Saltar para o conteúdo

🏺 Tradição Portuguesa

A queimada galega e o «conxuro»: tradição antiga ou invenção moderna?

A queimada galega e o seu «conxuro»: o que diz a história, porque não é celta, quem escreveu o esconjuro em 1967 e como nasceu o ritual moderno.

3 min de leitura · Revisto em
Neste artigo
  1. Ficha
  2. A bebida: o que se sabe
  3. O conxuro: um texto de 1967
  4. Porque parece tão antigo
  5. Segurança
  6. Continue a ler
  7. Fontes

Uma panela de barro, aguardente a arder com chama azul, as luzes apagadas e alguém a recitar um esconjuro contra «mouchos, coruxas, sapos e bruxas». É a queimada, um dos rituais mais conhecidos da Galiza — e cada vez mais visto também no Norte de Portugal.

Muita gente julga que é uma tradição celta milenar. Os estudos dizem outra coisa: a bebida tem raízes medievais e populares, mas o ritual e o texto do esconjuro são do século XX.

É um bom exemplo de como uma tradição inventada pode ganhar, em poucas décadas, o ar de algo antiquíssimo.

Ficha

Campo Informação
Nome Queimada (galego); o texto chama-se conxuro ou esconxuro
Região Galiza (Espanha); difundida no Norte de Portugal
A bebida Aguardente, açúcar, grãos de café, casca de limão ou laranja, queimados
Primeiras referências escritas Início do séc. XX
O conxuro Escrito por Mariano Marcos Abalo, Vigo, 1967
Tipo Costume festivo moderno com linguagem de magia popular

A bebida: o que se sabe

A queimada faz-se com aguardente de bagaço, açúcar, grãos de café e casca de citrinos. Aquece-se, pega-se fogo ao álcool e mexe-se com uma concha até a chama baixar.

Porque não pode ser celta

Em 1972, o professor Carlos Alonso del Real lembrou um facto simples: sem alambique não há aguardente. E o alambique chegou à Península Ibérica pela via árabe, generalizando-se só na Idade Média (séculos XII–XIII). Os povos da Idade do Ferro não podiam, portanto, fazer queimada.

As primeiras notícias

As referências escritas que se conhecem são recentes:

  • 1916: aparece com o nome de calloubada na revista Vida Gallega;
  • 1928: um dicionário regista-a como café com aguardente queimada;
  • 1945: fala-se já de um «rito da queimada» em Portomarín;
  • anos 1950: o costume espalha-se em grupos de montanha e entre galegos emigrados.

O antropólogo Xosé Manuel González Reboredo situa a origem do costume atual por volta de 1950, sobretudo entre galegos fora da terra, que o transformaram num símbolo de identidade.

O conxuro: um texto de 1967

O famoso esconjuro não é popular nem antigo. Foi escrito por Mariano Marcos Abalo, em Vigo, em 1967, para uma festa de jogos florais.

Em 1974 o autor acrescentou referências a Satanás e Belzebu e começou a representá-lo em público. Em 2001 registou a propriedade intelectual do texto. Por isso não o transcrevemos aqui.

O texto imita a linguagem das benzeduras e esconjuros populares: enumera bruxas, aves noturnas, demónios e males, e pede que o fogo os afaste. Esse «ar de antigo» explica o seu sucesso.

➜ Benzeduras portuguesas

Porque parece tão antigo

A queimada juntou elementos que têm raízes antigas na cultura galaico-portuguesa:

  • a crença nas meigas e nas bruxas;
  • os esconjuros falados contra o mal;
  • o fogo como elemento purificador;
  • o gosto galego pelo mistério, também visível no Ciprianillo, o livro galego de tesouros atribuído a São Cipriano.

➜ O Ciprianillo galego

➜ O fogo na magia

Na tradição moderna, diz-se que a queimada afasta os maus espíritos e protege quem a bebe. É uma crença festiva, sem base histórica antiga.

Segurança

Álcool a arder é perigoso. Se assistir ou fizer uma queimada:

  • use recipiente de barro próprio, estável, sobre superfície não inflamável;
  • faça-a ao ar livre ou em espaço amplo, longe de cortinas e tecidos;
  • nunca acrescente aguardente à chama: pode provocar uma labareda;
  • mantenha crianças e animais afastados e tenha uma tampa à mão para abafar;
  • o álcool não perde todo o teor ao arder; beba com moderação e nunca antes de conduzir.

➜ Como usar velas com segurança

Continue a ler

➜ Tradição portuguesa: índice

➜ O trasgo e os seres domésticos do folclore galego e português

➜ Os caretos e as máscaras do Entrudo

Fontes

  • Wikipedia (galego), «Queimada»: https://gl.wikipedia.org/wiki/Queimada
  • Wikipedia (espanhol), «Queimada»: https://es.wikipedia.org/wiki/Queimada

A minha nota

Escreva aqui as suas anotações. Ficam guardadas só neste dispositivo — não são enviadas para nenhum servidor.

Continue a explorar

Ver tudo em Tradição Portuguesa ›