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📚 Grimórios

Steganographia de Tritémio: magia angélica ou código secreto?

A Steganographia de Tritémio (c. 1499, impressa em 1606) parecia um livro para invocar espíritos. Era um tratado de escrita secreta, decifrado em 1996–98.

4 min de leitura · Revisto em
Neste artigo
  1. Ficha do grimório
  2. Como nasceu a fama de livro demoníaco
  3. O que contém
  4. A impressão de 1606 e a proibição
  5. A decifração do Livro III (1996–1998)
  6. Influência
  7. Curiosidades
  8. Onde ler
  9. Continue a ler
  10. Fontes

Durante quase 500 anos, a Steganographia foi lida como um dos livros de magia mais perigosos da Europa. Parecia ensinar a chamar espíritos para levar mensagens à distância.

Hoje sabemos que era, sobretudo, um tratado de criptografia: a arte de esconder mensagens. As «invocações» eram textos-disfarce, e os nomes dos espíritos faziam parte do código.

O autor foi Tritémio (Johannes Trithemius, 1462–1516), abade beneditino de Sponheim e, mais tarde, de Würzburg.

Ficha do grimório

Campo Informação
Título Steganographia («escrita escondida»)
Nome original Steganographia (latim)
Período Escrita c. 1499–1500; impressa em 1606
Origem Mosteiro de Sponheim (Alemanha)
Autoria Johannes Trithemius (Tritémio)
Idioma Latim
Tipo Criptografia disfarçada de magia angélica

Como nasceu a fama de livro demoníaco

Tritémio nunca publicou a obra em vida. Em 1499 descreveu-a numa carta a Arnoldus Bostius, e a notícia espalhou-se antes de o livro estar terminado.

Em 1504, o matemático francês Charles de Bovelles (Bovillus) visitou Sponheim e folheou o manuscrito. Numa carta de 1509, publicada em 1510, escreveu que os estranhos nomes de espíritos mostravam trato com demónios e que o livro devia ser queimado.

Tritémio negou sempre. Mas a acusação ficou-lhe colada: a partir daí, o abade erudito passou a ter fama de mago.

➜ Tritémio, o abade de Sponheim

O que contém

A obra divide-se em três livros. Descrevemos a sua estrutura; não se trata de um manual de práticas.

Livros I e II — as «conjurações»

Cada capítulo apresenta um espírito com nome estranho (o primeiro chama-se Pamersiel) e uma fórmula que parece uma invocação.

Na verdade, a fórmula é o texto-disfarce. Aplicando uma regra simples — por exemplo, ler certas letras de certas palavras — aparece a mensagem escondida. O nome do espírito indicava qual a regra a usar.

Livro III — os anjos dos planetas

O terceiro livro é curto e ficou incompleto. Tem um prefácio, um capítulo truncado sobre Saturno e tabelas de números apresentadas como dados astronómicos dos espíritos planetários.

Por não ter exemplos cifrados evidentes, vários historiadores do século XX (como D. P. Walker) concluíram que este livro era magia verdadeira, mesmo que os anteriores fossem criptografia.

➜ Os anjos e planetas dos dias da semana

A impressão de 1606 e a proibição

A primeira edição impressa saiu em Frankfurt, em 1606, acompanhada de uma Clavis (chave) que explicava o método dos Livros I e II.

Mesmo assim, a Igreja colocou a obra no Índice dos Livros Proibidos em 1609. Só saiu da lista em 1900.

A decifração do Livro III (1996–1998)

O mistério resolveu-se no fim do século XX, por dois investigadores que trabalharam de forma independente:

Investigador Contributo
Thomas Ernst Germanista; publicou a solução em 1996 (revista Daphnis), com base em manuscritos de Wolfenbüttel e do Vaticano
Jim Reeds Matemático; publicou «Solved: The Ciphers in Book III of Trithemius's Steganographia» na revista Cryptologia em 1998

Reeds reparou que os números das tabelas se agrupavam em blocos regulares. Eram uma substituição simples: cada número correspondia a uma letra.

As mensagens reveladas eram banais. Uma delas é uma frase latina de treino usada por copistas e criptógrafos: Gaza frequens Libycos duxit Carthago triumphos. Outra avisa, em alemão, que o portador da carta é um patife e um ladrão.

Ernst mostrou também que um autor do século XVII, Wolfgang Ernst Heidel (1676), já tinha percebido o segredo. Ninguém o levara a sério.

Conclusão dos investigadores: os três livros têm o mesmo objetivo criptográfico. A Steganographia é hoje vista como uma das primeiras grandes obras europeias sobre escrita secreta.

Influência

  • A palavra esteganografia — esconder uma mensagem dentro de outra, hoje usada em informática — vem do título deste livro.
  • Em 1563, John Dee conseguiu uma cópia manuscrita em Antuérpia e escreveu que era um livro que muitos sábios procuravam havia muito tempo.
  • Tritémio escreveu ainda a Polygraphia, impressa em 1518, depois da sua morte, sobre cifras sem disfarce mágico.
  • Na tradição esotérica, a Steganographia continuou a ser lida como magia angélica, e há quem ainda a leia assim.

➜ John Dee e Edward Kelley

Curiosidades

  • Cornélio Agrippa visitou Tritémio e dedicou-lhe a primeira versão manuscrita da Filosofia Oculta (c. 1510). Por isso se diz muitas vezes que foi seu mestre.
  • O próprio título grego é um jogo: steganós significa «coberto» e graphía «escrita».

➜ Cornélio Agrippa

Onde ler

A edição de 1606 está em domínio público e há digitalizações em várias bibliotecas. O projeto Trithemius Redivivus, de Alexander Boxer, apresenta o texto latino com tradução inglesa e as chaves das cifras.

Continue a ler

➜ Biblioteca de grimórios

➜ Livro de Soyga, o livro de John Dee

➜ Magia renascentista

➜ A Filosofia Oculta de Agrippa

Fontes

  • Jim Reeds, «Solved: The Ciphers in Book III of Trithemius's Steganographia», Cryptologia, vol. 22, n.º 4, 1998 — PDF
  • Thomas Ernst, «Schwarzweiße Magie. Der Schlüssel zum dritten Buch der Steganographia des Trithemius», Daphnis, 25, 1996.
  • «Steganographia», Wikipedia — en.wikipedia.org
  • «Johannes Trithemius», Wikipedia — en.wikipedia.org
  • Alexander Boxer, Trithemius Redivivus — trithemius.com

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