Gerald Brosseau Gardner (1884–1964) foi um funcionário colonial britânico reformado que, nos anos 1950, deu a conhecer ao público uma nova religião de bruxaria: a Wicca.
Gardner garantiu que não a tinha inventado. Dizia ter sido iniciado num grupo de bruxas herdeiro de um culto pagão muito antigo. Os historiadores não aceitam essa versão: tudo indica que a Wicca é uma criação do século XX, construída com peças de várias origens.
Esta página conta a vida de Gardner. As crenças e a prática da Wicca estão explicadas na página própria.
Ficha
| Campo | Informação |
|---|---|
| Nome | Gerald Brosseau Gardner |
| Nascimento | 13 de junho de 1884, Blundellsands (Lancashire, Inglaterra) |
| Morte | 12 de fevereiro de 1964, a bordo de um navio no Mediterrâneo |
| Origem | Família inglesa abastada, ligada ao comércio de madeira |
| Ocupação | Plantador, funcionário das alfândegas na Malásia, escritor |
| Obras principais | Keris and Other Malay Weapons (1936), High Magic's Aid (1949), Witchcraft Today (1954), The Meaning of Witchcraft (1959) |
| Conhecido por | Tornar pública a Wicca |
A vida: do Oriente a Inglaterra
Gardner sofria de asma em criança. Por isso passou grande parte da infância em climas quentes, como a Madeira e as Canárias, acompanhado por uma ama.
Aos 16 anos foi trabalhar para uma plantação de chá no Ceilão (atual Sri Lanka). Seguiram-se Bornéu e a Malásia, onde foi plantador de borracha e, a partir de 1923, funcionário das alfândegas.
Interessou-se pela magia e pelas armas dos povos locais. O seu livro sobre o kris, o punhal malaio, publicado em 1936, ainda hoje é citado.
Reformou-se em 1936 e voltou a Inglaterra com a mulher, Donna. Instalou-se perto da floresta de New Forest, no sul do país.
O grupo rosacruciano
Em New Forest entrou numa pequena ordem, a Rosicrucian Order Crotona Fellowship. Aí conheceu um grupo de pessoas que, segundo ele, eram bruxas em segredo.
A alegação: o coven de New Forest
Gardner contou que, em setembro de 1939, foi levado a casa de uma senhora rica da zona, Dorothy Clutterbuck, e aí iniciado numa cerimónia de bruxaria.
Segundo ele, o grupo — hoje chamado coven de New Forest — era herdeiro do «culto das bruxas» descrito pela egiptóloga Margaret Murray em 1921: uma religião pagã que teria sobrevivido em segredo desde antes do cristianismo.
O que dizem os historiadores:
- a tese de Margaret Murray está desacreditada — os processos de bruxaria não mostram nenhuma religião organizada;
- Dorothy Clutterbuck existiu (foi confirmado mais tarde), mas não há provas de que fosse bruxa;
- investigadores como Ronald Hutton e Philip Heselton concluem que o grupo, se existiu como Gardner o descreve, se formou provavelmente nos anos 1930, inspirado nas próprias teorias de Murray.
Ou seja: a iniciação de 1939 é uma alegação, não um facto demonstrado.
De onde vieram os rituais
Os textos rituais de Gardner reúnem materiais de origem conhecida:
- magia cerimonial da Chave de Salomão;
- escritos de Aleister Crowley, que Gardner conheceu em 1947, pouco antes da morte deste;
- Aradia, o Evangelho das Bruxas, de Charles Godfrey Leland (1899);
- folclore, maçonaria e naturismo.
Gardner juntou tudo num caderno, Ye Bok of ye Art Magical, que deu origem ao Livro das Sombras.
A saída para o público
Em 1951 foi revogada a velha lei inglesa contra a bruxaria (Witchcraft Act). Gardner passou a falar abertamente.
Foi «bruxo residente» de um museu de bruxaria aberto nesse ano em Castletown, na Ilha de Man, por Cecil Williamson. Mais tarde comprou o museu.
Em 1954 publicou Witchcraft Today, com prefácio de Margaret Murray. Em 1959 saiu The Meaning of Witchcraft. Gardner procurava ativamente jornais e televisão, o que criou conflitos dentro do próprio grupo.
A partir de 1953, Doreen Valiente reescreveu boa parte dos rituais. A rutura entre os dois, em 1957, deu-se precisamente por causa da publicidade.
Morte
Gardner morreu de ataque cardíaco a 12 de fevereiro de 1964, a bordo do navio Scottish Prince, quando regressava do Líbano. Foi sepultado em Tunes, no porto seguinte.
Influência
A Wicca que nasceu à volta de Gardner — hoje chamada Wicca gardneriana — espalhou-se para os Estados Unidos nos anos 1960 e deu origem a muitas outras correntes do paganismo moderno.
Os estudiosos veem Gardner como uma figura contraditória: inventivo e carismático, mas também pouco rigoroso com a verdade. Chegou a apresentar-se com doutoramentos que não correspondiam a estudos reais.
Curiosidades
- O nome ritual de Gardner era «Scire» (latim, «saber»).
- Afirmou que, em 1940, o coven fez um ritual para impedir a invasão nazi de Inglaterra — outra alegação sem confirmação.
- A sua biografia oficial, Gerald Gardner: Witch (1960), foi escrita por Idries Shah, mas assinada por Jack Bracelin.
Continue a ler
➜ Aradia, o Evangelho das Bruxas
Fontes
- Ronald Hutton, The Triumph of the Moon: A History of Modern Pagan Witchcraft, Oxford University Press, 1999.
- Philip Heselton, Witchfather: A Life of Gerald Gardner, Thoth Publications, 2012.
- «Gerald Gardner», Wikipedia (inglês): https://en.wikipedia.org/wiki/Gerald_Gardner
- «Charge of the Goddess», Wikipedia (inglês): https://en.wikipedia.org/wiki/Charge_of_the_Goddess