Com o nome Sepher Raziel (ou «Livro de Raziel») circularam, na verdade, duas obras diferentes. Uma é hebraica: o Sefer Raziel HaMalakh, «o livro de Raziel, o anjo». A outra é latina: o Liber Razielis, um tratado de magia angélica associado à corte de Afonso X de Castela.
Ambas partilham a mesma lenda — um livro de segredos entregue por um anjo a Adão — mas têm conteúdos, datas e histórias diferentes. Confundi-las é o erro mais comum sobre este grimório.
Ficha do grimório
| Campo | Informação |
|---|---|
| Título | Sepher Raziel / Livro do Anjo Raziel |
| Nome original | Sefer Raziel HaMalakh (hebraico); Liber Razielis (latim) |
| Período | Hebraico: não antes do séc. XIII, com materiais mais antigos; latino: séc. XIII–XIV (datação discutida) |
| Origem | Hebraico: meio judaico medieval; latino: Península Ibérica |
| Autoria | Atribuída ao anjo Raziel e a Adão; autores reais desconhecidos |
| Idiomas | Hebraico e aramaico; latim, castelhano, inglês |
| Tipo | Angelologia, nomes divinos, astrologia, amuletos |
A lenda: um livro dado a Adão
Segundo a lenda, depois da expulsão do Paraíso o anjo Raziel revelou a Adão os segredos do céu e da terra. O livro, ou o seu saber, teria passado depois a outros patriarcas.
Isto é tradição, não história. Serve para dar ao texto uma autoridade muito antiga, tal como acontece com os livros atribuídos a Salomão.
➜ O rei Salomão na tradição mágica
O Sefer Raziel HaMalakh hebraico
Origem real
A obra hebraica, tal como a conhecemos, não pode ser anterior ao século XIII. Algumas partes, porém, parecem vir da Antiguidade tardia. Os investigadores apontam como provável compilador Eleazar de Worms, mestre dos Hassidim da Renânia; Jacob Emden atribuiu-a a Abraão Abulafia.
A versão mais conhecida é a impressa em Amesterdão em 1701.
O que contém
Mistura cosmologia e prática: angelologia, usos mágicos do zodíaco, gematria, nomes de Deus, fórmulas de proteção e instruções para escrever amuletos. O texto trata as letras hebraicas e os nomes divinos como parte da própria ordem do mundo.
➜ A Cabala
O livro como amuleto
A página de rosto da edição de 1701 promete que quem guardar o livro terá proteção, incluindo contra o fogo em casa. Daí nasceu o costume, em algumas famílias judaicas, de ter o livro em casa como objeto protetor. É uma crença, registada na própria edição, e não um efeito demonstrado.
O Liber Razielis latino
A ligação a Afonso X
O Liber Razielis é uma compilação latina em sete livros: Clavis, Ala, Thymiama, Liber temporum, Liber mundicie et abstinentie, Sameyn e Liber magice. O sexto usa material do Sefer ha-Razim.
Um apêndice assinado por um tal Johannes Clericus afirma que a obra foi traduzida por ordem de Afonso X, o Sábio (rei de 1252 a 1284). Foi assim que se tornou habitual dizer que o livro nasceu na sua corte.
Um debate em aberto
Em 2012, a investigadora Damaris Gehr defendeu que essa ligação é uma ficção posterior: o apêndice seria de c. 1350–1376, e a compilação em sete livros ainda mal circularia em meados do século XIV. Outros autores, como Sebastià Giralt, apoiados em estudos de Alejandro García Avilés, continuam a ver laços com o círculo afonsino.
Conclusão honesta: a associação a Afonso X é antiga, mas não está provada e é discutida.
➜ Sefer ha-Razim, o Livro dos Mistérios
Hebraico e latino: não confundir
| Obra | O que é |
|---|---|
| Sefer Raziel HaMalakh | Texto hebraico, cabalístico e de amuletos; impresso em 1701 |
| Liber Razielis | Compilação latina em sete livros, de magia angélica e astral |
O latino não é uma simples tradução do hebraico: é uma obra nova, feita com materiais de várias origens.
Influência
A versão latina teve eco forte na magia cerimonial. O Heptameron, atribuído a Pedro de Abano, apoia-se nela. No século XV, Johannes Hartlieb condenou-a como necromancia, ao lado do Picatrix.
No século XVI circulou em Inglaterra uma versão chamada Sepher Raziel: Liber Salomonis, publicada modernamente por Don Karr e Stephen Skinner.
Onde ler
A edição hebraica de 1701 está em domínio público e há exemplares digitalizados em bibliotecas. O Liber Razielis latino não tem uma edição portuguesa; as edições críticas modernas estão protegidas por direitos de autor.
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Fontes
- «Sefer Raziel HaMalakh», Wikipedia — en.wikipedia.org
- Damaris Aschera Gehr, «La fittizia associazione del Liber Razielis in sette libri ad Alfonso X il Saggio…», Viator 43 (2012), pp. 181–207 — academia.edu
- Fernando Riva, «Est Iste Liber Maximi Secreti: Alfonso X's Liber Razielis and the Secrets of Kingship», Neophilologus 104 (2020) — link.springer.com
- Descrição da 1.ª edição (Amesterdão, 1701), Genazym Auctions — genazym.com
- Don Karr e Stephen Skinner (eds.), Sepher Raziel: Liber Salomonis, col. Sourceworks of Ceremonial Magic.