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Bruxaria tradicional: a alternativa à Wicca

O que é a «bruxaria tradicional» (Traditional Witchcraft): Robert Cochrane, o Clan of Tubal Cain, o stang, Chumbley e as diferenças em relação à Wicca.

4 min de leitura · Revisto em
Neste artigo
  1. Ficha
  2. Robert Cochrane: vida documentada
  3. As alegações que não se confirmaram
  4. A rutura com a Wicca
  5. Em que difere da Wicca
  6. Depois de Cochrane
  7. E em Portugal?
  8. Continue a ler
  9. Fontes

Nas livrarias esotéricas aparece muitas vezes a expressão «bruxaria tradicional» (em inglês, Traditional Witchcraft). Parece querer dizer «a bruxaria antiga, a verdadeira». Mas o seu sentido é mais preciso.

Designa um conjunto de correntes modernas de bruxaria, nascidas sobretudo em Inglaterra a partir dos anos 1960, que recusam ser Wicca e dizem inspirar-se mais no folclore, na magia popular e nos antigos «curandeiros» (cunning folk).

A figura central é Robert Cochrane. Esta página conta a sua história e explica o que separa esta corrente da Wicca — separando sempre o que é documentado do que é alegação.

Ficha

Tema Resumo
Nome Bruxaria tradicional (Traditional Witchcraft)
Origem Inglaterra, anos 1960
Figura fundadora Robert Cochrane (Roy Bowers, 1931–1966)
Grupo principal Clan of Tubal Cain
Outras correntes Tradição 1734 (EUA), Sabbatic Craft (Andrew Chumbley)
Relação com a Wicca Rejeita-a, embora muitos estudiosos a incluam no mesmo movimento

Robert Cochrane: vida documentada

Robert Cochrane era o nome usado por Roy Bowers, nascido em Londres a 26 de janeiro de 1931. Trabalhou como desenhador tipográfico.

No início dos anos 1960 formou o coven que viria a chamar-se Clan of Tubal Cain. O nome vem de Tubalcaim, o ferreiro do livro do Génesis — uma alusão ao trabalho de Cochrane com metais.

Em novembro de 1963 escreveu no jornal Psychic News um artigo em defesa da «bruxaria genuína». Aí descrevia a bruxaria como «o último verdadeiro culto de mistérios» a sobreviver.

Morreu a 3 de julho de 1966, aos 35 anos, depois de ingerir beladona e um calmante na véspera do solstício de verão.

As alegações que não se confirmaram

Cochrane dizia descender de uma família de bruxos hereditários, com antepassados enforcados por bruxaria no século XVII.

Não há provas. Pelo contrário, a mulher e um sobrinho afirmaram mais tarde que a família era metodista.

Doreen Valiente, que pertenceu ao seu grupo a partir de 1964, contou também que um prato antigo que Cochrane apresentava como herança de família tinha sido comprado por ela numa loja de antiguidades.

Isto não retira interesse às suas ideias. Mas mostra que a «antiguidade» da bruxaria tradicional é, em grande parte, uma alegação moderna.

➜ Doreen Valiente

A rutura com a Wicca

Cochrane era muito hostil a Gerald Gardner, o fundador da Wicca. Foi ele quem popularizou o termo «gardneriano», usado de forma crítica.

Em 1966, quando Cochrane apelou a uma luta aberta contra os gardnerianos, Doreen Valiente saiu do grupo.

➜ Gerald Gardner

➜ Wicca

Em que difere da Wicca

Tema Diferença
Roupa Na Wicca gardneriana usa-se muitas vezes a nudez ritual; Cochrane usava mantos negros com capuz
Lugar Ritos muitas vezes ao ar livre (bosques, colinas)
Instrumento O stang, um bordão bifurcado que serve de altar portátil
Lei Sem a «Rede Wicca»; fala-se de uma «lei» antiga de necessidade
Divindades Um Deus Cornudo e uma Deusa (no Clã, associada a Hécate)
Visão Cochrane via a bruxaria como caminho de sabedoria, mais do que como religião pagã

Os estudiosos notam, porém, que as duas correntes têm muito em comum: ambas nasceram em Inglaterra no mesmo período e partilham ideias sobre o Deus Cornudo, a Deusa e o sabat. Por isso muitos académicos incluem a bruxaria tradicional no mesmo movimento da Wicca, ainda que os praticantes o recusem.

Depois de Cochrane

  • Evan John Jones tornou-se chefe (magister) do Clã e publicou livros sobre as suas práticas. Em 1998 passou a autoridade a Shani Oates.
  • Nos EUA, Joseph Wilson, que se correspondera com Cochrane em 1965–1966, fundou a Tradição 1734 nos anos 1970.
  • Andrew D. Chumbley (1967–2004) criou a Sabbatic Craft e o grupo Cultus Sabbati; o seu livro Azoëtia saiu em 1992.
  • Mastering Witchcraft (1970), de Paul Huson, divulgou uma bruxaria de estilo «tradicional» junto do grande público.

E em Portugal?

Em Portugal nunca existiu uma «bruxaria tradicional» no sentido inglês. O que existiu — e existe — foi a magia popular: benzedeiras, ensalmos, saludadores, o Livro de São Cipriano.

Algumas pessoas que hoje se dizem «bruxas tradicionais» em Portugal inspiram-se nesse folclore. Convém lembrar que as antigas benzedeiras portuguesas rezavam dentro do catolicismo popular e, em geral, não se viam como bruxas.

➜ Benzedeiras e rezadeiras

➜ Bruxaria em Portugal

Continue a ler

➜ Stregheria: a bruxaria italiana

➜ Paganismo

➜ O familiar das bruxas

Fontes

  • Wikipedia, «Robert Cochrane (witch)» — en.wikipedia.org
  • Wikipedia, «Traditional witchcraft» — en.wikipedia.org
  • Wikipedia, «Clan of Tubal Cain» — en.wikipedia.org
  • Hutton, Ronald, The Triumph of the Moon: A History of Modern Pagan Witchcraft, Oxford University Press, 1999
  • Doyle White, Ethan, Wicca: History, Belief, and Community in Modern Pagan Witchcraft, Sussex Academic Press, 2016

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