As tábuas de maldição são pequenas folhas de metal, quase sempre de chumbo, onde gregos e romanos gravavam pedidos aos deuses contra outras pessoas. Depois eram enroladas, por vezes furadas com um prego, e escondidas.
Os gregos chamavam-lhes katadesmoi («amarras»). Os romanos, defixiones ou tabellae defixionis, da palavra latina que significa «pregar» ou «cravar».
Não são grimórios, mas são o outro lado da magia antiga: não o manual do mago, e sim o objeto que as pessoas realmente usavam. Conhecem-se hoje cerca de 1600.
Ficha
| Campo | Informação |
|---|---|
| Nome | Tábuas de maldição |
| Nome original | Katadesmoi (grego); defixiones, tabellae defixionis (latim) |
| Período | Do séc. V a.C. até ao fim do Império Romano |
| Origem | Mundo grego e romano, incluindo a Península Ibérica |
| Autoria | Pessoas comuns ou escribas profissionais, quase sempre anónimos |
| Idiomas | Grego e latim; também outras línguas locais |
| Tipo | Objetos com inscrições de maldição ou de pedido de justiça |
Como eram feitas
A maioria é uma folha fina de chumbo, com o texto riscado em letras pequenas. Às vezes o texto está escrito ao contrário ou com as letras baralhadas.
Depois de escrita, a tábua era enrolada, dobrada ou trespassada por um prego. Algumas foram encontradas com figuras de barro ou de chumbo com as mãos e os pés atados, ou com cabelos e pedaços de tecido.
Eram depositadas em lugares ligados ao mundo subterrâneo:
- sepulturas e túmulos;
- poços e fontes;
- santuários de divindades infernais;
- ou pregadas nas paredes de templos.
Para que serviam
Os estudiosos agrupam-nas em alguns tipos:
- Tribunais: para calar ou confundir o adversário num processo;
- Competição: contra atletas, cocheiros de corridas de carros ou concorrentes num negócio;
- Amor: para «ligar» uma pessoa a outra, ou separar um casal;
- Roubo: para pedir aos deuses que castigassem um ladrão e obrigassem a devolver o que foi levado.
Este último tipo é tão diferente dos outros que alguns investigadores lhe chamam «orações por justiça». A pessoa não ataca um rival: queixa-se de um roubo e pede à divindade que faça justiça.
Descrevemos estas práticas como história. Não ensinamos a fazer maldições nem «amarrações», que procuram controlar ou prejudicar outra pessoa.
As tábuas de Bath (Aquae Sulis)
Em 1979–1980, as escavações na nascente sagrada da cidade inglesa de Bath, a romana Aquae Sulis, revelaram cerca de 130 tábuas, dos séculos II a IV d.C.
Quase todas se dirigem à deusa Sulis Minerva e tratam de roubos: roupas, anéis, moedas, desaparecidos nos banhos públicos. O queixoso oferece o objeto roubado à deusa e pede que o ladrão não tenha descanso até o devolver.
Foram publicadas por Roger Tomlin em 1988 e entraram no registo britânico da Memória do Mundo da UNESCO em 2014. Estão expostas no museu das Termas Romanas de Bath.
Não muito longe, no templo de Mercúrio de Uley, foram encontradas mais de 80 tábuas semelhantes.
Na Península Ibérica e em Portugal
Conhecem-se cerca de duas dezenas de tábuas da Península Ibérica, de lugares como Sagunto, Ampúrias, Córdoba, Itálica, Mérida (Emerita) e Baelo Claudia. Tratam de roubos, processos, amores e corridas de carros.
A primeira encontrada em território português vem de Alcácer do Sal, a romana Salacia, num contexto de santuário. Segundo o estudo de Artur Ribeiro (2006), o texto invoca uma divindade feminina chamada no vocativo Domine Megare Invicte («Senhora Mégara Invicta») e Átis, e pede a recuperação de bagagens roubadas de uma casa.
É, portanto, uma «oração por justiça», semelhante às de Bath: o queixoso entrega o ladrão à divindade e promete uma oferenda se ele for descoberto.
Da Antiguidade aos grimórios
As tábuas mostram ideias que atravessam toda a história da magia:
- a crença de que escrever o nome de alguém dá poder sobre ele;
- a ideia de «atar» ou «prender» uma pessoa;
- o uso de figuras que representam a vítima;
- o recurso a divindades do mundo subterrâneo e aos mortos.
Muitas fórmulas são parecidas com as dos Papiros Mágicos Gregos, que incluem instruções para preparar este tipo de objeto.
As «amarrações» modernas herdam, de forma muito transformada, esta velha ideia de ligar alguém contra a sua vontade.
Curiosidades
- As tábuas mais antigas conhecidas vêm de Selinunte, na Sicília, do século V a.C.
- Só da Ática, a região de Atenas, conhecem-se cerca de 220.
- O chumbo era barato, fácil de riscar e, por ser frio e pesado, associado aos mortos e ao mundo subterrâneo.
Onde ver e ler
As tábuas de Bath estão expostas no museu das Termas Romanas. A coleção traduzida mais usada é a de John G. Gager (1992), protegida por direitos de autor. O artigo de Artur Ribeiro sobre as tábuas da Península Ibérica pode ler-se gratuitamente no Dialnet (ver Fontes).
Continue a ler
Fontes
- John G. Gager (ed.), Curse Tablets and Binding Spells from the Ancient World, Oxford University Press, 1992.
- Artur Ribeiro, «As tabellae defixionum: características e propósitos», Revista Portuguesa de Arqueologia, vol. 9, n.º 2, 2006, pp. 239–258 — dialnet.unirioja.es
- «Curse tablet», Wikipedia — en.wikipedia.org
- «Bath curse tablets», Wikipedia — en.wikipedia.org
- R. S. O. Tomlin, «The Curse Tablets», em B. Cunliffe (ed.), The Temple of Sulis Minerva at Bath, vol. 2, 1988.