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📚 Grimórios

Sefer ha-Razim, o Livro dos Mistérios

Sefer ha-Razim, o Livro dos Mistérios: manual de magia judaica do séc. IV, os sete firmamentos e os seus anjos, e a reconstrução de Margalioth em 1966.

4 min de leitura · Revisto em
Neste artigo
  1. Ficha do grimório
  2. Lenda e origem real
  3. A reconstrução de Margalioth
  4. O que contém
  5. Anjos em vez de Deus
  6. Influência e parentes
  7. Curiosidades
  8. Onde ler
  9. Continue a ler
  10. Fontes

O Sefer ha-Razim — em hebraico, «Livro dos Mistérios» — é um manual de magia judaica da Antiguidade tardia. Descreve os sete firmamentos (céus), os anjos que os habitam e as fórmulas para lhes pedir ajuda.

Durante séculos, ninguém sabia que o livro tinha existido como obra independente. Só foi reconstruído em 1966, a partir de fragmentos espalhados por várias bibliotecas.

É uma fonte importante porque mostra que, na Antiguidade, a magia judaica e a magia greco-egípcia partilhavam ideias e vocabulário.

Ficha do grimório

Campo Informação
Título Livro dos Mistérios
Nome original Sefer ha-Razim (hebraico)
Período Provavelmente séc. IV d.C. (há quem proponha o fim do séc. III)
Origem Palestina ou meio judaico da Antiguidade tardia (discutido)
Autoria Atribuída à revelação do anjo Raziel a Noé; autor real desconhecido
Idiomas Hebraico, com palavras gregas transliteradas; fragmentos em judeo-árabe e latim
Tipo Manual de magia angélica

Lenda e origem real

A lenda

O prefácio diz que o livro foi revelado a Noé pelo anjo Raziel, antes do Dilúvio. Passou depois de geração em geração até chegar a Salomão, que dele tirou a sua sabedoria e o seu poder sobre os espíritos.

É uma forma de dar ao livro uma autoridade antiquíssima. Não é um facto histórico.

A origem real

O texto está escrito num hebraico cuidado, de estilo semelhante ao dos midrashim (comentários rabínicos). Menciona indicções — ciclos fiscais romanos — o que ajudou a datá-lo por volta do século IV d.C.

A reconstrução de Margalioth

Em 1963, o estudioso israelita Mordecai Margalioth examinava em Oxford fragmentos da Genizá do Cairo, o depósito de manuscritos de uma antiga sinagoga do Cairo.

Reparou que vários fragmentos de magia judaica pareciam vir da mesma obra. Juntando-os a manuscritos hebraicos, latinos e árabes, reconstruiu o texto e publicou-o em 1966.

A reconstrução foi um feito notável, mas não é perfeita. Em 2009, Bill Rebiger e Peter Schäfer publicaram uma nova edição que mostra as várias versões do texto separadamente.

O que contém

O livro tem um prefácio e sete capítulos, um por cada firmamento, com cerca de 800 linhas no total.

Os seis primeiros firmamentos

Em cada um, o texto descreve os acampamentos de anjos, os seus nomes e as suas funções. São nomeados à volta de 700 anjos.

A seguir aos nomes vêm cerca de 30 fórmulas práticas: pedir aos anjos cura, conhecimento do futuro, proteção, sucesso, mas também fazer mal a inimigos.

Estas fórmulas incluem orações, incensos, oferendas e objetos preparados com rigor. Descrevemo-las como documento histórico, sem reproduzir as instruções.

A oração a Hélio

Um dos pormenores mais surpreendentes é uma oração ao deus-sol Hélio, escrita em grego mas com letras hebraicas. Mostra como um autor judeu conhecia e aproveitava a linguagem religiosa grega.

Os estudiosos Gideon Bohak e Alessia Bellusci estudaram esta oração à luz de novos manuscritos em 2019.

O sétimo firmamento

O último capítulo muda de tom. Não tem fórmulas mágicas. Descreve o trono de Deus e os seres celestes à sua volta, num estilo de hino.

Esta parte aproxima o livro da literatura mística judaica chamada Hekhalot («palácios»), que descreve a subida aos céus.

➜ Cabala

Anjos em vez de Deus

Uma característica marcante: as fórmulas dirigem-se aos anjos, e não diretamente a Deus. Os anjos surgem como funcionários de uma grande administração celeste, cada um com a sua tarefa.

Isto levantou questões religiosas. Na tradição rabínica, a magia era vista com desconfiança, e o livro mostra que, apesar disso, havia judeus que a praticavam.

➜ Magia judaica popular

Influência e parentes

  • Muitas passagens do Sefer ha-Razim foram incluídas mais tarde no Sefer Raziel ha-Malakh, um livro hebraico medieval muito difundido. São obras diferentes, mas aparentadas.
  • Há semelhanças claras com os Papiros Mágicos Gregos: palavras gregas, oferendas, uso de nomes secretos.
  • A ideia de anjos ligados a cada céu e a cada tempo passou, por outros caminhos, para a magia angélica medieval.

➜ Sepher Raziel

➜ Os Papiros Mágicos Gregos

Curiosidades

  • O livro só existe como obra graças a um estudioso do século XX. Durante mais de mil anos, circulou aos pedaços, dentro de outros textos.
  • A Genizá do Cairo guardou centenas de milhares de fragmentos, porque os textos com o nome de Deus não se deitavam fora.

Onde ler

O texto hebraico reconstruído por Margalioth (1966) pode ser consultado no Internet Archive. As traduções modernas (Morgan, 1983) estão protegidas por direitos de autor.

Continue a ler

➜ Biblioteca de grimórios

➜ O Testamento de Salomão

➜ Os sete arcanjos

➜ O rei Salomão na tradição mágica

Fontes

  • Mordecai Margalioth, Sepher ha-Razim, Jerusalém, 1966 — archive.org
  • Michael A. Morgan (trad.), Sepher ha-Razim: The Book of the Mysteries, Scholars Press, 1983.
  • Bill Rebiger e Peter Schäfer, Sefer ha-Razim I und II, Mohr Siebeck, 2009.
  • «Razim, Sefer ha-», Encyclopaedia Judaica, via Jewish Virtual Library — jewishvirtuallibrary.org
  • «Sefer HaRazim», Wikipedia — en.wikipedia.org

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