No Entrudo, em Podence (concelho de Macedo de Cavaleiros), saem à rua figuras de máscara vermelha, fato de franjas coloridas e chocalhos à cintura. Correm, saltam, gritam e perseguem as raparigas. São os caretos.
Em dezembro de 2019, a UNESCO inscreveu as Festas de Inverno, Carnaval de Podence na Lista Representativa do Património Cultural Imaterial da Humanidade.
Os caretos não são figuras de ocultismo. Mas a sua imagem de «diabos» mascarados e o seu lugar no calendário do inverno fazem deles uma das expressões mais fortes das festas de passagem de estação em Portugal.
Ficha
| Campo | Informação |
|---|---|
| Nome | Caretos (Entrudo Chocalheiro de Podence) |
| Onde | Podence, Macedo de Cavaleiros (Trás-os-Montes) |
| Quando | Do Domingo Gordo à Terça-feira de Carnaval |
| Traje | Colcha de franjas de lã (vermelho, amarelo, verde), capuz, máscara, chocalhos |
| Máscara | Lata ou latão pintado (em Podence); couro ou madeira noutras terras |
| UNESCO | Património Cultural Imaterial da Humanidade, 12 de dezembro de 2019 |
Como é a festa
Durante o Entrudo, os caretos percorrem a aldeia em correrias e saltos. Tradicionalmente eram rapazes solteiros. Hoje participam também mulheres e crianças. Os mais novos, que os acompanham e aprendem, chamam-se facanitos.
O gesto mais conhecido é a «chocalhada»: o careto aproxima-se das mulheres e abana a cintura para fazer soar os chocalhos.
Segundo a descrição da UNESCO:
- na segunda-feira encenam-se, com humor, «casamentos» dos solteiros da terra (anunciados com a ajuda de um funil);
- na terça-feira aparecem as matrafonas, outras figuras mascaradas, e queima-se o Entrudo, um boneco que simboliza o inverno que acaba.
A máscara garante o anonimato e, com ele, uma liberdade que no resto do ano não existe.
O que significa
A UNESCO descreve a festa como celebração do fim do inverno e da chegada da primavera, possivelmente ligada a antigos ritos de fertilidade.
É preciso separar:
- Facto: é uma festa de Entrudo documentada, com máscaras, chocalhos e ritos de rapazes solteiros; o gesto da chocalhada tem leitura claramente ligada à fertilidade.
- Hipótese: a origem celta ou pré-romana (ligação aos Galaicos ou aos Brácaros). É muito repetida, mas não há documentos que a comprovem.
- Leitura cristã posterior: os mascarados foram vistos como diabos. O careto, de máscara vermelha e comportamento desordeiro, joga com essa imagem.
➜ O diabo na tradição portuguesa
Outras máscaras de Trás-os-Montes e do Douro
Podence é a mais conhecida, mas não é a única:
- Ousilhão e Varge (Bragança): caretos nas Festas dos Rapazes, no ciclo dos doze dias entre o Natal e os Reis;
- Lazarim (Lamego): máscaras de madeira esculpida no Entrudo;
Do outro lado da fronteira, na Galiza e em Zamora, existem mascarados muito parecidos, sinal de um fundo cultural comum à região.
O ciclo de inverno — do Natal ao Entrudo — era o tempo das máscaras, dos rapazes solteiros e das festas de passagem para o novo ano agrícola.
A Casa do Careto
Em Podence, a Casa do Careto, inaugurada em 2004, funciona como museu e centro da associação local. Segundo a UNESCO, a associação do Grupo de Caretos reforçou muito a transmissão da tradição.
A festa atrai hoje dezenas de milhares de visitantes.
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➜ O trasgo e os seres do folclore
Fontes
- UNESCO, «Winter festivities, Carnival of Podence»: https://ich.unesco.org/en/RL/winter-festivities-carnival-of-podence-01463
- Património Cultural (DGPC), «Festas de Inverno, Carnaval de Podence»: https://www.patrimoniocultural.gov.pt/en/patrimonio/patrimonio-mundial/portugal/festas-de-inverno-carnaval-de-podence/
- Wikipédia, «Caretos de Podence»: https://pt.wikipedia.org/wiki/Caretos_de_Podence
- Wikipedia, «Careto»: https://en.wikipedia.org/wiki/Careto
- Benjamim Enes Pereira, Máscaras Portuguesas (Museu de Etnologia, 1973).