A Ars Notoria — a «arte notória» — é um livro medieval de orações e figuras que prometia algo muito desejado pelos estudantes: aprender depressa, ganhar memória, eloquência e domínio das ciências.
Não fala de tesouros nem de demónios. É um grimório para o estudo, ligado às escolas e universidades medievais. Mesmo assim, foi condenado pela Igreja.
O nome vem das notae: figuras geométricas acompanhadas de orações, que o praticante devia contemplar.
Ficha do grimório
| Campo | Informação |
|---|---|
| Título | Arte Notória de Salomão |
| Nome original | Ars Notoria (latim) |
| Período | Fim do séc. XII – início do séc. XIII |
| Origem | Provavelmente norte de Itália |
| Autoria | Atribuída a Salomão e a Apolónio de Tiana; autores reais desconhecidos |
| Idioma | Latim, com orações em palavras de aparência grega, hebraica e aramaica |
| Tipo | Magia ritual angélica para o conhecimento |
Lenda e origem real
A lenda
O livro apresenta-se como uma revelação feita por um anjo a Salomão, que teria obtido com ela a sua famosa sabedoria. Uma parte é também atribuída a Apolónio de Tiana, sábio grego do século I.
Nenhuma destas atribuições é histórica.
➜ O rei Salomão na tradição mágica
A origem real
O texto nasceu na Europa latina por volta de 1200, quando as universidades se multiplicavam e o saber se tornava caminho para uma carreira. A parte atribuída a Apolónio chama-se Flores aurei («Flores de ouro») e foi integrada na obra.
Conhecem-se cerca de 50 manuscritos, dos séculos XIII a XVIII, que os estudiosos agrupam em três versões principais.
O que contém
As orações
A maior parte são orações longas, umas em latim cristão, outras cheias de palavras estranhas que parecem nomes divinos e angélicos. O texto afirma que estas palavras têm um poder que não pode ser traduzido.
As notae
As notae são figuras desenhadas, com círculos, linhas e palavras. Cada uma corresponde a uma disciplina:
- o trívio: gramática, retórica e lógica;
- o quadrívio: aritmética, geometria, música e astronomia;
- e ainda a filosofia e a teologia.
Nas edições impressas antigas, os desenhos foram omitidos, o que torna o texto difícil de compreender. Só os manuscritos ilustrados mostram a obra completa.
O ritual
O praticante devia seguir um calendário ligado às fases da Lua, fazer jejuns, confessar-se e recitar as orações durante semanas, contemplando as figuras.
Descrevemos o método como documento histórico. O texto promete resultados que nenhuma prática garante.
As condenações
Para a Igreja medieval, o problema era claro: pedir saber a anjos através de palavras desconhecidas podia ser, sem o saber, invocar demónios.
- São Tomás de Aquino, na Suma Teológica (II-II, q. 96, a. 1), pergunta se é lícito usar a arte notória. A resposta começa assim: a arte notória «é ilícita e ineficaz».
- O monge beneditino João de Morigny praticou a Ars Notoria e depois rejeitou-a, escrevendo no início do século XIV um livro de orações à Virgem com o mesmo objetivo. Mesmo assim, em 1323, uma cópia do seu Livro das visões foi queimada publicamente em Paris.
Apesar das condenações, os manuscritos continuaram a ser copiados e anotados por leitores durante séculos.
Obras aparentadas
- Ars nova — uma versão mais simples, com dez orações.
- Opus operum — texto do século XIII com um programa semelhante, de três meses.
- Ars brevis — versão abreviada do século XIV.
- Liber florum caelestis doctrinae — o livro de João de Morigny, uma «arte notória» cristianizada.
Edições e versões
- Robert Turner, 1657 — tradução inglesa, feita a partir do texto latino impresso junto das obras de Cornélio Agrippa. Não traz as figuras.
- Julien Véronèse, 2007 — primeira edição crítica do texto latino.
- Matthias Castle, 2023 — primeira tradução inglesa completa.
Influência
A Ars Notoria entrou no Lemegeton, a Chave Menor de Salomão, como uma das suas partes, ao lado da Goécia.
É também um exemplo raro de magia ligada à vida intelectual, e não ao amor, ao dinheiro ou à vingança. Mostra que estudantes e clérigos procuravam no ritual uma ajuda para os exames e para a carreira.
➜ Lemegeton, a Chave Menor de Salomão
Curiosidades
- A palavra «notória» não quer dizer «famosa»: vem de nota, a figura que se contempla.
- A obra promete saber infuso, mas exige semanas de disciplina, jejum e oração — o que, em si, já é uma forma de estudo.
Onde ler
A tradução de Robert Turner (1657) está em domínio público e pode ler-se no site Esoteric Archives, numa edição de Joseph H. Peterson com o texto latino.
Continue a ler
Fontes
- Robert Turner (trad.), Ars Notoria: The Notory Art of Solomon, 1657, ed. Joseph H. Peterson — esotericarchives.com
- Julien Véronèse, L'Ars notoria au Moyen Âge, SISMEL, 2007.
- Tomás de Aquino, Summa Theologiae, II-II, q. 96, a. 1 — corpusthomisticum.org
- «Ars Notoria», Wikipedia — en.wikipedia.org
- «John of Morigny», Wikipedia — en.wikipedia.org