Em Portugal, o diabo raramente é chamado pelo nome. Diz-se Mafarrico, Tinhoso, Canhoto, Diacho, Demo. Aparece nas lendas de pontes, nos contos de pactos, no teatro de Gil Vicente e nos processos da Inquisição.
Esta página mostra como o povo português imaginou o diabo: os nomes, as histórias e o lugar que ocupou na vida de todos os dias.
Não é uma página de teologia nem de demonologia erudita. Para isso, veja as páginas sobre Lúcifer e a demonologia.
➜ Lúcifer
Os nomes do diabo
Uma crença antiga, comum a muitos povos, diz que dizer o nome chama quem o tem. Por isso a língua portuguesa encheu-se de alcunhas e disfarces para o diabo. Muitas ainda hoje se usam, às vezes a brincar.
| Nome | O que diz o dicionário |
|---|---|
| Diabo | Do latim diabolus, do grego diábolos, «o que divide, o caluniador» |
| Demo | Do latim daemon; também «pessoa irrequieta, de mau génio» |
| Diacho | Alteração de «diabo», para não o dizer inteiro |
| Mafarrico | «Diabo»; também criança traquina; etimologia obscura |
| Tinhoso | De «tinha» (doença de pele): o sujo, o repelente; também «o Diabo» |
| Canhoto | Uso informal para «demónio» |
| Pé-de-cabra | Nome informal do diabo, sobretudo no Brasil |
Os nomes dizem muito. O diabo é o sujo (Tinhoso), o esquerdo (Canhoto — a esquerda era o lado mau), o travesso (Mafarrico). Quase nunca é o grande príncipe das trevas dos livros. É uma figura próxima, matreira e um pouco ridícula.
O diabo nas lendas
A Ponte da Misarela
A lenda de ponte mais famosa de Portugal é a da Ponte da Misarela, sobre o rio Rabagão, entre Vieira do Minho e Montalegre. A ponte é medieval, foi reconstruída no início do século XIX e está classificada como Imóvel de Interesse Público desde 1958.
Diz a lenda que um fugitivo, perseguido pela justiça, chegou ao abismo do rio e não tinha por onde passar. Chamou o diabo e prometeu-lhe a alma em troca de uma ponte. A ponte apareceu e o homem fugiu.
Anos depois, um padre soube do pacto. Foi ao sítio, fez o mesmo pedido ao diabo e, quando a ponte surgiu, benzeu-a com água benta. O diabo desapareceu, deixando no ar um cheiro a pez e resina. A ponte ficou.
É uma versão portuguesa de um tipo de lenda espalhado pela Europa: as pontes do diabo, construídas numa noite em troca de uma alma, e em que o diabo acaba enganado.
Frei Gil de Santarém, o «Fausto» português
Gil de Santarém foi um frade dominicano real. Nasceu por volta de 1185, em Vouzela, estudou medicina e morreu em Santarém em 1265. Foi beatificado em 1748.
A lenda conta que, em novo, teria feito pacto com o diabo e estudado magia em Toledo durante sete anos, antes de se arrepender e entrar na Ordem. Esta história só aparece cerca de três séculos depois da sua morte e é rejeitada pelos historiadores dominicanos. É um bom exemplo de como uma lenda se cola a uma pessoa real.
➜ Mefistófeles e a lenda de Fausto
O diabo no teatro: Gil Vicente
No Auto da Barca do Inferno (1517), Gil Vicente pôs o diabo em palco como arrais de uma barca que leva as almas para o Inferno. É trocista, irónico e bom argumentador. Vai desmascarando o fidalgo, o onzeneiro, o frade, o juiz.
O diabo de Gil Vicente não é um monstro. É um juiz de costumes que mostra os pecados de cada um — muito à maneira portuguesa.
Pactos: entre a lenda e a Inquisição
O pacto com o diabo está em muitas lendas e também nos documentos.
A Inquisição portuguesa, criada em 1536, julgava a feitiçaria sobretudo quando suspeitava de pacto com o Demónio ou de heresia. Os casos mais simples ficavam muitas vezes para os bispos.
Segundo o historiador José Pedro Paiva, os juízes portugueses tendiam a ser céticos: duvidavam que as bruxas voassem ou fossem a reuniões com o diabo, e viam muitas vezes as acusadas como enganadoras. Por isso Portugal não conheceu uma grande «caça às bruxas».
O Livro de São Cipriano também ajudou a alimentar este imaginário, com histórias de demónios, conjuros e tesouros guardados.
➜ Os demónios no Livro de São Cipriano
Onde o diabo aparece
Na tradição popular, o diabo aparece de preferência em lugares e horas de passagem:
- nas encruzilhadas;
- à meia-noite e nas «horas abertas»;
- nas pontes e nos rios;
- na noite de São João.
Contra ele usavam-se o sinal da cruz, a água benta, as orações e amuletos como o signo-saimão.
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➜ Belzebu
➜ O trasgo e o fradinho da mão furada
Fontes
- Dicionário Priberam: «mafarrico», «tinhoso», «canhoto», «diacho», «demo» — dicionario.priberam.org
- «Ponte da Misarela», Wikipédia — pt.wikipedia.org
- «Giles of Santarém», Wikipedia — en.wikipedia.org
- «Auto da Barca do Inferno», Wikipédia — pt.wikipedia.org
- José Pedro Paiva, Bruxaria e superstição num país sem «caça às bruxas» (1600–1774), Lisboa, Notícias, 1997