Os Três Livros de Filosofia Oculta são a grande enciclopédia da magia do Renascimento. O alemão Heinrich Cornelius Agrippa reuniu neles quase tudo o que a sua época sabia sobre correspondências, astrologia, números, nomes divinos e anjos.
Não é um grimório de receitas. É uma obra de filosofia, que tenta explicar porque é que a magia seria possível, dentro de uma visão do mundo herdada de Platão, do hermetismo e da Cabala cristã.
Quase todos os ocultistas europeus dos séculos seguintes a leram, a copiaram ou a resumiram.
Ficha do grimório
| Campo | Informação |
|---|---|
| Título | Três Livros de Filosofia Oculta |
| Nome original | De occulta philosophia libri tres |
| Período | 1.ª versão manuscrita: 1510; edição completa: Colónia, 1533 |
| Origem | Sacro Império Romano-Germânico |
| Autoria | Heinrich Cornelius Agrippa (1486–1535) — autoria real e documentada |
| Idiomas | Latim; tradução inglesa de «J.F.» (Londres, 1651) |
| Tipo | Tratado de filosofia mágica (natural, celeste e cerimonial) |
Quem foi Agrippa
Agrippa nasceu em 1486, em Nettesheim, perto de Colónia, e morreu em 1535, em Grenoble. Foi soldado, médico, jurista, professor e secretário ao serviço de vários príncipes.
Ao contrário da maioria dos grimórios, aqui o autor é real e conhecido. Isso faz desta obra um documento histórico muito mais sólido.
Do manuscrito de 1510 à edição de 1533
Facto documentado: no inverno de 1509–1510, Agrippa esteve com o abade humanista João Tritémio, em Würzburg. A 8 de abril de 1510 dedicou-lhe a primeira versão da obra, ainda manuscrita. Tritémio aconselhou-o a guardar esses conhecimentos para poucos.
O livro só foi impresso mais de vinte anos depois:
- 1531 — sai o primeiro livro;
- 1533 — sai em Colónia a edição completa, muito aumentada em relação ao manuscrito.
A edição encontrou oposição eclesiástica logo à saída e, poucos anos depois, a obra entrou nas listas de livros proibidos.
O que contém: três mundos, três livros
Agrippa imagina o universo em três andares. Cada andar recebe influências do que está acima. Cada livro trata de um deles.
| Livro | Tema |
|---|---|
| I — Magia natural | Os quatro elementos, pedras, plantas, animais, simpatias e antipatias |
| II — Magia celeste | Números, geometria, música, astrologia, imagens e selos dos planetas |
| III — Magia cerimonial | Religião, Cabala, nomes divinos, anjos, demónios e a alma |
As correspondências
A ideia central é a de correspondência: cada planeta, número ou nome divino estaria ligado a certas pedras, plantas, cores e animais. O livro está cheio de tabelas que organizam essas ligações.
Essas tabelas são a razão principal da sua popularidade. Deram aos ocultistas uma espécie de dicionário de símbolos.
➜ Cabala
Os quadrados mágicos dos planetas
No capítulo 22 do Livro II, Agrippa apresenta as «tábuas dos planetas», hoje chamadas quadrados mágicos ou kameas. São grelhas de números em que cada linha, coluna e diagonal dá a mesma soma.
| Planeta | Quadrado |
|---|---|
| Saturno | 3 × 3 |
| Júpiter | 4 × 4 |
| Marte | 5 × 5 |
| Sol | 6 × 6 |
| Vénus | 7 × 7 |
| Mercúrio | 8 × 8 |
| Lua | 9 × 9 |
Para cada quadrado, Agrippa indica nomes divinos, uma «inteligência» e um «espírito», com os respetivos selos, traçados a partir das casas do quadrado. Segundo a crença descrita, estes quadrados gravados em metal serviriam de talismãs. É daqui que vem grande parte da tradição moderna dos sigilos.
➜ Como desenhar sigilos mágicos
Fontes de Agrippa
A obra é, em grande parte, uma compilação erudita. Agrippa usa Plínio, o Corpus Hermeticum, os neoplatónicos, Alberto Magno, o Picatrix, Marsílio Ficino, Pico della Mirandola e Johannes Reuchlin.
➜ Picatrix
A «retratação»: De vanitate
Em 1526, Agrippa concluiu Sobre a incerteza e a vaidade das ciências (De incertitudine et vanitate scientiarum). Nele ataca todas as ciências do seu tempo, incluindo a magia e a astrologia.
Os historiadores discutem o sentido desta obra: retratação sincera, prudência perante a Igreja ou ceticismo cristão? O certo é que Agrippa publicou a Filosofia Oculta depois dela, com uma nota em que dizia ter escrito o livro na juventude.
O falso Quarto Livro
Cerca de trinta anos depois da morte de Agrippa, circulou em Marburgo (1559) um Quarto Livro de Filosofia Oculta, com instruções práticas sobre espíritos. Foi publicado junto do Heptameron.
Não é de Agrippa. O seu antigo discípulo Johann Weyer denunciou-o como falso em 1563, e essa opinião raramente foi posta em causa.
➜ Heptameron ou Elementos Mágicos
A tradução inglesa de 1651
Em 1651 saiu em Londres a primeira tradução inglesa, assinada apenas «J.F.» — geralmente identificado com John French. Foi esta versão que os ocultistas ingleses leram durante séculos.
Influência
- Renascimento: leitores como John Dee e Giordano Bruno.
- Lenda: Agrippa tornou-se personagem de histórias sobre um mago com um cão negro diabólico; a sua fama alimentou a lenda de Fausto, e Marlowe cita-o no Doutor Fausto.
- Literatura: Mary Shelley põe Victor Frankenstein a ler Agrippa.
- Ocultismo moderno: Éliphas Lévi e a Golden Dawn usaram as suas tabelas de correspondências.
- História académica: Frances Yates e outros investigadores recuperaram-no como filósofo sério do Renascimento.
Onde ler
A tradução inglesa de 1651, em domínio público, está disponível gratuitamente no site Esoteric Archives, numa edição digital de Joseph H. Peterson.
Continue a ler
➜ Heptameron ou Elementos Mágicos
Fontes
- Henry Cornelius Agrippa, Three Books of Occult Philosophy, trad. J.F., Londres, 1651, ed. Joseph H. Peterson — esotericarchives.com
- «De occulta philosophia libri tres», Wikipedia — en.wikipedia.org
- «Heinrich Cornelius Agrippa», Wikipedia — en.wikipedia.org
- Pseudo-Agrippa, Fourth Book of Occult Philosophy, ed. Joseph H. Peterson — esotericarchives.com
- Frances A. Yates, Giordano Bruno and the Hermetic Tradition, Routledge, 1964.