O Sefer ha-Razim — em hebraico, «Livro dos Mistérios» — é um manual de magia judaica da Antiguidade tardia. Descreve os sete firmamentos (céus), os anjos que os habitam e as fórmulas para lhes pedir ajuda.
Durante séculos, ninguém sabia que o livro tinha existido como obra independente. Só foi reconstruído em 1966, a partir de fragmentos espalhados por várias bibliotecas.
É uma fonte importante porque mostra que, na Antiguidade, a magia judaica e a magia greco-egípcia partilhavam ideias e vocabulário.
Ficha do grimório
| Campo | Informação |
|---|---|
| Título | Livro dos Mistérios |
| Nome original | Sefer ha-Razim (hebraico) |
| Período | Provavelmente séc. IV d.C. (há quem proponha o fim do séc. III) |
| Origem | Palestina ou meio judaico da Antiguidade tardia (discutido) |
| Autoria | Atribuída à revelação do anjo Raziel a Noé; autor real desconhecido |
| Idiomas | Hebraico, com palavras gregas transliteradas; fragmentos em judeo-árabe e latim |
| Tipo | Manual de magia angélica |
Lenda e origem real
A lenda
O prefácio diz que o livro foi revelado a Noé pelo anjo Raziel, antes do Dilúvio. Passou depois de geração em geração até chegar a Salomão, que dele tirou a sua sabedoria e o seu poder sobre os espíritos.
É uma forma de dar ao livro uma autoridade antiquíssima. Não é um facto histórico.
A origem real
O texto está escrito num hebraico cuidado, de estilo semelhante ao dos midrashim (comentários rabínicos). Menciona indicções — ciclos fiscais romanos — o que ajudou a datá-lo por volta do século IV d.C.
A reconstrução de Margalioth
Em 1963, o estudioso israelita Mordecai Margalioth examinava em Oxford fragmentos da Genizá do Cairo, o depósito de manuscritos de uma antiga sinagoga do Cairo.
Reparou que vários fragmentos de magia judaica pareciam vir da mesma obra. Juntando-os a manuscritos hebraicos, latinos e árabes, reconstruiu o texto e publicou-o em 1966.
A reconstrução foi um feito notável, mas não é perfeita. Em 2009, Bill Rebiger e Peter Schäfer publicaram uma nova edição que mostra as várias versões do texto separadamente.
O que contém
O livro tem um prefácio e sete capítulos, um por cada firmamento, com cerca de 800 linhas no total.
Os seis primeiros firmamentos
Em cada um, o texto descreve os acampamentos de anjos, os seus nomes e as suas funções. São nomeados à volta de 700 anjos.
A seguir aos nomes vêm cerca de 30 fórmulas práticas: pedir aos anjos cura, conhecimento do futuro, proteção, sucesso, mas também fazer mal a inimigos.
Estas fórmulas incluem orações, incensos, oferendas e objetos preparados com rigor. Descrevemo-las como documento histórico, sem reproduzir as instruções.
A oração a Hélio
Um dos pormenores mais surpreendentes é uma oração ao deus-sol Hélio, escrita em grego mas com letras hebraicas. Mostra como um autor judeu conhecia e aproveitava a linguagem religiosa grega.
Os estudiosos Gideon Bohak e Alessia Bellusci estudaram esta oração à luz de novos manuscritos em 2019.
O sétimo firmamento
O último capítulo muda de tom. Não tem fórmulas mágicas. Descreve o trono de Deus e os seres celestes à sua volta, num estilo de hino.
Esta parte aproxima o livro da literatura mística judaica chamada Hekhalot («palácios»), que descreve a subida aos céus.
➜ Cabala
Anjos em vez de Deus
Uma característica marcante: as fórmulas dirigem-se aos anjos, e não diretamente a Deus. Os anjos surgem como funcionários de uma grande administração celeste, cada um com a sua tarefa.
Isto levantou questões religiosas. Na tradição rabínica, a magia era vista com desconfiança, e o livro mostra que, apesar disso, havia judeus que a praticavam.
Influência e parentes
- Muitas passagens do Sefer ha-Razim foram incluídas mais tarde no Sefer Raziel ha-Malakh, um livro hebraico medieval muito difundido. São obras diferentes, mas aparentadas.
- Há semelhanças claras com os Papiros Mágicos Gregos: palavras gregas, oferendas, uso de nomes secretos.
- A ideia de anjos ligados a cada céu e a cada tempo passou, por outros caminhos, para a magia angélica medieval.
Curiosidades
- O livro só existe como obra graças a um estudioso do século XX. Durante mais de mil anos, circulou aos pedaços, dentro de outros textos.
- A Genizá do Cairo guardou centenas de milhares de fragmentos, porque os textos com o nome de Deus não se deitavam fora.
Onde ler
O texto hebraico reconstruído por Margalioth (1966) pode ser consultado no Internet Archive. As traduções modernas (Morgan, 1983) estão protegidas por direitos de autor.
Continue a ler
➜ O rei Salomão na tradição mágica
Fontes
- Mordecai Margalioth, Sepher ha-Razim, Jerusalém, 1966 — archive.org
- Michael A. Morgan (trad.), Sepher ha-Razim: The Book of the Mysteries, Scholars Press, 1983.
- Bill Rebiger e Peter Schäfer, Sefer ha-Razim I und II, Mohr Siebeck, 2009.
- «Razim, Sefer ha-», Encyclopaedia Judaica, via Jewish Virtual Library — jewishvirtuallibrary.org
- «Sefer HaRazim», Wikipedia — en.wikipedia.org