O sabugueiro é um arbusto comum nas margens de caminhos, ribeiros e quintais portugueses. Em maio e junho cobre-se de flores brancas perfumadas e, no fim do verão, de cachos de bagas quase pretas.
Poucas plantas europeias têm tanto folclore à sua volta. Mas o sabugueiro tem também uma face menos conhecida: a maior parte da planta é tóxica quando crua. Nesta ficha separamos o que é facto botânico, o que é lenda e o que é tradição.
Ficha
| Campo | Informação |
|---|---|
| Nome comum | Sabugueiro |
| Nome científico | Sambucus nigra |
| Família | Adoxáceas |
| Outros nomes | Sabugueiro-negro; na Madeira existe uma espécie própria, o sabugueiro-da-madeira (Sambucus lanceolata) |
| Partes usadas na tradição | Flores; bagas maduras e cozinhadas; ramos (fogueiras) |
| Toxicidade | Folhas, casca, raízes, caules, sementes e bagas cruas são tóxicos |
O nome
O nome científico Sambucus é antigo. Segundo a explicação mais aceite, liga-se ao grego sambýkē, um instrumento de sopro: os ramos têm uma medula mole que se tira com facilidade, e com eles faziam-se pequenas flautas e apitos. O nome português «sabugueiro» vem da mesma raiz latina.
A planta deu também nome a lugares. Em Portugal há duas freguesias chamadas Sabugueiro: uma no concelho de Seia, na Serra da Estrela, e outra no de Arraiolos.
Folclore europeu
O sabugueiro é uma árvore «de respeito» no folclore do norte e centro da Europa. Estas crenças são tradição popular, registada por folcloristas, e não factos.
A «mãe do sabugueiro»
Em tradições do norte da Europa contava-se que o arbusto era habitado por um espírito, a «mãe do sabugueiro» (em inglês, Elder Mother). Quem cortasse a árvore sem lhe pedir licença, muitas vezes recitando uma rima, arriscava-se à vingança desse espírito.
A árvore da casa
Na Alemanha, o sabugueiro (Holunder ou Holler) era plantado junto às casas e visto como árvore protetora da família. Mutilar ou arrancar o arbusto trazia, segundo a crença, desgraça ou morte. Dizia-se até que se devia tirar o chapéu ao passar por ele.
É comum ler-se que Holunder vem do nome de Frau Holle, figura do folclore alemão. Os dicionários etimológicos, porém, derivam a palavra de uma raiz germânica antiga (holuntar), sem essa ligação.
Bruxas e Judas
As crenças contradizem-se, como é habitual no folclore. Em algumas regiões o sabugueiro protegia contra as bruxas; noutras, dizia-se que as bruxas se juntavam debaixo dele, sobretudo quando estava carregado de fruto.
Uma lenda cristã medieval conta que Judas se enforcou num sabugueiro e que por isso as folhas têm um cheiro desagradável. É uma lenda: os Evangelhos não dizem de que árvore se tratava.
Entre os ciganos europeus existe a crença de que queimar lenha de sabugueiro dá azar.
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Na cultura moderna
A fama mágica da árvore chegou à literatura juvenil: no último livro de Harry Potter, uma varinha de sabugueiro tem papel central na história.
Em Portugal e na Galiza
Em Portugal o sabugueiro entra nas festas de São João. Há descrições de fogueiras acesas com rosmaninho, funcho, alecrim e sabugueiro, que os jovens saltam na noite de 23 para 24 de junho.
Na Galiza, as flores de sabugueiro estão entre as ervas colhidas na véspera de São João. Deixam-se em água ao relento durante a noite e, de manhã, lava-se a cara com essa água, segundo a tradição.
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Uso tradicional e na cozinha
As flores são o uso mais conhecido. No norte da Europa fazem-se xaropes e refrescos de flor de sabugueiro, e as umbelas são por vezes fritas em polme.
As bagas maduras usam-se em compotas, xaropes e vinhos, sempre depois de cozinhadas.
Na medicina tradicional europeia, a infusão de flor de sabugueiro usava-se nas constipações. A Agência Europeia do Medicamento (EMA) reconhece esse uso apenas como «uso tradicional», sem ensaios clínicos que o comprovem, e só para adultos e jovens com mais de 12 anos.
Na tradição esotérica moderna, o sabugueiro aparece associado à proteção da casa e aos seres do folclore. Isto é crença e simbolismo, sem efeito demonstrado.
Precauções
- Partes tóxicas: com exceção das flores e das bagas maduras, todas as partes da planta são tóxicas (folhas, casca, caules, raízes e sementes). Contêm sambunigrina, um glicosídeo que pode libertar cianeto.
- Bagas cruas: são ligeiramente tóxicas mesmo maduras. Comidas cruas ou verdes, ou preparadas com folhas e caules, podem causar náuseas, vómitos e diarreia forte. Só se comem cozinhadas.
- Confusões perigosas: há outras espécies de Sambucus e outras plantas de bagas escuras parecidas. Se não tem certeza absoluta da identificação, não colha.
- Crianças: não deixe as crianças fazer apitos com os ramos nem comer bagas do arbusto.
- Animais: folhas e casca são perigosas para animais domésticos e de quinta.
- Gravidez, amamentação e medicação: não use preparações medicinais sem falar com o médico ou farmacêutico.
- Fogueiras: se queimar ramos, faça-o só em local autorizado, longe de vegetação seca, com água por perto e sem nunca deixar o fogo sem vigilância.
O uso espiritual ou tradicional do sabugueiro não substitui tratamento médico. Em caso de sintomas que persistem, consulte um médico.
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Fontes
- «Sambucus nigra» e «Sambucus», Wikipedia — en.wikipedia.org
- «Schwarzer Holunder» (etimologia, folclore, toxicidade), Wikipedia alemã — de.wikipedia.org
- «Sambuci flos», European Medicines Agency (HMPC) — ema.europa.eu
- «Midsummer» (tradições da Galiza), Wikipedia — en.wikipedia.org
- «Noite de São João», Portugal Num Mapa — portugalnummapa.com