O Livro da Lei — em latim Liber AL vel Legis — é o texto central da Thelema, a religião fundada pelo ocultista inglês Aleister Crowley (1875–1947).
Crowley escreveu-o no Cairo, em três dias de abril de 1904. Afirmou que o texto lhe foi ditado por uma voz, a de uma entidade chamada Aiwass. Para os thelemitas, é um livro revelado. Para os historiadores, é uma obra de Crowley, escrita num momento muito particular da sua vida.
Nesta página contamos a história do livro e explicamos o que contém. Não transcrevemos o texto: citamos apenas expressões curtas.
Ficha do livro
| Campo | Informação |
|---|---|
| Título | O Livro da Lei |
| Nome original | Liber AL vel Legis (antes Liber L vel Legis) |
| Período | Escrito a 8, 9 e 10 de abril de 1904 |
| Origem | Cairo, Egito |
| Autoria | Aleister Crowley; segundo ele, ditado por Aiwass |
| Idioma | Inglês |
| Tipo | Texto sagrado da Thelema |
Como nasceu: o relato de Crowley
Em 1904, Crowley estava em lua de mel no Cairo com a mulher, Rose Edith Kelly. Segundo o seu relato, Rose começou a entrar em estados de transe e a dizer-lhe que o deus Hórus esperava por ele.
No Museu de Bulaq, Rose apontou para uma pequena estela de madeira pintada, de um sacerdote chamado Ankh-ef-en-Khonsu. O número de inventário da peça era 666 — o número da Besta do Apocalipse, com que Crowley se identificava desde jovem. A peça ficou conhecida entre os thelemitas como a «Estela da Revelação».
Depois, a 8, 9 e 10 de abril, ao meio-dia, Crowley sentou-se durante uma hora em cada dia e escreveu o que dizia ouvir. Cada dia deu um capítulo.
É o relato do próprio Crowley. Não há forma de o confirmar ou desmentir; é uma questão de crença.
O que contém
O livro tem três capítulos, cada um com a «voz» de uma divindade inspirada no Egito antigo:
| Capítulo | Voz |
|---|---|
| I | Nuit, a deusa do céu noturno, o espaço infinito |
| II | Hadit, o ponto infinitamente pequeno, complemento de Nuit |
| III | Ra-Hoor-Khuit, forma de Hórus, deus guerreiro |
O texto é poético, obscuro e por vezes violento. Anuncia o início de uma nova era, o «Éon de Hórus», que substituiria as religiões anteriores.
As expressões mais citadas são curtas:
- «Faz o que quiseres será toda a Lei» — a máxima central da Thelema;
- «O amor é a lei, amor sob vontade»;
- «Todo o homem e toda a mulher é uma estrela».
«Faz o que quiseres» não significa fazer tudo o que apetece. Para Crowley, significava descobrir e seguir a verdadeira vontade de cada um. A palavra thelema é grega e quer dizer precisamente «vontade».
➜ Thelema
A história do livro depois de 1904
- Crowley rejeitou o livro ao início e chegou a perder o manuscrito durante alguns anos.
- Foi publicado pela primeira vez em 1909, numa coleção de três volumes intitulada ΘΕΛΗΜΑ.
- Em 1912, saiu um fac-símile do manuscrito na revista The Equinox.
- Em 1921, o título passou de Liber L para Liber AL.
- Em 1925, em Túnis, Crowley escreveu um breve «Comentário», impresso em apenas 11 exemplares.
- O manuscrito original perdeu-se depois da morte de Crowley e foi reencontrado em 1984, numa cave em Berkeley, na Califórnia.
A estela original passou do Museu de Bulaq para o Museu Egípcio do Cairo.
Porque não transcrevemos o texto
Os direitos sobre as obras de Crowley são reclamados pela Ordo Templi Orientis (O.T.O.), e o seu estatuto varia de país para país. Por prudência, o Grimório.pt não reproduz o texto e cita apenas expressões curtas.
Influência
O Livro da Lei está na base da A∴A∴, a ordem fundada por Crowley, e da O.T.O., que adotou a Thelema. Através da obra de Crowley, as suas ideias chegaram à magia do caos, à Wicca inicial e a muita da cultura pop do século XX, da música rock ao cinema.
Crowley também passou por Portugal: esteve em Lisboa em 1930, onde encenou o seu falso desaparecimento na Boca do Inferno, com a ajuda de Fernando Pessoa.
➜ Crowley em Lisboa e a Boca do Inferno
Uma nota crítica
Muitos leitores acham o livro inspirador. Outros criticam passagens de desprezo por outras religiões e pelos fracos. Crowley foi uma figura muito controversa, e o livro deve ser lido com espírito crítico.
Continue a ler
➜ Thelema
➜ Fernando Pessoa e o ocultismo
Fontes
- «The Book of the Law», Wikipedia — en.wikipedia.org
- Aleister Crowley, The Equinox of the Gods, 1936 (relato da receção do livro).
- Lawrence Sutin, Do What Thou Wilt: A Life of Aleister Crowley, St. Martin's Press, 2000.
- Richard Kaczynski, Perdurabo: The Life of Aleister Crowley, North Atlantic Books, ed. revista 2010.