«Abrir o terceiro olho» é uma das expressões mais procuradas da espiritualidade moderna. Promete-se intuição, visões e até clarividência.
Antes de qualquer prática, vale a pena saber de onde vem a ideia: uma mistura de tradição hindu, filosofia do século XVII e teosofia do século XIX.
No fim encontra uma prática de meditação simples e segura. Nenhuma prática garante visões ou poderes: o que se pode esperar, de forma realista, é mais calma e atenção.
O terceiro olho no hinduísmo
Na tradição hindu, o deus Shiva é representado com um terceiro olho na testa. Nos mitos, é um olho de fogo e de conhecimento.
No sistema dos chakras, o ponto entre as sobrancelhas é o ājñā chakra. A palavra quer dizer comando ou autoridade. É descrito como um lótus de duas pétalas, associado à sílaba Om.
É também nesse ponto que muitos hindus colocam o tilaka ou o bindi, como sinal de devoção.
➜ Chakras
A glândula pineal: os factos
A glândula pineal é uma pequena glândula no centro do cérebro, com a forma de uma pinha (daí o nome).
O que se sabe com segurança:
- Produz melatonina, a hormona que ajuda a regular o sono e o ritmo dia-noite.
- A escuridão estimula a produção de melatonina; a luz trava-a.
- Com a idade, é comum calcificar. Isto aparece em muitos exames e, na maioria dos casos, não tem importância clínica conhecida.
Descartes e a «sede da alma»
O filósofo René Descartes, em As Paixões da Alma (1649), chamou à pineal a «sede principal da alma». Escolheu-a por ser uma estrutura única, não dividida em duas metades como quase todo o cérebro.
Era uma hipótese filosófica. A anatomia posterior mostrou que a pineal não tem esse papel.
Como a pineal se tornou o «terceiro olho»
No fim do século XIX, Helena Blavatsky, fundadora da teosofia, identificou a glândula pineal com o terceiro olho hindu. É daí que vem a associação, hoje muito popular.
Em 1956, o livro The Third Eye, de um suposto lama tibetano, «Lobsang Rampa», contava uma operação para abrir o terceiro olho. Em 1958 descobriu-se que o autor era Cyril Hoskin, um inglês de Devon que nunca tinha estado no Tibete.
➜ Teosofia
Mitos a evitar
- «Descalcificar a pineal» com dietas, jejuns ou produtos: não há evidência de que isto traga capacidades espirituais.
- Olhar para o Sol: pode causar lesões graves e permanentes nos olhos. Nunca o faça.
- Substâncias psicoativas para «abrir» o terceiro olho: riscos reais para a saúde física e mental.
Uma prática segura
Na tradição do yoga, a forma clássica de trabalhar o ājñā é a meditação com atenção entre as sobrancelhas. Uma versão simples:
- Sente-se confortável, costas direitas, olhos fechados.
- Respire devagar durante um minuto.
- Leve a atenção, sem esforço, ao ponto entre as sobrancelhas. Não force os olhos para cima.
- Se quiser, repita mentalmente «Om» ao expirar.
- Quando a mente se distrair, volte com calma ao ponto.
- Comece com 5 minutos. Termine abrindo os olhos devagar.
Se sentir dor de cabeça, tensão ou ansiedade, pare. Relaxe a testa e os olhos.
Importante: se tem historial de psicose, perturbação bipolar, dissociação ou trauma, fale com o seu médico antes de práticas intensas de meditação ou visualização.
O que esperar de forma realista
Muitos praticantes descrevem mais calma, concentração e atenção aos próprios pensamentos. Alguns chamam a isto «intuição mais desperta».
Não há evidência científica de clarividência. Se alguém lhe vender um curso que «garante» abrir o terceiro olho, desconfie.
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Fontes
- «Pineal gland», Wikipedia — en.wikipedia.org
- «Ajna», Wikipedia — en.wikipedia.org
- René Descartes, Les Passions de l'âme, 1649.
- «Lobsang Rampa», Wikipedia — en.wikipedia.org