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📚 Grimórios

Ars Notoria, a arte notória de Salomão

A Ars Notoria, a «arte notória» atribuída a Salomão: orações e figuras (notae) para a memória e o saber, origem nos séc. XII–XIII, condenações e edições.

4 min de leitura · Revisto em
Neste artigo
  1. Ficha do grimório
  2. Lenda e origem real
  3. O que contém
  4. As condenações
  5. Obras aparentadas
  6. Edições e versões
  7. Influência
  8. Curiosidades
  9. Onde ler
  10. Continue a ler
  11. Fontes

A Ars Notoria — a «arte notória» — é um livro medieval de orações e figuras que prometia algo muito desejado pelos estudantes: aprender depressa, ganhar memória, eloquência e domínio das ciências.

Não fala de tesouros nem de demónios. É um grimório para o estudo, ligado às escolas e universidades medievais. Mesmo assim, foi condenado pela Igreja.

O nome vem das notae: figuras geométricas acompanhadas de orações, que o praticante devia contemplar.

Ficha do grimório

Campo Informação
Título Arte Notória de Salomão
Nome original Ars Notoria (latim)
Período Fim do séc. XII – início do séc. XIII
Origem Provavelmente norte de Itália
Autoria Atribuída a Salomão e a Apolónio de Tiana; autores reais desconhecidos
Idioma Latim, com orações em palavras de aparência grega, hebraica e aramaica
Tipo Magia ritual angélica para o conhecimento

Lenda e origem real

A lenda

O livro apresenta-se como uma revelação feita por um anjo a Salomão, que teria obtido com ela a sua famosa sabedoria. Uma parte é também atribuída a Apolónio de Tiana, sábio grego do século I.

Nenhuma destas atribuições é histórica.

➜ O rei Salomão na tradição mágica

A origem real

O texto nasceu na Europa latina por volta de 1200, quando as universidades se multiplicavam e o saber se tornava caminho para uma carreira. A parte atribuída a Apolónio chama-se Flores aurei («Flores de ouro») e foi integrada na obra.

Conhecem-se cerca de 50 manuscritos, dos séculos XIII a XVIII, que os estudiosos agrupam em três versões principais.

O que contém

As orações

A maior parte são orações longas, umas em latim cristão, outras cheias de palavras estranhas que parecem nomes divinos e angélicos. O texto afirma que estas palavras têm um poder que não pode ser traduzido.

As notae

As notae são figuras desenhadas, com círculos, linhas e palavras. Cada uma corresponde a uma disciplina:

  • o trívio: gramática, retórica e lógica;
  • o quadrívio: aritmética, geometria, música e astronomia;
  • e ainda a filosofia e a teologia.

Nas edições impressas antigas, os desenhos foram omitidos, o que torna o texto difícil de compreender. Só os manuscritos ilustrados mostram a obra completa.

O ritual

O praticante devia seguir um calendário ligado às fases da Lua, fazer jejuns, confessar-se e recitar as orações durante semanas, contemplando as figuras.

Descrevemos o método como documento histórico. O texto promete resultados que nenhuma prática garante.

➜ A Lua na magia

As condenações

Para a Igreja medieval, o problema era claro: pedir saber a anjos através de palavras desconhecidas podia ser, sem o saber, invocar demónios.

  • São Tomás de Aquino, na Suma Teológica (II-II, q. 96, a. 1), pergunta se é lícito usar a arte notória. A resposta começa assim: a arte notória «é ilícita e ineficaz».
  • O monge beneditino João de Morigny praticou a Ars Notoria e depois rejeitou-a, escrevendo no início do século XIV um livro de orações à Virgem com o mesmo objetivo. Mesmo assim, em 1323, uma cópia do seu Livro das visões foi queimada publicamente em Paris.

Apesar das condenações, os manuscritos continuaram a ser copiados e anotados por leitores durante séculos.

➜ Magia medieval

Obras aparentadas

  • Ars nova — uma versão mais simples, com dez orações.
  • Opus operum — texto do século XIII com um programa semelhante, de três meses.
  • Ars brevis — versão abreviada do século XIV.
  • Liber florum caelestis doctrinae — o livro de João de Morigny, uma «arte notória» cristianizada.

Edições e versões

  • Robert Turner, 1657 — tradução inglesa, feita a partir do texto latino impresso junto das obras de Cornélio Agrippa. Não traz as figuras.
  • Julien Véronèse, 2007 — primeira edição crítica do texto latino.
  • Matthias Castle, 2023 — primeira tradução inglesa completa.

Influência

A Ars Notoria entrou no Lemegeton, a Chave Menor de Salomão, como uma das suas partes, ao lado da Goécia.

É também um exemplo raro de magia ligada à vida intelectual, e não ao amor, ao dinheiro ou à vingança. Mostra que estudantes e clérigos procuravam no ritual uma ajuda para os exames e para a carreira.

➜ Lemegeton, a Chave Menor de Salomão

➜ Livro Jurado de Honório

Curiosidades

  • A palavra «notória» não quer dizer «famosa»: vem de nota, a figura que se contempla.
  • A obra promete saber infuso, mas exige semanas de disciplina, jejum e oração — o que, em si, já é uma forma de estudo.

Onde ler

A tradução de Robert Turner (1657) está em domínio público e pode ler-se no site Esoteric Archives, numa edição de Joseph H. Peterson com o texto latino.

Continue a ler

➜ Biblioteca de grimórios

➜ A Chave de Salomão

➜ Sepher Raziel

➜ Magia cerimonial

Fontes

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