«Tenho um cobrão, vou mandá-lo talhar.» Durante gerações, foi assim que muitos portugueses reagiram ao aparecimento de uma faixa de bolhas dolorosas na pele.
Talhar o cobrão é uma das benzeduras mais conhecidas de Portugal. Esta página explica a crença, os gestos e as rezas, e diz com clareza o que a medicina sabe hoje sobre esta doença.
Aviso importante: o cobrão é a zona (herpes zóster), uma doença viral que deve ser vista por um médico, de preferência nos primeiros três dias. A benzedura é tradição; não substitui o tratamento.
Cobrão, cobro, cobrelo: o nome
O Dicionário Priberam regista cobrão (e também cobro, cobrelo, cobreiro) com dois sentidos ligados à pele:
- uma erupção cutânea atribuída popularmente à passagem de algum bicho pela roupa branca;
- a infeção a que a medicina chama herpes zóster ou zona.
O nome vem de cobra. Na crença popular, a doença era obra de um «bicho» peçonhento (cobra, sapo, aranha, lagarto) que teria passado sobre a roupa estendida a secar e deixado nela o seu veneno.
O que é «talhar»
Na linguagem das benzedeiras, talhar é «cortar» o mal: impedir que avance e fazê-lo secar. O gesto acompanha a reza, e a reza descreve o gesto.
Os instrumentos
As recolhas mostram grande variedade de região para região:
- uma faca ou uma tesoura, com que se faz o gesto de cortar sobre as bolhas, sem tocar;
- um carvão em brasa ou um tição;
- um raminho de planta.
As rezas
As fórmulas são ensalmos: rezas antigas, muitas vezes rimadas, ditas três vezes e repetidas durante três ou mais dias. Numa recolha de Lousada, uma das versões enumera todos os bichos possíveis (texto popular):
Se tu és bicho ou bichão,
cobra ou cobrão,
sapo ou sapão…
e termina pedindo que o mal fique «mirrado» como o carvão. Outras versões invocam a Santíssima Trindade ou São Bento, a quem a tradição pede proteção contra «todo o bicho peçonhento».
Porque parecia resultar
O psiquiatra português Carlos Braz Saraiva conta que, nos anos 1980, em Santarém, uma curandeira talhava o cobrão com uma reza a São Bento. E acrescenta o essencial: a doença acabava por passar sozinha.
É isso que explica a fama da benzedura. A zona costuma melhorar por si ao fim de algumas semanas. Quem foi talhado e melhorou atribuía a cura à reza. Mas nem todos melhoram sem sequelas.
O que diz a medicina
- A zona é causada pelo vírus varicela-zóster, o mesmo da varicela. Depois da varicela, o vírus fica adormecido nos nervos e pode reativar-se anos mais tarde.
- Aparece como uma faixa de bolhas dolorosas, de um só lado do corpo, muitas vezes precedida de formigueiro ou dor.
- É mais frequente depois dos 50 anos e em pessoas com as defesas baixas.
- Os antivirais funcionam melhor quando começados nas primeiras 72 horas após o aparecimento das bolhas.
- A complicação mais comum é a nevralgia pós-herpética: dor que pode durar meses.
- Quando atinge a zona do olho ou da testa, pode causar perda de visão: é urgente.
- O líquido das bolhas pode transmitir o vírus e provocar varicela em quem nunca a teve (grávidas, bebés, pessoas imunodeprimidas).
- Existe vacina contra a zona; pergunte ao seu médico se é indicada para si.
Em Portugal: ligue para o SNS 24 (808 24 24 24) ou procure o seu centro de saúde.
Se quiser manter a tradição
Há quem vá ao médico e à benzedeira. Para a tradição, a reza é um gesto de fé e de conforto. Nesse caso:
- não adie a consulta nem o tratamento;
- não deixe que ponham produtos sobre as bolhas sem indicação médica;
- se houver brasas ou fogo na benzedura, cuidado redobrado com a pele e com crianças.
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Fontes
- «Cobrão», Dicionário Priberam da Língua Portuguesa — dicionario.priberam.org/cobrão
- «As superstições e os ensalmos», O Louzadense, 28/05/2020 — olouzadense.pt
- Carlos Braz Saraiva, «Crenças e superstições, memórias breves» — carlosbrazsaraiva.com
- «Shingles», Wikipedia (com referências médicas) — en.wikipedia.org