparecem num livro da Bíblia católica: o Livro de Tobias. Ali mata sete maridos de uma jovem e é afastado pelo arcanjo Rafael.
A partir daí teve uma carreira longa e variada: rei dos demónios astuto e quase simpático no Talmude, espírito submetido por Salomão, demónio da luxúria nos tratados da Inquisição, rei na Goetia e principal acusado nas possessões de Loudun.
Ficha
| Campo | Informação |
|---|---|
| Nome e variantes | Asmodeu; grego Asmodaios; hebraico Ashmedai; latim Asmodaeus; na Goetia, Asmoday |
| Tipo | Demónio (tradição judaica e cristã) |
| Primeira fonte | Livro de Tobias (séc. III–II a.C.) |
| Tradições | Bíblia, Talmude, Testamento de Salomão, demonologia, grimórios |
| Atributos | Luxúria, ira; na Goetia, três cabeças (touro, homem, carneiro) |
A origem do nome
A explicação mais aceite liga o nome ao persa antigo (avéstico) aēšma-daēva, «demónio da ira». Aēšma é um demónio da fúria no zoroastrismo.
A forma composta não está atestada nos textos que sobreviveram, mas a hipótese é antiga e continua a ser a principal. Faz sentido: o Livro de Tobias passa-se entre os judeus exilados na Assíria e na Média, em contacto com o mundo persa.
No Livro de Tobias
O Livro de Tobias (ou Tobite) faz parte da Bíblia católica e ortodoxa; os judeus e os protestantes consideram-no apócrifo.
Conta a história de Sara, uma jovem da Média. Casou sete vezes, e o demónio Asmodeu matou cada marido na noite de núpcias (Tobias 3:8).
O jovem Tobias viaja acompanhado por um desconhecido que é, na verdade, o arcanjo Rafael. Pelo caminho apanham um peixe. Rafael manda guardar o coração e o fígado; na noite do casamento com Sara, Tobias queima-os sobre brasas. O fumo põe o demónio em fuga até ao Egito, onde Rafael o prende (Tobias 8:2-3).
É um relato bíblico, não um ritual: o texto atribui a vitória a Deus e à oração do casal, que rezam juntos nessa noite.
No Talmude: Ashmedai, rei dos demónios
No Talmude babilónico (tratado Gittin, 68a-b), Ashmedai é o rei dos demónios e aparece mais astuto do que cruel.
Segundo a lenda, Salomão captura-o para o obrigar a ajudar na construção do Templo. Mais tarde, Ashmedai engana o rei, atira-o para muito longe de Jerusalém e toma o seu lugar no trono durante algum tempo, até Salomão recuperar o reino.
É uma lenda rabínica com intenção moral, não um relato histórico.
➜ O rei Salomão na tradição mágica
No Testamento de Salomão
No Testamento de Salomão, texto grego de datação discutida, Asmodeu é interrogado pelo rei. Diz ter nascido de um anjo e de uma mulher humana, e que conspira contra os recém-casados para os separar.
Confessa que o frustra o arcanjo Rafael, e também o fumo do fígado e fel de um peixe — um eco direto do Livro de Tobias. Salomão condena-o a fazer barro para as obras do Templo.
Na demonologia e nos grimórios
- O Malleus Maleficarum (1486) e mais tarde Peter Binsfeld (1589) associaram Asmodeu à luxúria;
- Na Pseudomonarchia Daemonum de Weyer (1577) e na Goetia, Asmoday é um grande rei com três cabeças (touro, homem e carneiro), cauda de serpente, montado num dragão. Diz-se que ensinaria aritmética, geometria e astronomia e que comandaria 72 legiões. É o espírito n.º 32 da Goetia.
Descrevemos o que os textos dizem; não ensinamos a invocar.
➜ A Goetia
As possessões de Loudun (1632–1637)
Em 1632, as freiras ursulinas de Loudun, em França, começaram a apresentar sinais de «possessão». A prioresa, Jeanne des Anges, e as outras religiosas acusaram o pároco Urbain Grandier de lhes ter enviado demónios — entre eles, sobretudo, Asmodeu.
Grandier era um padre influente e inimigo do cardeal Richelieu. Foi torturado, nunca confessou e morreu queimado a 18 de agosto de 1634. Como prova apresentou-se um «pacto» assinado por vários demónios. Os historiadores veem hoje o caso como uma perseguição com motivos políticos, alimentada por exorcismos públicos.
O caso inspirou o livro The Devils of Loudun (1952), de Aldous Huxley, e o filme The Devils (1971), de Ken Russell.
Na literatura
No romance O Diabo Coxo (Le Diable boiteux, 1707), de Lesage, Asmodeu é um demónio espirituoso que levanta os telhados de Madrid para mostrar a vida secreta dos habitantes.
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