Uma panela de barro, aguardente a arder com chama azul, as luzes apagadas e alguém a recitar um esconjuro contra «mouchos, coruxas, sapos e bruxas». É a queimada, um dos rituais mais conhecidos da Galiza — e cada vez mais visto também no Norte de Portugal.
Muita gente julga que é uma tradição celta milenar. Os estudos dizem outra coisa: a bebida tem raízes medievais e populares, mas o ritual e o texto do esconjuro são do século XX.
É um bom exemplo de como uma tradição inventada pode ganhar, em poucas décadas, o ar de algo antiquíssimo.
Ficha
| Campo | Informação |
|---|---|
| Nome | Queimada (galego); o texto chama-se conxuro ou esconxuro |
| Região | Galiza (Espanha); difundida no Norte de Portugal |
| A bebida | Aguardente, açúcar, grãos de café, casca de limão ou laranja, queimados |
| Primeiras referências escritas | Início do séc. XX |
| O conxuro | Escrito por Mariano Marcos Abalo, Vigo, 1967 |
| Tipo | Costume festivo moderno com linguagem de magia popular |
A bebida: o que se sabe
A queimada faz-se com aguardente de bagaço, açúcar, grãos de café e casca de citrinos. Aquece-se, pega-se fogo ao álcool e mexe-se com uma concha até a chama baixar.
Porque não pode ser celta
Em 1972, o professor Carlos Alonso del Real lembrou um facto simples: sem alambique não há aguardente. E o alambique chegou à Península Ibérica pela via árabe, generalizando-se só na Idade Média (séculos XII–XIII). Os povos da Idade do Ferro não podiam, portanto, fazer queimada.
As primeiras notícias
As referências escritas que se conhecem são recentes:
- 1916: aparece com o nome de calloubada na revista Vida Gallega;
- 1928: um dicionário regista-a como café com aguardente queimada;
- 1945: fala-se já de um «rito da queimada» em Portomarín;
- anos 1950: o costume espalha-se em grupos de montanha e entre galegos emigrados.
O antropólogo Xosé Manuel González Reboredo situa a origem do costume atual por volta de 1950, sobretudo entre galegos fora da terra, que o transformaram num símbolo de identidade.
O conxuro: um texto de 1967
O famoso esconjuro não é popular nem antigo. Foi escrito por Mariano Marcos Abalo, em Vigo, em 1967, para uma festa de jogos florais.
Em 1974 o autor acrescentou referências a Satanás e Belzebu e começou a representá-lo em público. Em 2001 registou a propriedade intelectual do texto. Por isso não o transcrevemos aqui.
O texto imita a linguagem das benzeduras e esconjuros populares: enumera bruxas, aves noturnas, demónios e males, e pede que o fogo os afaste. Esse «ar de antigo» explica o seu sucesso.
Porque parece tão antigo
A queimada juntou elementos que têm raízes antigas na cultura galaico-portuguesa:
- a crença nas meigas e nas bruxas;
- os esconjuros falados contra o mal;
- o fogo como elemento purificador;
- o gosto galego pelo mistério, também visível no Ciprianillo, o livro galego de tesouros atribuído a São Cipriano.
Na tradição moderna, diz-se que a queimada afasta os maus espíritos e protege quem a bebe. É uma crença festiva, sem base histórica antiga.
Segurança
Álcool a arder é perigoso. Se assistir ou fizer uma queimada:
- use recipiente de barro próprio, estável, sobre superfície não inflamável;
- faça-a ao ar livre ou em espaço amplo, longe de cortinas e tecidos;
- nunca acrescente aguardente à chama: pode provocar uma labareda;
- mantenha crianças e animais afastados e tenha uma tampa à mão para abafar;
- o álcool não perde todo o teor ao arder; beba com moderação e nunca antes de conduzir.
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Fontes
- Wikipedia (galego), «Queimada»: https://gl.wikipedia.org/wiki/Queimada
- Wikipedia (espanhol), «Queimada»: https://es.wikipedia.org/wiki/Queimada