The Long Lost Friend — no original alemão Der lange verborgene Freund, «o amigo há muito escondido» — é um pequeno livro de orações, benzeduras e receitas caseiras publicado em 1820 na Pensilvânia, nos Estados Unidos.
Foi escrito por Johann Georg Hohman, um imigrante alemão. Tornou-se o livro de referência do pow-wow ou Braucherei, a tradição de cura popular dos alemães da Pensilvânia.
Para um leitor português, o interesse é claro: é um primo americano das nossas benzeduras e ensalmos. Fórmulas com santos, sinais da cruz e palavras repetidas três vezes, para males do corpo, do gado e da casa.
Ficha do grimório
| Campo | Informação |
|---|---|
| Título | The Long Lost Friend |
| Nome original | Der lange verborgene Freund |
| Período | 1820 (1.ª edição em alemão) |
| Origem | Pensilvânia, EUA (região de Reading) |
| Autoria | Johann Georg (John George) Hohman |
| Idiomas | Alemão; inglês a partir de 1846 |
| Tipo | Livro de benzeduras e remédios populares |
Quem foi Hohman
Hohman chegou a Filadélfia em 1802, vindo da Alemanha. Instalou-se na zona de Reading, no meio da comunidade de língua alemã conhecida como Pennsylvania Dutch.
Foi impressor, vendedor de livros e praticante de pow-wow. Publicou vários livros populares, entre eles uma edição de textos atribuídos a Alberto Magno. Depois de 1846 perde-se o seu rasto nos documentos. O historiador Don Yoder chamou-lhe uma das figuras mais influentes e mais esquivas da história dos alemães da Pensilvânia.
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O que é o pow-wow (Braucherei)
Braucherei vem do alemão brauchen, «usar». O nome inglês pow-wow foi tirado de uma palavra algonquina, e só entrou no título do livro em reimpressões do fim do século XIX.
O praticante — o braucher — era muitas vezes um vizinho respeitado. Rezava, fazia sinais da cruz sobre o doente e dizia fórmulas em voz baixa. É uma tradição cristã popular, semelhante às benzedeiras portuguesas.
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O que contém
O livro é uma coleção desordenada de pequenas fórmulas. Não tem demónios nem círculos mágicos. Tem sobretudo:
- benzeduras para estancar sangue, queimaduras, verrugas e outros males;
- orações de proteção contra ladrões, fogo e inimigos;
- receitas para o gado e os cavalos;
- conselhos domésticos e agrícolas;
- «cartas» de proteção com nomes sagrados, para trazer consigo.
Um exemplo da mistura: uma das fórmulas para estancar sangue consiste apenas em contar de cinquenta para trás, até três.
Estas receitas pertencem a outra época. Nenhuma substitui um médico. Descrevemos o livro como documento histórico; não o recomendamos como tratamento.
O livro como amuleto
O próprio livro promete que quem o trouxer consigo estará protegido de inimigos, do fogo, da água e de sentenças injustas. É uma ideia antiga: o livro não é só para ler, é um objeto de proteção.
A mesma crença aparece no Livro de São Cipriano e noutros grimórios populares.
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De onde vem o texto
Hohman dizia que o material vinha em parte de «um cigano» e em parte de escritos secretos. A realidade é mais simples. Segundo o historiador Owen Davies, grande parte foi copiada do Romanus-Büchlein, um livrinho alemão de benzeduras impresso por volta de 1788.
O resto vem da tradição oral alemã e da Bíblia.
Edições e traduções
- 1820 — edição original em alemão, Der lange verborgene Freund.
- 1846 — primeira tradução inglesa, tosca, do próprio Hohman: The Long Secreted Friend.
- 1856 — tradução mais cuidada: The Long Lost Friend.
- Fim do séc. XIX — reimpressões com o título Pow-Wows; or, Long Lost Friend.
- 2012 — edição crítica de Daniel Harms: The Long-Lost Friend: A 19th Century American Grimoire (Llewellyn).
Houve ainda outras traduções anónimas, com diferenças de vocabulário.
Influência
O livro espalhou-se para lá da comunidade alemã. Chegou aos Apalaches e aos Ozarks e foi usado também no hoodoo, a magia popular afro-americana.
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O caso Rehmeyer (1928)
O episódio mais sombrio ligado ao livro é um facto documentado. A 27 de novembro de 1928, no condado de York, Pensilvânia, Nelson Rehmeyer, um praticante de pow-wow, foi morto por três homens.
Estavam convencidos de que ele os tinha enfeitiçado. Queriam o seu exemplar do Long Lost Friend ou uma madeixa do seu cabelo para «quebrar» o feitiço. Foram condenados em 1929.
O julgamento teve enorme repercussão. A publicidade negativa ajudou ao declínio do uso destes livros no século XX.
É uma lição triste: a crença no «feitiço» levou a um crime real. Quem se sente enfeitiçado e em sofrimento deve procurar ajuda — médica, psicológica ou da sua comunidade de fé.
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Onde ler
As edições do século XIX estão em domínio público. A edição de 1820 e as traduções inglesas podem consultar-se na Internet Archive e na Wikisource inglesa.
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Fontes
- «Johann Georg Hohman», Wikipedia — en.wikipedia.org
- «Long Hidden Friend», Wikipedia — en.wikipedia.org
- «Pow-wow (folk magic)», Wikipedia — en.wikipedia.org
- «Weird Old Books: Pow-wows with the Pennsylvania Dutch», Electric Literature — electricliterature.com
- Daniel Harms (ed.), The Long-Lost Friend: A 19th Century American Grimoire, Llewellyn, 2012.