Os Papiros Mágicos Gregos são a maior coleção de textos de magia que chegou até nós da Antiguidade. Foram escritos no Egito romano, sobretudo em grego, e contêm fórmulas, hinos, receitas e rituais.
Ao contrário dos grimórios medievais, que dizem ter sido escritos por Salomão ou por Moisés, estes papiros são documentos reais da época, usados por pessoas que praticavam magia. Por isso são uma fonte preciosa para os historiadores.
Os especialistas chamam-lhes PGM, do latim Papyri Graecae Magicae. Cada texto tem um número (por exemplo, PGM IV) e a indicação das linhas.
Ficha do grimório
| Campo | Informação |
|---|---|
| Título | Papiros Mágicos Gregos |
| Nome original | Papyri Graecae Magicae (nome moderno) |
| Período | Séc. II a.C. – séc. V d.C. |
| Origem | Egito greco-romano |
| Autoria | Vários autores anónimos |
| Idiomas | Grego; também demótico e copta antigo |
| Tipo | Coleção de papiros com fórmulas, hinos e rituais |
Não é um livro, é uma coleção
Não existe um «livro» chamado Papiros Mágicos Gregos. O nome reúne dezenas de papiros diferentes, de épocas e mãos diferentes, que os estudiosos modernos juntaram numa só edição.
Alguns são rolos compridos, verdadeiros manuais de um mago. Outros são pequenas folhas com um único amuleto ou feitiço.
A coleção de Anastasi
Uma boa parte destes papiros foi comprada por volta de 1827 em Tebas (atual Luxor) por um comerciante conhecido como Jean d'Anastasi.
Anastasi vendeu-os depois a vários museus e bibliotecas da Europa:
- Museu Britânico (Londres);
- Louvre e Biblioteca Nacional (Paris);
- Museus Estatais de Berlim;
- Rijksmuseum van Oudheden (Leiden).
Como vários papiros parecem ter a mesma origem, alguns estudiosos falam numa possível «biblioteca mágica de Tebas», talvez de um só colecionador ou praticante antigo. É uma hipótese, não um facto provado.
O que contêm
Os papiros misturam várias tradições religiosas: grega, egípcia, judaica, cristã e babilónica. O mesmo texto pode invocar Hélio, Ísis, Hermes, o Deus de Israel (com nomes como Iao ou Sabaoth) e anjos.
Entre os conteúdos mais comuns:
- Hinos e orações a deuses gregos e egípcios;
- Fórmulas para adivinhação e sonhos reveladores;
- Amuletos e pequenos textos de proteção;
- Receitas contra doenças, que refletem a medicina da época;
- Fórmulas de amor e de «ligação»;
- Maldições contra rivais;
- Rituais em que o praticante assume a identidade de um deus.
Descrevemos o conteúdo como documento histórico. Não reproduzimos fórmulas para controlar ou prejudicar outras pessoas.
O Grande Papiro Mágico de Paris (PGM IV)
É o texto mais extenso da coleção, um códice guardado na Biblioteca Nacional de França, que o adquiriu em 1857. Data provavelmente do início do século IV d.C.
Nele está a chamada «Liturgia de Mitra» (PGM IV.475–829), que descreve uma subida da alma através de sete etapas. O nome foi dado pelo estudioso Albrecht Dieterich em 1903. Se o texto tem mesmo ligação ao culto de Mitra é ainda discutido: Franz Cumont e Walter Burkert duvidavam disso.
Edições modernas
- Karl Preisendanz, Papyri Graecae Magicae, 2 volumes (1928 e 1931). Um terceiro volume, com os índices, foi destruído no bombardeamento de Leipzig durante a Segunda Guerra Mundial. Houve uma edição revista em 1973–1974.
- Hans Dieter Betz (ed.), The Greek Magical Papyri in Translation, University of Chicago Press, 1986. Tradução inglesa que inclui também textos demóticos. É a edição mais usada hoje.
Betz sublinhou que o sincretismo destes textos é sobretudo greco-egípcio, e não apenas «greco-romano».
O que passou para os grimórios
Os papiros perderam-se durante séculos e só foram redescobertos no século XIX. Por isso a influência direta nos grimórios medievais é limitada. Mas muitas ideias dos papiros sobreviveram por outros caminhos:
- o uso de nomes divinos hebraicos e gregos como palavras de poder;
- as palavras «bárbaras» (sequências de sílabas sem sentido aparente);
- os caracteres e sinais mágicos;
- a associação de rituais a planetas, dias e horas;
- a ideia do mago que se purifica antes de agir.
Estes elementos reaparecem na Clavícula de Salomão e noutros grimórios da tradição salomónica.
O «Ritual do Sem-Princípio»
Há um caso de influência direta e bem documentada. Um texto do papiro PGM V.96–172, do Museu Britânico, foi publicado em 1852 por Charles Wycliffe Goodwin.
A Golden Dawn adaptou-o com o nome de «Bornless Ritual». Em 1904, Aleister Crowley apresentou-o como invocação preliminar na sua edição da Goécia, e mais tarde reescreveu-o como Liber Samekh.
É um bom exemplo de como um texto antigo foi reinterpretado pelo ocultismo moderno.
➜ Lemegeton, a Chave Menor de Salomão
Curiosidades
- As tábuas de chumbo com maldições, encontradas por todo o mundo antigo, usam por vezes fórmulas muito parecidas com as dos papiros.
- Alguns papiros mencionam pequenas figuras de cera ou barro usadas em rituais, um costume que a Antiguidade já conhecia.
Onde ler
Os textos originais gregos são antigos e estão em domínio público, mas as traduções modernas (Betz, 1986) estão protegidas por direitos de autor. A edição de Preisendanz pode ser consultada em bibliotecas universitárias.
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➜ Sefer ha-Razim, o Livro dos Mistérios
Fontes
- Hans Dieter Betz (ed.), The Greek Magical Papyri in Translation, Including the Demotic Spells, University of Chicago Press, 1986.
- Karl Preisendanz, Papyri Graecae Magicae: Die griechischen Zauberpapyri, Teubner, 1928–1931.
- «Greek Magical Papyri», Wikipedia — en.wikipedia.org
- «Mithras Liturgy», Wikipedia — en.wikipedia.org
- «Bornless Ritual», Wikipedia — en.wikipedia.org