O Book of Oberon («Livro de Oberon») é um manuscrito de magia escrito em Inglaterra entre cerca de 1577 e 1583, no reinado de Isabel I. Está guardado na Folger Shakespeare Library, em Washington, com a cota V.b.26.
O nome não é antigo: foi dado pelos editores modernos, por causa de Oberion, o rei das fadas que aparece no texto. No catálogo da biblioteca, o manuscrito chama-se simplesmente «livro de magia, com instruções para invocar espíritos».
O seu valor está em mostrar como trabalhava um mágico prático da época de Shakespeare e de John Dee — não em teoria, mas no dia a dia.
Ficha do grimório
| Campo | Informação |
|---|---|
| Título | Book of Oberon (título moderno) |
| Nome original | Sem título; catalogado como Book of magic, with instructions for invoking spirits |
| Período | c. 1577–1583, com acrescentos posteriores |
| Origem | Inglaterra isabelina |
| Manuscrito | Washington, Folger Shakespeare Library, MS V.b.26 |
| Autoria | Anónima; várias mãos ao longo do tempo |
| Idiomas | Inglês e latim |
| Tipo | Miscelânea mágica de uso prático |
Origem real
Não há lenda de autoria: o manuscrito é uma compilação anónima, feita por um ou vários praticantes que foram copiando, ao longo dos anos, textos que lhes interessavam.
Ficou praticamente desconhecido até ser estudado e transcrito por Daniel Harms, James R. Clark e Joseph H. Peterson. A edição saiu em 2015, pela Llewellyn, com o título The Book of Oberon: A Sourcebook of Elizabethan Magic (585 páginas, com ilustrações).
O que contém
Os editores descrevem-no como uma miscelânea — um caderno de trabalho e não um tratado. O conteúdo inclui, em resumo:
- Orações em inglês e latim, salmos e o início do Evangelho de São João;
- Uma cópia do «Office of Spirits», a lista de espíritos com os seus ofícios, aparentada com o Liber Officiorum Spirituum;
- Espíritos ligados às fadas, entre eles Oberion e a sua companheira Mycob;
- Material tirado de outros livros: o Arbatel, o Sepher Raziel, uma versão da Chave de Salomão e uma das cópias mais antigas conhecidas do Enchiridion atribuído ao papa Leão III;
- Desenhos a vermelho e preto de espíritos, círculos, selos e talismãs;
- Receitas práticas para problemas do quotidiano: dores de dentes, hemorragias, proteção contra roubos, procura de tesouros escondidos.
As conjurações não as descrevemos. O interesse aqui é histórico.
➜ Arbatel
Oberon: o rei das fadas no grimório
No «Office of Spirits», Oberion surge como um rei que ensinaria o conhecimento das plantas e das pedras, tornaria os homens invisíveis e revelaria tesouros escondidos.
Oberon era já uma figura literária conhecida — veio do romance medieval francês Huon de Bordeaux — e Shakespeare usou-o pouco depois em Sonho de uma Noite de Verão (c. 1595). O manuscrito mostra que, na mesma época, o rei das fadas também era nome de espírito nos livros de magia.
Esta mistura de fadas e demónios é uma marca da magia popular inglesa: os cunning folk (curandeiros e adivinhos de aldeia) moviam-se entre religião, folclore e grimórios.
Importância para a magia inglesa
O Book of Oberon é contemporâneo de John Dee, que começou as suas sessões de comunicação angélica com Edward Kelley em 1582. Não há qualquer ligação documentada entre Dee e este manuscrito.
O contraste é útil: Dee representa a magia culta, matemática e angélica; o Book of Oberon mostra a magia prática que circulava ao mesmo tempo, feita de orações, espíritos, fadas e receitas para pequenos males.
É também um testemunho valioso de como materiais católicos (orações latinas, o Enchiridion) continuavam a circular na Inglaterra já protestante.
Um paralelo português
A procura de tesouros escondidos com ajuda de espíritos não era exclusiva de Inglaterra. Na Península Ibérica, a mesma obsessão alimentou as lendas das mouras encantadas e os livros de tesouros como o Ciprianillo galego.
➜ Tesouros encantados nas lendas portuguesas
Onde ler
A transcrição do manuscrito Folger V.b.26, feita por Joseph H. Peterson e Dan Harms, está disponível gratuitamente no site Esoteric Archives. A edição impressa de 2015 está protegida por direitos de autor.
Continue a ler
➜ Goécia
Fontes
- Daniel Harms, James R. Clark e Joseph H. Peterson, The Book of Oberon: A Sourcebook of Elizabethan Magic, Llewellyn, 2015 — llewellyn.com
- J. H. Peterson e D. Harms (transcr.), Book of magic, with instructions for invoking spirits, etc. (ca. 1577–1583), Folger MS V.b.26 — esotericarchives.com
- «Liber Officiorum Spirituum», Wikipedia — en.wikipedia.org
- Recensão de The Book of Oberon, Spiral Nature — spiralnature.com