O olho de Hórus 𓂀 é um olho humano estilizado, com a sobrancelha, o traço de maquilhagem que se prolonga para o lado e, por baixo, duas marcas que lembram as penas da face de um falcão.
Os egípcios chamavam-lhe wedjat (ou udjat), que quer dizer «o que está inteiro» ou «o olho são». Foi um dos amuletos mais populares do Egito, durante mais de dois mil anos.
O mito
O símbolo nasce de um mito. O deus Hórus, com cabeça de falcão, lutou contra o seu tio Seth, assassino do pai, Osíris. Na luta, Seth feriu ou arrancou o olho de Hórus.
O olho foi depois curado: em algumas versões por Thot, deus da sabedoria; noutras por Hathor, que o ungiu com leite de gazela. Hórus ofereceu o olho restaurado a Osíris, dando-lhe nova vida no Além.
O olho de Hórus passou assim a significar cura, integridade e proteção. Com o tempo, foi também associado à Lua (que «se desfaz» e se refaz todos os meses).
História documentada
- Império Antigo (final, c. 2300–2200 a.C.): surgem os primeiros amuletos wedjat.
- Primeiro Período Intermédio e Império Médio: pares de olhos pintados nos sarcófagos, para que o morto «visse» para fora.
- Até à época romana: continua a ser um dos amuletos mais comuns, em faiança, ouro, cornalina ou lápis-lazúli.
- Pintado na proa dos barcos e invocado em fórmulas de cura contra doenças dos olhos.
Olho de Hórus e olho de Rá
São conceitos próximos mas diferentes. O olho de Rá é uma força do deus-Sol, por vezes perigosa, associada a deusas como Sekhmet. Em alguns textos os dois misturam-se. O egiptólogo Richard Wilkinson sugere que os dois olhos se foram distinguindo: o de Hórus lunar, o de Rá solar.
A «teoria das frações»
Circula muito a ideia de que cada parte do olho representava uma fração (1/2, 1/4, 1/8… até 1/64) usada para medir cereais. A hipótese foi proposta por Georg Möller em 1911 e aceite durante décadas.
Em 2002, o historiador Jim Ritter mostrou que os sinais das frações antigas não derivam das partes do olho. Hoje a teoria é considerada, no mínimo, muito duvidosa.
Não confundir
- Olho turco (nazar): o amuleto azul contra o mau-olhado, da tradição mediterrânica e turca. Tem outra origem.
- Olho da Providência: o olho dentro de um triângulo, símbolo cristão e maçónico.
- «Terceiro olho»: conceito de tradições indianas e esotéricas modernas.
➜ O triângulo e o olho da Providência
Usos atuais
O olho de Hórus é hoje usado em joalharia, tatuagens e decoração. Na tradição esotérica moderna é vendido como amuleto contra o mau-olhado e a inveja, uma função próxima da original egípcia de proteção.
É uma crença, com uma longa história. Nenhum amuleto garante proteção, e em problemas de saúde dos olhos o caminho é sempre o médico.
Continue a ler
➜ Ankh, o sinal egípcio da vida
Fontes
- «Eye of Horus», Wikipedia (com bibliografia) — en.wikipedia.org
- Jim Ritter, «Closing the Eye of Horus: The Rise and Fall of 'Horus-eye Fractions'», em Under One Sky, Ugarit-Verlag, 2002
- Richard H. Wilkinson, The Complete Gods and Goddesses of Ancient Egypt, Thames & Hudson, 2003
- Carol Andrews, Amulets of Ancient Egypt, British Museum Press, 1994