Saltar para o conteúdo

📚 Grimórios

The Long Lost Friend, o livro de benzeduras da Pensilvânia

The Long Lost Friend, de John George Hohman (1820): o livro de benzeduras dos alemães da Pensilvânia, o pow-wow, as suas fontes e o caso Rehmeyer de 1928.

4 min de leitura · Revisto em
Neste artigo
  1. Ficha do grimório
  2. Quem foi Hohman
  3. O que é o pow-wow (Braucherei)
  4. O que contém
  5. De onde vem o texto
  6. Edições e traduções
  7. Influência
  8. O caso Rehmeyer (1928)
  9. Onde ler
  10. Continue a ler
  11. Fontes

The Long Lost Friend — no original alemão Der lange verborgene Freund, «o amigo há muito escondido» — é um pequeno livro de orações, benzeduras e receitas caseiras publicado em 1820 na Pensilvânia, nos Estados Unidos.

Foi escrito por Johann Georg Hohman, um imigrante alemão. Tornou-se o livro de referência do pow-wow ou Braucherei, a tradição de cura popular dos alemães da Pensilvânia.

Para um leitor português, o interesse é claro: é um primo americano das nossas benzeduras e ensalmos. Fórmulas com santos, sinais da cruz e palavras repetidas três vezes, para males do corpo, do gado e da casa.

Ficha do grimório

Campo Informação
Título The Long Lost Friend
Nome original Der lange verborgene Freund
Período 1820 (1.ª edição em alemão)
Origem Pensilvânia, EUA (região de Reading)
Autoria Johann Georg (John George) Hohman
Idiomas Alemão; inglês a partir de 1846
Tipo Livro de benzeduras e remédios populares

Quem foi Hohman

Hohman chegou a Filadélfia em 1802, vindo da Alemanha. Instalou-se na zona de Reading, no meio da comunidade de língua alemã conhecida como Pennsylvania Dutch.

Foi impressor, vendedor de livros e praticante de pow-wow. Publicou vários livros populares, entre eles uma edição de textos atribuídos a Alberto Magno. Depois de 1846 perde-se o seu rasto nos documentos. O historiador Don Yoder chamou-lhe uma das figuras mais influentes e mais esquivas da história dos alemães da Pensilvânia.

➜ Alberto Magno e os livros que lhe atribuíram

O que é o pow-wow (Braucherei)

Braucherei vem do alemão brauchen, «usar». O nome inglês pow-wow foi tirado de uma palavra algonquina, e só entrou no título do livro em reimpressões do fim do século XIX.

O praticante — o braucher — era muitas vezes um vizinho respeitado. Rezava, fazia sinais da cruz sobre o doente e dizia fórmulas em voz baixa. É uma tradição cristã popular, semelhante às benzedeiras portuguesas.

➜ Ensalmos e ensalmadores em Portugal

O que contém

O livro é uma coleção desordenada de pequenas fórmulas. Não tem demónios nem círculos mágicos. Tem sobretudo:

  • benzeduras para estancar sangue, queimaduras, verrugas e outros males;
  • orações de proteção contra ladrões, fogo e inimigos;
  • receitas para o gado e os cavalos;
  • conselhos domésticos e agrícolas;
  • «cartas» de proteção com nomes sagrados, para trazer consigo.

Um exemplo da mistura: uma das fórmulas para estancar sangue consiste apenas em contar de cinquenta para trás, até três.

Estas receitas pertencem a outra época. Nenhuma substitui um médico. Descrevemos o livro como documento histórico; não o recomendamos como tratamento.

O livro como amuleto

O próprio livro promete que quem o trouxer consigo estará protegido de inimigos, do fogo, da água e de sentenças injustas. É uma ideia antiga: o livro não é só para ler, é um objeto de proteção.

A mesma crença aparece no Livro de São Cipriano e noutros grimórios populares.

➜ Como ler o Livro de São Cipriano

De onde vem o texto

Hohman dizia que o material vinha em parte de «um cigano» e em parte de escritos secretos. A realidade é mais simples. Segundo o historiador Owen Davies, grande parte foi copiada do Romanus-Büchlein, um livrinho alemão de benzeduras impresso por volta de 1788.

O resto vem da tradição oral alemã e da Bíblia.

Edições e traduções

  • 1820 — edição original em alemão, Der lange verborgene Freund.
  • 1846 — primeira tradução inglesa, tosca, do próprio Hohman: The Long Secreted Friend.
  • 1856 — tradução mais cuidada: The Long Lost Friend.
  • Fim do séc. XIX — reimpressões com o título Pow-Wows; or, Long Lost Friend.
  • 2012 — edição crítica de Daniel Harms: The Long-Lost Friend: A 19th Century American Grimoire (Llewellyn).

Houve ainda outras traduções anónimas, com diferenças de vocabulário.

Influência

O livro espalhou-se para lá da comunidade alemã. Chegou aos Apalaches e aos Ozarks e foi usado também no hoodoo, a magia popular afro-americana.

➜ Hoodoo e rootwork

➜ Sexto e Sétimo Livros de Moisés

O caso Rehmeyer (1928)

O episódio mais sombrio ligado ao livro é um facto documentado. A 27 de novembro de 1928, no condado de York, Pensilvânia, Nelson Rehmeyer, um praticante de pow-wow, foi morto por três homens.

Estavam convencidos de que ele os tinha enfeitiçado. Queriam o seu exemplar do Long Lost Friend ou uma madeixa do seu cabelo para «quebrar» o feitiço. Foram condenados em 1929.

O julgamento teve enorme repercussão. A publicidade negativa ajudou ao declínio do uso destes livros no século XX.

É uma lição triste: a crença no «feitiço» levou a um crime real. Quem se sente enfeitiçado e em sofrimento deve procurar ajuda — médica, psicológica ou da sua comunidade de fé.

➜ Como saber se tenho bruxaria?

Onde ler

As edições do século XIX estão em domínio público. A edição de 1820 e as traduções inglesas podem consultar-se na Internet Archive e na Wikisource inglesa.

Continue a ler

➜ Biblioteca de grimórios

➜ Sexto e Sétimo Livros de Moisés

➜ Ensalmos e ensalmadores

➜ Hoodoo e rootwork

Fontes

  • «Johann Georg Hohman», Wikipedia — en.wikipedia.org
  • «Long Hidden Friend», Wikipedia — en.wikipedia.org
  • «Pow-wow (folk magic)», Wikipedia — en.wikipedia.org
  • «Weird Old Books: Pow-wows with the Pennsylvania Dutch», Electric Literature — electricliterature.com
  • Daniel Harms (ed.), The Long-Lost Friend: A 19th Century American Grimoire, Llewellyn, 2012.

A minha nota

Escreva aqui as suas anotações. Ficam guardadas só neste dispositivo — não são enviadas para nenhum servidor.

Continue a explorar

Ver tudo em Grimórios ›