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🏺 Tradição Portuguesa

Aleister Crowley e o mistério da Boca do Inferno

Em setembro de 1930, Aleister Crowley «desapareceu» na Boca do Inferno, em Cascais, com a ajuda de Fernando Pessoa. A história verdadeira, dia a dia.

4 min de leitura · Revisto em
Neste artigo
  1. Resumo
  2. Como Pessoa e Crowley se conheceram
  3. Setembro de 1930, dia a dia
  4. A encenação
  5. O papel de Fernando Pessoa
  6. Porquê encenar um suicídio?
  7. A Boca do Inferno, o lugar
  8. O que ficou da relação
  9. Continue a ler
  10. Fontes

Em setembro de 1930, os jornais de Lisboa noticiaram um caso estranho: um famoso mago inglês ter-se-ia atirado ao mar na Boca do Inferno, em Cascais, por desgosto de amor.

Era mentira. Aleister Crowley estava vivo e já tinha saído do país. O falso suicídio foi encenado com a ajuda de dois portugueses: o jornalista Augusto Ferreira Gomes e o poeta Fernando Pessoa.

A história está bem documentada, graças às cartas, aos jornais da época e ao diário de viagem de Crowley, estudado pelo historiador Marco Pasi.

Resumo

Campo Informação
Local Boca do Inferno, Cascais
Data Setembro de 1930
Protagonistas Aleister Crowley, Fernando Pessoa, Augusto Ferreira Gomes
Mulher envolvida Hanni Larissa Jaeger, companheira de Crowley
Natureza Falso suicídio (encenação)

Como Pessoa e Crowley se conheceram

Tudo começou com astrologia. Em finais de 1929, Pessoa leu o primeiro volume das Confissões de Crowley e reparou que o horóscopo do autor estava errado. Escreveu à editora, a Mandrake Press, a corrigi-lo.

Crowley respondeu a agradecer. Seguiu-se uma correspondência regular entre os dois.

➜ Fernando Pessoa e o ocultismo

Setembro de 1930, dia a dia

Data O que aconteceu
2 de setembro Crowley chega a Lisboa no navio Alcantara; Pessoa espera-o no cais
9 de setembro Crowley visita o escritor Raul Leal, em Lisboa
16–17 de setembro Após uma discussão violenta num hotel do Estoril, Hanni Jaeger desaparece
20 de setembro Hanni sai de Portugal num navio para a Alemanha
23 de setembro Crowley sai de Lisboa de comboio e atravessa a fronteira
25 de setembro Crowley chega a Berlim; em Cascais, é «encontrada» a carta de despedida
27 de setembro O Diário de Notícias noticia o desaparecimento

A encenação

Na tarde de 25 de setembro, Augusto Ferreira Gomes «descobriu» na Boca do Inferno uma carta presa por uma cigarreira. A carta, dirigida a Hanni, dizia:

Não posso viver sem ti.
A outra «Boca do Inferno» apanhar-me-á — não será tão quente como a tua.

Estava assinada «Tu Li Yu», nome de um sábio chinês que Crowley dizia ter sido numa vida anterior.

Mais tarde soube-se que a cigarreira nem sequer era de Crowley: pertencia a um cunhado de Pessoa.

O papel de Fernando Pessoa

Pessoa alimentou o mistério. Disse à polícia e aos jornalistas que tinha visto Crowley — ou o seu «fantasma» — em Lisboa no dia 24, quando o mago já tinha saído do país.

No início de outubro, o Notícias Ilustrado publicou uma reportagem sobre o caso. Pessoa começou também a escrever um policial em inglês sobre o episódio, que nunca terminou. Numa nota, calculava que a história podia render bom dinheiro nos Estados Unidos.

A polícia portuguesa confirmou que Crowley tinha passado a fronteira e o caso foi arquivado. Pouco depois, o mago reapareceu em Berlim, onde se preparava uma exposição das suas pinturas.

Porquê encenar um suicídio?

Não há uma única explicação. As hipóteses mais citadas são:

  • publicidade para Crowley e para a exposição em Berlim;
  • provocar Hanni Jaeger, que o tinha deixado;
  • o gosto de Pessoa e de Crowley pela mistificação e pelo jogo literário.

O que é certo: não houve morte, nem magia, nem fenómeno sobrenatural. Foi uma encenação bem-sucedida, que enganou a imprensa durante alguns dias.

A Boca do Inferno, o lugar

A Boca do Inferno fica a cerca de 2 km a oeste do centro de Cascais. É uma gruta marinha cujo teto abateu, escavada pelo mar em rochas calcárias. Em dias de temporal, as ondas entram com violência e rebentam com grande estrondo — daí o nome.

Hoje é um miradouro turístico. As arribas são perigosas: não se aproxime da beira nem desça às rochas, sobretudo com mar agitado.

O que ficou da relação

Pessoa traduziu o Hino a Pã de Crowley, publicado na revista presença em 1931. A correspondência entre os dois terminou pouco depois, no final desse ano.

O episódio tornou-se uma das histórias mais curiosas da cultura portuguesa do século XX — e um exemplo perfeito de como uma lenda moderna nasce de uma encenação.

Continue a ler

➜ Aleister Crowley — vida e obra

➜ Thelema, a religião de Crowley

➜ O Livro da Lei

➜ Tradição Portuguesa — índice

Fontes

  • Marco Pasi, «September 1930, Lisbon: Aleister Crowley's lost diary of his Portuguese trip», Pessoa Plural, n.º 1, 2012 — PDF
  • «O Mistério da Boca do Inferno», Observador — observador.pt
  • MultiPessoa, «Ocultismo» — PDF
  • «Boca do Inferno», Cascais — cascais-portugal.com

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