Saltar para o conteúdo

📚 Grimórios

Três Livros de Filosofia Oculta, de Cornélio Agrippa

A Filosofia Oculta de Cornélio Agrippa: manuscrito de 1510, edição de 1533, os três livros, os quadrados mágicos dos planetas, o falso Quarto Livro e a sua influência.

5 min de leitura · Revisto em
Neste artigo
  1. Ficha do grimório
  2. Quem foi Agrippa
  3. Do manuscrito de 1510 à edição de 1533
  4. O que contém: três mundos, três livros
  5. A «retratação»: De vanitate
  6. O falso Quarto Livro
  7. A tradução inglesa de 1651
  8. Influência
  9. Onde ler
  10. Continue a ler
  11. Fontes

Os Três Livros de Filosofia Oculta são a grande enciclopédia da magia do Renascimento. O alemão Heinrich Cornelius Agrippa reuniu neles quase tudo o que a sua época sabia sobre correspondências, astrologia, números, nomes divinos e anjos.

Não é um grimório de receitas. É uma obra de filosofia, que tenta explicar porque é que a magia seria possível, dentro de uma visão do mundo herdada de Platão, do hermetismo e da Cabala cristã.

Quase todos os ocultistas europeus dos séculos seguintes a leram, a copiaram ou a resumiram.

Ficha do grimório

Campo Informação
Título Três Livros de Filosofia Oculta
Nome original De occulta philosophia libri tres
Período 1.ª versão manuscrita: 1510; edição completa: Colónia, 1533
Origem Sacro Império Romano-Germânico
Autoria Heinrich Cornelius Agrippa (1486–1535) — autoria real e documentada
Idiomas Latim; tradução inglesa de «J.F.» (Londres, 1651)
Tipo Tratado de filosofia mágica (natural, celeste e cerimonial)

Quem foi Agrippa

Agrippa nasceu em 1486, em Nettesheim, perto de Colónia, e morreu em 1535, em Grenoble. Foi soldado, médico, jurista, professor e secretário ao serviço de vários príncipes.

Ao contrário da maioria dos grimórios, aqui o autor é real e conhecido. Isso faz desta obra um documento histórico muito mais sólido.

Do manuscrito de 1510 à edição de 1533

Facto documentado: no inverno de 1509–1510, Agrippa esteve com o abade humanista João Tritémio, em Würzburg. A 8 de abril de 1510 dedicou-lhe a primeira versão da obra, ainda manuscrita. Tritémio aconselhou-o a guardar esses conhecimentos para poucos.

O livro só foi impresso mais de vinte anos depois:

  • 1531 — sai o primeiro livro;
  • 1533 — sai em Colónia a edição completa, muito aumentada em relação ao manuscrito.

A edição encontrou oposição eclesiástica logo à saída e, poucos anos depois, a obra entrou nas listas de livros proibidos.

O que contém: três mundos, três livros

Agrippa imagina o universo em três andares. Cada andar recebe influências do que está acima. Cada livro trata de um deles.

Livro Tema
I — Magia natural Os quatro elementos, pedras, plantas, animais, simpatias e antipatias
II — Magia celeste Números, geometria, música, astrologia, imagens e selos dos planetas
III — Magia cerimonial Religião, Cabala, nomes divinos, anjos, demónios e a alma

As correspondências

A ideia central é a de correspondência: cada planeta, número ou nome divino estaria ligado a certas pedras, plantas, cores e animais. O livro está cheio de tabelas que organizam essas ligações.

Essas tabelas são a razão principal da sua popularidade. Deram aos ocultistas uma espécie de dicionário de símbolos.

➜ Hermetismo

➜ Cabala

Os quadrados mágicos dos planetas

No capítulo 22 do Livro II, Agrippa apresenta as «tábuas dos planetas», hoje chamadas quadrados mágicos ou kameas. São grelhas de números em que cada linha, coluna e diagonal dá a mesma soma.

