Aradia, or the Gospel of the Witches — «Aradia, o Evangelho das Bruxas» — foi publicado em Londres em 1899 pelo folclorista norte-americano Charles Godfrey Leland.
Leland apresentou-o como o texto sagrado de uma religião secreta de bruxas da Toscana, que teria sobrevivido desde a Antiguidade. Nele, a deusa Diana envia a filha, Aradia, à Terra para ensinar a bruxaria aos pobres oprimidos.
Mais de um século depois, os historiadores continuam a discutir se o livro é folclore verdadeiro, uma criação de Leland ou algo entre os dois. Seja qual for a resposta, é um dos livros que mais influenciou a bruxaria moderna.
Ficha do grimório
| Campo | Informação |
|---|---|
| Título | Aradia, o Evangelho das Bruxas |
| Nome original | Aradia, or the Gospel of the Witches |
| Período | 1899 |
| Origem | Florença e Toscana (recolha); publicado em Londres por David Nutt |
| Autoria | Charles Godfrey Leland, a partir de um manuscrito que diz ter recebido |
| Idiomas | Inglês, com passagens em italiano |
| Tipo | Recolha folclórica / texto religioso de bruxaria |
Charles Godfrey Leland
Leland nasceu em Filadélfia em 1824 e morreu em Florença em 1903. Em vida, ficou famoso por um livro humorístico, Hans Breitmann's Ballads (1871).
Nos últimos anos viveu em Itália e dedicou-se ao folclore toscano. Antes de Aradia publicou Etruscan Roman Remains in Popular Tradition (1892) e Legends of Florence (1896).
Maddalena e o «Vangelo»
Segundo Leland, a sua principal informadora era uma mulher de Florença a quem chamava «Maddalena», que se dizia bruxa e de ascendência etrusca. O nome verdadeiro é incerto; alguns autores identificam-na como Margherita Talenti.
Leland conta que procurou o texto durante anos e que Maddalena lhe entregou o manuscrito — o Vangelo — a 1 de janeiro de 1897. Esse manuscrito original nunca foi encontrado.
O que contém
O livro tem 15 capítulos de mitos, feitiços, orações e bênçãos. A parte mais conhecida é o mito inicial:
- Diana é a deusa primordial que se divide em luz e trevas;
- une-se ao irmão, Lúcifer, aqui um deus do Sol, e dela nasce Aradia;
- Diana envia Aradia à Terra para ensinar a bruxaria aos camponeses oprimidos, contra os senhores e contra a Igreja;
- Aradia manda os seguidores reunirem-se na lua cheia e celebrarem os ritos nus, como sinal de liberdade.
Seguem-se capítulos com a «ceia das bruxas», conjurações a Diana, pequenos feitiços populares e lendas. Há também uma figura curiosa: Caim associado à Lua.
Nota: o «Lúcifer» de Aradia não é o diabo cristão, mas uma divindade solar. É uma das razões pelas quais o livro chocou e fascinou os leitores.
O debate sobre a autenticidade
É o tema mais discutido. Há três posições principais:
| Estudioso | Posição |
|---|---|
| Ronald Hutton | Duvida do manuscrito e até da existência de Maddalena; admite que Leland tenha inventado tudo |
| Robert Mathiesen | Só os primeiros capítulos corresponderiam ao Vangelo original |
| Sabina Magliocco | Pode ser uma versão do séc. XIX da antiga lenda do «culto de Herodíade» |
O nome Aradia parece, de facto, aparentado com Herodíade. Na Idade Média, textos da Igreja falavam de mulheres que diziam cavalgar de noite com Diana ou Herodíade.
O que é seguro: não há prova de uma religião de bruxas contínua desde a Antiguidade. Essa ideia, muito popular no fim do século XIX, foi abandonada pelos historiadores.
➜ Stregheria, a bruxaria italiana
Influência na Wicca
Quando Gerald Gardner formou a Wicca nos anos 1940 e 1950, usou material de Aradia. Um trecho do primeiro capítulo inspirou a Charge of the Goddess, a «Exortação da Deusa», um dos textos mais importantes da Wicca gardneriana.
Mais tarde, Doreen Valiente reescreveu essa exortação. Reconheceu a origem em Leland e quis dar-lhe uma forma mais original.
A reunião na lua cheia e a nudez ritual — o chamado skyclad — também ecoam Aradia.
➜ Wicca
Curiosidades
- Raven Grimassi, autor da Stregheria moderna, apresenta Aradia como uma bruxa histórica do séc. XIV. Não há documentos que o provem.
- Em 1998 saiu uma nova tradução de Mario Pazzaglini, com o texto italiano revisto.
- O italiano de Leland tem erros e não segue o dialeto toscano, o que alimentou as dúvidas.
Onde ler
A edição de 1899 está em domínio público. Pode ler-se gratuitamente na Internet Archive e no site Sacred Texts.
Continue a ler
➜ A lua tripla e a deusa tríplice
Fontes
- Charles G. Leland, Aradia, or the Gospel of the Witches, Londres, David Nutt, 1899 — sacred-texts.com
- «Aradia, or the Gospel of the Witches», Wikipedia — en.wikipedia.org
- «Charles Godfrey Leland», Wikipedia — en.wikipedia.org
- Ronald Hutton, The Triumph of the Moon: A History of Modern Pagan Witchcraft, Oxford University Press.
- Sabina Magliocco, «Who Was Aradia? The History and Development of a Legend», The Pomegranate, 2002.