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🏺 Tradição Portuguesa

O diabo na tradição portuguesa

O diabo no imaginário português: os nomes populares (Mafarrico, Tinhoso, Canhoto, Diacho), a Ponte da Misarela, Frei Gil de Santarém, Gil Vicente e os pactos na Inquisição.

4 min de leitura · Revisto em
Neste artigo
  1. Os nomes do diabo
  2. O diabo nas lendas
  3. O diabo no teatro: Gil Vicente
  4. Pactos: entre a lenda e a Inquisição
  5. Onde o diabo aparece
  6. Continue a ler
  7. Fontes

Em Portugal, o diabo raramente é chamado pelo nome. Diz-se Mafarrico, Tinhoso, Canhoto, Diacho, Demo. Aparece nas lendas de pontes, nos contos de pactos, no teatro de Gil Vicente e nos processos da Inquisição.

Esta página mostra como o povo português imaginou o diabo: os nomes, as histórias e o lugar que ocupou na vida de todos os dias.

Não é uma página de teologia nem de demonologia erudita. Para isso, veja as páginas sobre Lúcifer e a demonologia.

➜ Lúcifer

➜ Demonologia

Os nomes do diabo

Uma crença antiga, comum a muitos povos, diz que dizer o nome chama quem o tem. Por isso a língua portuguesa encheu-se de alcunhas e disfarces para o diabo. Muitas ainda hoje se usam, às vezes a brincar.

Nome O que diz o dicionário
Diabo Do latim diabolus, do grego diábolos, «o que divide, o caluniador»
Demo Do latim daemon; também «pessoa irrequieta, de mau génio»
Diacho Alteração de «diabo», para não o dizer inteiro
Mafarrico «Diabo»; também criança traquina; etimologia obscura
Tinhoso De «tinha» (doença de pele): o sujo, o repelente; também «o Diabo»
Canhoto Uso informal para «demónio»
Pé-de-cabra Nome informal do diabo, sobretudo no Brasil

Os nomes dizem muito. O diabo é o sujo (Tinhoso), o esquerdo (Canhoto — a esquerda era o lado mau), o travesso (Mafarrico). Quase nunca é o grande príncipe das trevas dos livros. É uma figura próxima, matreira e um pouco ridícula.

O diabo nas lendas

A Ponte da Misarela

A lenda de ponte mais famosa de Portugal é a da Ponte da Misarela, sobre o rio Rabagão, entre Vieira do Minho e Montalegre. A ponte é medieval, foi reconstruída no início do século XIX e está classificada como Imóvel de Interesse Público desde 1958.

Diz a lenda que um fugitivo, perseguido pela justiça, chegou ao abismo do rio e não tinha por onde passar. Chamou o diabo e prometeu-lhe a alma em troca de uma ponte. A ponte apareceu e o homem fugiu.

Anos depois, um padre soube do pacto. Foi ao sítio, fez o mesmo pedido ao diabo e, quando a ponte surgiu, benzeu-a com água benta. O diabo desapareceu, deixando no ar um cheiro a pez e resina. A ponte ficou.

É uma versão portuguesa de um tipo de lenda espalhado pela Europa: as pontes do diabo, construídas numa noite em troca de uma alma, e em que o diabo acaba enganado.

Frei Gil de Santarém, o «Fausto» português

Gil de Santarém foi um frade dominicano real. Nasceu por volta de 1185, em Vouzela, estudou medicina e morreu em Santarém em 1265. Foi beatificado em 1748.

A lenda conta que, em novo, teria feito pacto com o diabo e estudado magia em Toledo durante sete anos, antes de se arrepender e entrar na Ordem. Esta história só aparece cerca de três séculos depois da sua morte e é rejeitada pelos historiadores dominicanos. É um bom exemplo de como uma lenda se cola a uma pessoa real.

➜ Mefistófeles e a lenda de Fausto

O diabo no teatro: Gil Vicente

No Auto da Barca do Inferno (1517), Gil Vicente pôs o diabo em palco como arrais de uma barca que leva as almas para o Inferno. É trocista, irónico e bom argumentador. Vai desmascarando o fidalgo, o onzeneiro, o frade, o juiz.

O diabo de Gil Vicente não é um monstro. É um juiz de costumes que mostra os pecados de cada um — muito à maneira portuguesa.

Pactos: entre a lenda e a Inquisição

O pacto com o diabo está em muitas lendas e também nos documentos.

A Inquisição portuguesa, criada em 1536, julgava a feitiçaria sobretudo quando suspeitava de pacto com o Demónio ou de heresia. Os casos mais simples ficavam muitas vezes para os bispos.

Segundo o historiador José Pedro Paiva, os juízes portugueses tendiam a ser céticos: duvidavam que as bruxas voassem ou fossem a reuniões com o diabo, e viam muitas vezes as acusadas como enganadoras. Por isso Portugal não conheceu uma grande «caça às bruxas».

➜ As bruxas de Évora

O Livro de São Cipriano também ajudou a alimentar este imaginário, com histórias de demónios, conjuros e tesouros guardados.

➜ Os demónios no Livro de São Cipriano

Onde o diabo aparece

Na tradição popular, o diabo aparece de preferência em lugares e horas de passagem:

  • nas encruzilhadas;
  • à meia-noite e nas «horas abertas»;
  • nas pontes e nos rios;
  • na noite de São João.

Contra ele usavam-se o sinal da cruz, a água benta, as orações e amuletos como o signo-saimão.

➜ A encruzilhada

➜ O signo-saimão

Continue a ler

➜ Belzebu

➜ O trasgo e o fradinho da mão furada

➜ Bruxaria em Portugal

➜ Tradição portuguesa

Fontes

  • Dicionário Priberam: «mafarrico», «tinhoso», «canhoto», «diacho», «demo» — dicionario.priberam.org
  • «Ponte da Misarela», Wikipédia — pt.wikipedia.org
  • «Giles of Santarém», Wikipedia — en.wikipedia.org
  • «Auto da Barca do Inferno», Wikipédia — pt.wikipedia.org
  • José Pedro Paiva, Bruxaria e superstição num país sem «caça às bruxas» (1600–1774), Lisboa, Notícias, 1997

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