Em setembro de 1930, os jornais de Lisboa noticiaram um caso estranho: um famoso mago inglês ter-se-ia atirado ao mar na Boca do Inferno, em Cascais, por desgosto de amor.
Era mentira. Aleister Crowley estava vivo e já tinha saído do país. O falso suicídio foi encenado com a ajuda de dois portugueses: o jornalista Augusto Ferreira Gomes e o poeta Fernando Pessoa.
A história está bem documentada, graças às cartas, aos jornais da época e ao diário de viagem de Crowley, estudado pelo historiador Marco Pasi.
Resumo
| Campo | Informação |
|---|---|
| Local | Boca do Inferno, Cascais |
| Data | Setembro de 1930 |
| Protagonistas | Aleister Crowley, Fernando Pessoa, Augusto Ferreira Gomes |
| Mulher envolvida | Hanni Larissa Jaeger, companheira de Crowley |
| Natureza | Falso suicídio (encenação) |
Como Pessoa e Crowley se conheceram
Tudo começou com astrologia. Em finais de 1929, Pessoa leu o primeiro volume das Confissões de Crowley e reparou que o horóscopo do autor estava errado. Escreveu à editora, a Mandrake Press, a corrigi-lo.
Crowley respondeu a agradecer. Seguiu-se uma correspondência regular entre os dois.
➜ Fernando Pessoa e o ocultismo
Setembro de 1930, dia a dia
| Data | O que aconteceu |
|---|---|
| 2 de setembro | Crowley chega a Lisboa no navio Alcantara; Pessoa espera-o no cais |
| 9 de setembro | Crowley visita o escritor Raul Leal, em Lisboa |
| 16–17 de setembro | Após uma discussão violenta num hotel do Estoril, Hanni Jaeger desaparece |
| 20 de setembro | Hanni sai de Portugal num navio para a Alemanha |
| 23 de setembro | Crowley sai de Lisboa de comboio e atravessa a fronteira |
| 25 de setembro | Crowley chega a Berlim; em Cascais, é «encontrada» a carta de despedida |
| 27 de setembro | O Diário de Notícias noticia o desaparecimento |
A encenação
Na tarde de 25 de setembro, Augusto Ferreira Gomes «descobriu» na Boca do Inferno uma carta presa por uma cigarreira. A carta, dirigida a Hanni, dizia:
Não posso viver sem ti.
A outra «Boca do Inferno» apanhar-me-á — não será tão quente como a tua.
Estava assinada «Tu Li Yu», nome de um sábio chinês que Crowley dizia ter sido numa vida anterior.
Mais tarde soube-se que a cigarreira nem sequer era de Crowley: pertencia a um cunhado de Pessoa.
O papel de Fernando Pessoa
Pessoa alimentou o mistério. Disse à polícia e aos jornalistas que tinha visto Crowley — ou o seu «fantasma» — em Lisboa no dia 24, quando o mago já tinha saído do país.
No início de outubro, o Notícias Ilustrado publicou uma reportagem sobre o caso. Pessoa começou também a escrever um policial em inglês sobre o episódio, que nunca terminou. Numa nota, calculava que a história podia render bom dinheiro nos Estados Unidos.
A polícia portuguesa confirmou que Crowley tinha passado a fronteira e o caso foi arquivado. Pouco depois, o mago reapareceu em Berlim, onde se preparava uma exposição das suas pinturas.
Porquê encenar um suicídio?
Não há uma única explicação. As hipóteses mais citadas são:
- publicidade para Crowley e para a exposição em Berlim;
- provocar Hanni Jaeger, que o tinha deixado;
- o gosto de Pessoa e de Crowley pela mistificação e pelo jogo literário.
O que é certo: não houve morte, nem magia, nem fenómeno sobrenatural. Foi uma encenação bem-sucedida, que enganou a imprensa durante alguns dias.
A Boca do Inferno, o lugar
A Boca do Inferno fica a cerca de 2 km a oeste do centro de Cascais. É uma gruta marinha cujo teto abateu, escavada pelo mar em rochas calcárias. Em dias de temporal, as ondas entram com violência e rebentam com grande estrondo — daí o nome.
Hoje é um miradouro turístico. As arribas são perigosas: não se aproxime da beira nem desça às rochas, sobretudo com mar agitado.
O que ficou da relação
Pessoa traduziu o Hino a Pã de Crowley, publicado na revista presença em 1931. A correspondência entre os dois terminou pouco depois, no final desse ano.
O episódio tornou-se uma das histórias mais curiosas da cultura portuguesa do século XX — e um exemplo perfeito de como uma lenda moderna nasce de uma encenação.
Continue a ler
➜ Aleister Crowley — vida e obra
➜ Thelema, a religião de Crowley
➜ Tradição Portuguesa — índice
Fontes
- Marco Pasi, «September 1930, Lisbon: Aleister Crowley's lost diary of his Portuguese trip», Pessoa Plural, n.º 1, 2012 — PDF
- «O Mistério da Boca do Inferno», Observador — observador.pt
- MultiPessoa, «Ocultismo» — PDF
- «Boca do Inferno», Cascais — cascais-portugal.com