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🏺 Tradição Portuguesa

O Sebastianismo e as Trovas do Bandarra

Quem foi o Bandarra, sapateiro de Trancoso julgado pela Inquisição em 1541, e como as suas Trovas alimentaram o sebastianismo, de D. Sebastião a Vieira.

4 min de leitura · Revisto em
Neste artigo
  1. Ficha
  2. Quem foi o Bandarra (facto)
  3. O processo da Inquisição (1540–1541)
  4. D. Sebastião e o nascimento do sebastianismo
  5. Das trovas proibidas às edições impressas
  6. O Padre António Vieira e o Quinto Império
  7. O sebastianismo depois de Vieira
  8. Profecia ou leitura posterior?
  9. Continue a ler
  10. Fontes

Em Portugal ainda se diz «isso é esperar pelo D. Sebastião». A expressão guarda uma das crenças mais duradouras da história portuguesa: a de que um rei desaparecido voltaria, numa manhã de nevoeiro, para salvar o país.

Por trás dessa esperança está um homem simples: Gonçalo Anes, o Bandarra, sapateiro de Trancoso. As suas trovas proféticas foram proibidas, copiadas às escondidas, reinterpretadas durante séculos — e chegaram até Fernando Pessoa.

Ficha

Campo Informação
Nome Gonçalo Anes (ou Annes), dito o Bandarra
Nascimento c. 1500, Trancoso
Morte depois de 1556, Trancoso
Ocupação Sapateiro e trovador popular
Obra Trovas proféticas (escritas antes de 1540)
Conhecido por Profeta do «Encoberto» e do sebastianismo

Quem foi o Bandarra (facto)

O Bandarra era um sapateiro de Trancoso, na Beira, que sabia ler e conhecia bem a Bíblia. Escreveu trovas em verso popular que falavam de um rei «Encoberto» e de um futuro glorioso para Portugal.

As trovas circularam em cópias manuscritas. Tiveram grande eco entre os cristãos-novos (judeus convertidos à força), que nelas viam uma esperança messiânica próxima da sua.

➜ A Inquisição em Portugal

O processo da Inquisição (1540–1541)

Em 1540 o Bandarra foi preso e levado para Lisboa. Segundo o historiador José van den Besselaar, não foi acusado de judaísmo, mas de causar inquietação entre os cristãos-novos com os seus versos.

A sentença data de 3 de outubro de 1541. Obrigava-o a abjurar publicamente as trovas na procissão do auto-da-fé de 23 de outubro desse ano. Foi também proibido de interpretar a Bíblia e de escrever sobre teologia.

Voltou a Trancoso. Em 1556 ainda estava vivo: enviou uma cópia das trovas ao bispo da Guarda. Não se sabe a data exata da sua morte.

D. Sebastião e o nascimento do sebastianismo

A 4 de agosto de 1578, o jovem rei D. Sebastião desapareceu na batalha de Alcácer-Quibir, em Marrocos. Um corpo foi dado como sendo o do rei, mas muitos nunca aceitaram a sua morte. Dois anos depois, Portugal passou para a coroa de Filipe II de Espanha.

É aqui que as trovas do Bandarra ganham nova vida. O «Encoberto» passa a ser lido como D. Sebastião, que não morreu e há de voltar.

Surgiram vários falsos D. Sebastião, como Gabriel de Espinosa, o «pasteleiro de Madrigal», e Marco Túlio Catizone, o «D. Sebastião de Veneza». Foram condenados e executados.

Das trovas proibidas às edições impressas

Data Acontecimento
1581 As trovas entram no Índice de Livros Proibidos
1603 D. João de Castro publica em Paris uma parte das trovas, com comentário sebastianista
1644 Primeira edição completa, em França, sob o patrocínio do Conde da Vidigueira
1665 Nova proibição pela Inquisição

D. João de Castro (1551–1623), neto do vice-rei da Índia, foi o grande teórico do sebastianismo. A edição de 1644 já tem outra leitura: depois da Restauração de 1 de dezembro de 1640, o Encoberto passou a ser D. João IV.

O Padre António Vieira e o Quinto Império

O jesuíta António Vieira (1608–1697) foi o maior intérprete do Bandarra. Numa carta de 1659, conhecida como Esperanças de Portugal, chegou a defender que D. João IV, já morto, iria ressuscitar para cumprir as profecias.

A ideia escandalizou a Inquisição. Vieira esteve preso pelo Santo Ofício de outubro de 1665 a dezembro de 1667. Nas suas obras, como a História do Futuro, desenvolveu a ideia de um Quinto Império universal, cristão e português.

O sebastianismo depois de Vieira

A crença manteve-se viva. No Brasil, inspirou movimentos trágicos no século XIX, como o da Pedra Bonita, em Pernambuco.

Em Portugal, tornou-se sobretudo mito literário e nacional. Fernando Pessoa dedicou-lhe a terceira parte da Mensagem (1934), «O Encoberto», com poemas a Bandarra e a Vieira.

➜ Fernando Pessoa e o ocultismo

Profecia ou leitura posterior?

As trovas são vagas e simbólicas. Isso explica o seu sucesso: cada época leu nelas o que precisava. Primeiro os cristãos-novos, depois os sebastianistas, depois os partidários de D. João IV.

Do ponto de vista histórico, não há prova de que o Bandarra previsse acontecimentos concretos. O que está documentado é a força das suas trovas como esperança coletiva durante mais de três séculos.

➜ Nostradamus: profecias e mitos

Continue a ler

➜ Tradição Portuguesa — índice

➜ Bruxaria em Portugal

➜ História do Ocultismo

Fontes

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