Em Portugal ainda se diz «isso é esperar pelo D. Sebastião». A expressão guarda uma das crenças mais duradouras da história portuguesa: a de que um rei desaparecido voltaria, numa manhã de nevoeiro, para salvar o país.
Por trás dessa esperança está um homem simples: Gonçalo Anes, o Bandarra, sapateiro de Trancoso. As suas trovas proféticas foram proibidas, copiadas às escondidas, reinterpretadas durante séculos — e chegaram até Fernando Pessoa.
Ficha
| Campo | Informação |
|---|---|
| Nome | Gonçalo Anes (ou Annes), dito o Bandarra |
| Nascimento | c. 1500, Trancoso |
| Morte | depois de 1556, Trancoso |
| Ocupação | Sapateiro e trovador popular |
| Obra | Trovas proféticas (escritas antes de 1540) |
| Conhecido por | Profeta do «Encoberto» e do sebastianismo |
Quem foi o Bandarra (facto)
O Bandarra era um sapateiro de Trancoso, na Beira, que sabia ler e conhecia bem a Bíblia. Escreveu trovas em verso popular que falavam de um rei «Encoberto» e de um futuro glorioso para Portugal.
As trovas circularam em cópias manuscritas. Tiveram grande eco entre os cristãos-novos (judeus convertidos à força), que nelas viam uma esperança messiânica próxima da sua.
O processo da Inquisição (1540–1541)
Em 1540 o Bandarra foi preso e levado para Lisboa. Segundo o historiador José van den Besselaar, não foi acusado de judaísmo, mas de causar inquietação entre os cristãos-novos com os seus versos.
A sentença data de 3 de outubro de 1541. Obrigava-o a abjurar publicamente as trovas na procissão do auto-da-fé de 23 de outubro desse ano. Foi também proibido de interpretar a Bíblia e de escrever sobre teologia.
Voltou a Trancoso. Em 1556 ainda estava vivo: enviou uma cópia das trovas ao bispo da Guarda. Não se sabe a data exata da sua morte.
D. Sebastião e o nascimento do sebastianismo
A 4 de agosto de 1578, o jovem rei D. Sebastião desapareceu na batalha de Alcácer-Quibir, em Marrocos. Um corpo foi dado como sendo o do rei, mas muitos nunca aceitaram a sua morte. Dois anos depois, Portugal passou para a coroa de Filipe II de Espanha.
É aqui que as trovas do Bandarra ganham nova vida. O «Encoberto» passa a ser lido como D. Sebastião, que não morreu e há de voltar.
Surgiram vários falsos D. Sebastião, como Gabriel de Espinosa, o «pasteleiro de Madrigal», e Marco Túlio Catizone, o «D. Sebastião de Veneza». Foram condenados e executados.
Das trovas proibidas às edições impressas
| Data | Acontecimento |
|---|---|
| 1581 | As trovas entram no Índice de Livros Proibidos |
| 1603 | D. João de Castro publica em Paris uma parte das trovas, com comentário sebastianista |
| 1644 | Primeira edição completa, em França, sob o patrocínio do Conde da Vidigueira |
| 1665 | Nova proibição pela Inquisição |
D. João de Castro (1551–1623), neto do vice-rei da Índia, foi o grande teórico do sebastianismo. A edição de 1644 já tem outra leitura: depois da Restauração de 1 de dezembro de 1640, o Encoberto passou a ser D. João IV.
O Padre António Vieira e o Quinto Império
O jesuíta António Vieira (1608–1697) foi o maior intérprete do Bandarra. Numa carta de 1659, conhecida como Esperanças de Portugal, chegou a defender que D. João IV, já morto, iria ressuscitar para cumprir as profecias.
A ideia escandalizou a Inquisição. Vieira esteve preso pelo Santo Ofício de outubro de 1665 a dezembro de 1667. Nas suas obras, como a História do Futuro, desenvolveu a ideia de um Quinto Império universal, cristão e português.
O sebastianismo depois de Vieira
A crença manteve-se viva. No Brasil, inspirou movimentos trágicos no século XIX, como o da Pedra Bonita, em Pernambuco.
Em Portugal, tornou-se sobretudo mito literário e nacional. Fernando Pessoa dedicou-lhe a terceira parte da Mensagem (1934), «O Encoberto», com poemas a Bandarra e a Vieira.
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Profecia ou leitura posterior?
As trovas são vagas e simbólicas. Isso explica o seu sucesso: cada época leu nelas o que precisava. Primeiro os cristãos-novos, depois os sebastianistas, depois os partidários de D. João IV.
Do ponto de vista histórico, não há prova de que o Bandarra previsse acontecimentos concretos. O que está documentado é a força das suas trovas como esperança coletiva durante mais de três séculos.
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Fontes
- José van den Besselaar, «As Trovas do Bandarra», Instituto Camões — PDF
- «Gonçalo Annes Bandarra», Wikipédia — pt.wikipedia.org
- «Sebastianismo», Wikipédia — pt.wikipedia.org
- «Mensagem», Infopédia — infopedia.pt