Numa época em que uma mordedura de cão raivoso era quase uma sentença de morte, havia na Península Ibérica homens e mulheres que diziam poder travar a doença com o sopro, a saliva ou o toque. Chamavam-lhes saludadores.
Não aprendiam o ofício: diziam ter nascido com ele. Esse «dom de nascença», marcado por sinais no corpo, era a base da sua fama e também o que mais preocupava a Igreja.
Esta página resume o que se sabe dos saludadores, separando o que dizem os documentos do que dizia a crença.
Ficha
| Nome | Saludador (do castelhano saludador); em Portugal também «curandeiro» ou «benzilhão» |
| Onde | Portugal e Espanha, com registos até ao País Basco e Aragão |
| Período mais documentado | Séculos XVI a XVIII; em algumas zonas até ao século XX |
| Especialidade | A raiva, em pessoas e em gado |
| Fonte do poder, segundo eles | Uma «virtude» divina recebida ao nascer |
Como se nascia saludador
Segundo a crença, recolhida em processos e em estudos etnográficos:
- o sétimo filho varão seguido, sem nenhuma filha pelo meio, nascia com a virtude (a variante feminina era a sétima filha seguida);
- o saludador tinha uma marca no corpo: uma cruz debaixo da língua ou no céu da boca, ou a «roda de Santa Catarina» no palato ou noutra parte do corpo.
Estas marcas funcionavam como prova pública: mostravam aos clientes, e por vezes às autoridades, que o poder vinha de Deus e não do diabo.
O que faziam
Os documentos descrevem vários métodos:
- soprar sobre a pessoa ou o animal mordido;
- tocar-lhe com saliva, ou dar-lhe pão que tinham mordido ou humedecido com a boca;
- fazer gestos com as mãos e dizer orações;
- em registos bascos, chupar a ferida e queimá-la com azeite quente.
Para provar a sua virtude, alguns faziam demonstrações com fogo: segurar um ferro em brasa, pisar brasas ou entrar num forno quente. A historiadora María Tausiet descreve estas provas como verdadeiros espetáculos públicos.
Em Espanha, alguns saludadores chegaram a ser chamados para «descobrir» bruxas numa aldeia, o que teve consequências graves para as mulheres apontadas.
A raiva: porque eram tão procurados
A raiva é uma doença viral mortal depois de surgirem os sintomas. Até ao fim do século XIX não havia qualquer tratamento eficaz. A primeira vacina foi usada por Louis Pasteur em 1885.
Antes disso, as pessoas tinham duas saídas: a oração aos santos protetores (como Santa Quitéria, cuja lenda conta que afastou dois cães raivosos com a voz) ou o saludador. É fácil perceber a sua fama.
Hoje: qualquer mordedura ou arranhão de animal, sobretudo de animal desconhecido ou selvagem, deve ser vista por um médico. Existe profilaxia eficaz, mas tem de ser feita a tempo.
Os saludadores em Portugal
Em Portugal, os saludadores aparecem sobretudo nos processos da Inquisição. O historiador Francisco Bethencourt deu-lhes lugar no título do seu estudo sobre a magia no século XVI: O Imaginário da Magia: feiticeiras, saludadores e nigromantes.
Timothy Walker, que estudou os curandeiros portugueses dos séculos XVII e XVIII, mostra que:
- «curandeiro» designava qualquer pessoa que tratava por meios populares;
- «saludador» designava quem afirmava curar por virtude divina;
- para o Santo Ofício, essa pretensão era mais grave do que usar remédios supersticiosos, porque tocava na teologia: só a Igreja podia reconhecer dons de Deus.
Um pequeno tratado inquisitorial de 1719, intitulado Dos Saludadores, ridicularizava precisamente essa pretensão.
A lei civil também vigiava: as Ordenações Filipinas (1603) puniam quem benzesse cães ou outros animais sem autorização do rei ou dos prelados, uma prática próxima da dos saludadores.
Críticos e defensores
Já no século XVI, o teólogo espanhol Pedro Ciruelo chamou aos saludadores «enganadores da gente simples». Mesmo assim, em Espanha, alguns bispos passaram licenças escritas a saludadores considerados de boa vida, no século XVII.
Esta ambiguidade (condenados por uns, autorizados por outros) explica por que razão a figura sobreviveu tanto tempo.
Continue a ler
➜ Feitiçaria portuguesa: especialistas populares
➜ Bruxo, curandeiro ou benzedeira?
Fontes
- María Tausiet, «Healing Virtue: Saludadores versus Witches in Early Modern Spain», Medical History, 53, supl. 29 (2009), pp. 40–63 — cambridge.org
- Timothy D. Walker, «The role and practices of the curandeiro and saludador in early modern Portuguese society», História, Ciências, Saúde – Manguinhos, 11 (supl. 1), 2004, pp. 223–237 — scielo.br
- Francisco Bethencourt, O Imaginário da Magia: feiticeiras, saludadores e nigromantes no século XVI, Lisboa, Universidade Aberta, 1987.
- «Hijo saludador. Salutadorea», Atlas Etnográfico de Vasconia — atlasetnografico.labayru.eus
- «Saludador», Dicionário Priberam — dicionario.priberam.org/saludador