Planeta Quadrado
Saturno 3 × 3
Júpiter 4 × 4
Marte 5 × 5
Sol 6 × 6
Vénus 7 × 7
Mercúrio 8 × 8
Lua 9 × 9

Para cada quadrado, Agrippa indica nomes divinos, uma «inteligência» e um «espírito», com os respetivos selos, traçados a partir das casas do quadrado. Segundo a crença descrita, estes quadrados gravados em metal serviriam de talismãs. É daqui que vem grande parte da tradição moderna dos sigilos.

➜ Como desenhar sigilos mágicos

➜ Numerologia

Fontes de Agrippa

A obra é, em grande parte, uma compilação erudita. Agrippa usa Plínio, o Corpus Hermeticum, os neoplatónicos, Alberto Magno, o Picatrix, Marsílio Ficino, Pico della Mirandola e Johannes Reuchlin.

➜ Picatrix

➜ Magia renascentista

A «retratação»: De vanitate

Em 1526, Agrippa concluiu Sobre a incerteza e a vaidade das ciências (De incertitudine et vanitate scientiarum). Nele ataca todas as ciências do seu tempo, incluindo a magia e a astrologia.

Os historiadores discutem o sentido desta obra: retratação sincera, prudência perante a Igreja ou ceticismo cristão? O certo é que Agrippa publicou a Filosofia Oculta depois dela, com uma nota em que dizia ter escrito o livro na juventude.

O falso Quarto Livro

Cerca de trinta anos depois da morte de Agrippa, circulou em Marburgo (1559) um Quarto Livro de Filosofia Oculta, com instruções práticas sobre espíritos. Foi publicado junto do Heptameron.

Não é de Agrippa. O seu antigo discípulo Johann Weyer denunciou-o como falso em 1563, e essa opinião raramente foi posta em causa.

➜ Heptameron ou Elementos Mágicos

A tradução inglesa de 1651

Em 1651 saiu em Londres a primeira tradução inglesa, assinada apenas «J.F.» — geralmente identificado com John French. Foi esta versão que os ocultistas ingleses leram durante séculos.

Influência

  • Renascimento: leitores como John Dee e Giordano Bruno.
  • Lenda: Agrippa tornou-se personagem de histórias sobre um mago com um cão negro diabólico; a sua fama alimentou a lenda de Fausto, e Marlowe cita-o no Doutor Fausto.
  • Literatura: Mary Shelley põe Victor Frankenstein a ler Agrippa.
  • Ocultismo moderno: Éliphas Lévi e a Golden Dawn usaram as suas tabelas de correspondências.
  • História académica: Frances Yates e outros investigadores recuperaram-no como filósofo sério do Renascimento.

➜ Magia cerimonial

➜ O Livro de Abramelin

Onde ler

A tradução inglesa de 1651, em domínio público, está disponível gratuitamente no site Esoteric Archives, numa edição digital de Joseph H. Peterson.

Continue a ler

➜ Heptameron ou Elementos Mágicos

➜ Chave de Salomão

➜ História do ocultismo

➜ Biblioteca de grimórios

Fontes

  • Henry Cornelius Agrippa, Three Books of Occult Philosophy, trad. J.F., Londres, 1651, ed. Joseph H. Peterson — esotericarchives.com
  • «De occulta philosophia libri tres», Wikipedia — en.wikipedia.org
  • «Heinrich Cornelius Agrippa», Wikipedia — en.wikipedia.org
  • Pseudo-Agrippa, Fourth Book of Occult Philosophy, ed. Joseph H. Peterson — esotericarchives.com
  • Frances A. Yates, Giordano Bruno and the Hermetic Tradition, Routledge, 1964.

A minha nota

Escreva aqui as suas anotações. Ficam guardadas só neste dispositivo — não são enviadas para nenhum servidor.

Continue a explorar

Ver tudo em Grimórios ›