Fernando Pessoa (1888–1935) é o maior poeta português do século XX. É também, talvez, o escritor português que mais seriamente se interessou pelo oculto.
Fez centenas de horóscopos, traduziu livros de teosofia, praticou a escrita automática e escreveu poemas iniciáticos. Mas sempre com a mesma ambiguidade: acreditava, duvidava e fingia, tudo ao mesmo tempo.
Esta página segue os documentos: as cartas e notas do próprio Pessoa e os estudos sobre o seu espólio.
Ficha
| Campo | Informação |
|---|---|
| Nome | Fernando António Nogueira Pessoa |
| Nascimento | 13 de junho de 1888, Lisboa |
| Morte | 30 de novembro de 1935, Lisboa |
| Interesses esotéricos | Astrologia, teosofia, rosacrucianismo, escrita automática |
| Heterónimo astrólogo | Raphael Baldaya |
| Obra esotérica central | Mensagem (1934) |
A astrologia: centenas de horóscopos
A astrologia foi a prática oculta mais constante de Pessoa. O seu espólio guarda mais de 300 mapas astrais, centenas de fragmentos teóricos e pedidos de datas de nascimento a amigos.
Fez horóscopos de amigos como Mário de Sá-Carneiro e Raul Leal, e de figuras históricas, como Shakespeare e D. Sebastião. Chegou a anunciar-se como astrólogo, com preços diferentes consoante o tipo de leitura.
Criou até um heterónimo para isso: Raphael Baldaya, autor de projetos de um Tratado e de um Manual de Astrologia que nunca terminou.
Os heterónimos também têm horóscopo
Na carta a Adolfo Casais Monteiro de 13 de janeiro de 1935, Pessoa dá datas de nascimento aos heterónimos:
| Heterónimo | Nascimento indicado por Pessoa |
|---|---|
| Ricardo Reis | 1887, Porto |
| Alberto Caeiro | 1889, Lisboa (morto em 1915) |
| Álvaro de Campos | 15 de outubro de 1890, Tavira, 13h30 |
Os estudiosos notaram que Pessoa construiu estas personalidades também com critérios astrológicos, dando-lhes signos e elementos diferentes. A astrologia servia-lhe como ferramenta de criação literária, não só como crença.
A teosofia: tradutor de Blavatsky
Entre 1915 e 1916, Pessoa traduziu para a Livraria Clássica Editora vários livros teosóficos:
- A Voz do Silêncio, de Helena Blavatsky;
- Os Ideais da Teosofia, de Annie Besant;
- Compêndio de Teosofia, A Clarividência e Auxiliares Invisíveis, de C. W. Leadbeater;
- Luz sobre o Caminho, de Mabel Collins.
Foi um trabalho pago, mas o contacto com estas ideias marcou-o. A teosofia deu-lhe uma visão de «mundos superiores» e de graus de iniciação que reaparece na sua poesia.
➜ Teosofia
A escrita automática (1916)
Numa carta à tia Anica, de 24 de junho de 1916, Pessoa conta que em fins de março desse ano começou, «de repente», a fazer escrita automática.
A primeira assinatura foi a de um tio-avô já falecido, Manuel Gualdino da Cunha. Seguiram-se outras «entidades», sobretudo Henry More (filósofo inglês do século XVII) e um tal Wardour. Na mesma carta, Pessoa diz ter começado a ter «visão etérica».
Mais tarde, num ensaio de cerca de 1919, pôs estas experiências em dúvida e admitiu explicações como a autossugestão. É um bom exemplo da sua atitude: vive a experiência e depois analisa-a friamente.
Rosa-Cruz e a «Ordem Templária de Portugal»
Pessoa escreveu poemas de tema rosacruciano, como No Túmulo de Christian Rosencreutz, e o poema Eros e Psique (publicado na revista presença em 1934). Este último abre com uma epígrafe de um suposto ritual da «Ordem Templária de Portugal».
Na nota biográfica de 30 de março de 1935, escreveu que era:
Iniciado, por comunicação directa de Mestre a Discípulo, nos três graus menores da (aparentemente extinta) Ordem Templária de Portugal.
Mas na carta a Casais Monteiro, dois meses antes, afirmara que não pertencia a nenhuma ordem iniciática. O próprio Pessoa a dizia «aparentemente extinta», e a sua existência real continua por esclarecer.
Na mesma carta resume a sua crença: acredita em mundos superiores ao nosso e descreve três caminhos para os alcançar — o mágico, o místico e o alquímico.
A «Mensagem» (1934)
A Mensagem, publicada a 1 de dezembro de 1934, foi o único livro em português que Pessoa publicou em vida. Recebeu um prémio de segunda categoria do Secretariado de Propaganda Nacional.
É uma obra de nacionalismo místico. Tem três partes — «Brasão», «Mar Português» e «O Encoberto» — e termina com a esperança de um Quinto Império espiritual. Na parte final há poemas dedicados ao Bandarra e a Vieira.
A nota biográfica de 1935 confirma a intenção: Pessoa queria um «sebastianismo novo».
➜ O Sebastianismo e as Trovas do Bandarra
O encontro com Aleister Crowley
Em 1929, Pessoa corrigiu por carta o horóscopo que o mago inglês Aleister Crowley publicara na sua autobiografia. Daí nasceu uma correspondência e, em 1930, a visita de Crowley a Lisboa, com o célebre falso suicídio na Boca do Inferno.
Pessoa traduziu também o Hino a Pã de Crowley, publicado na presença em 1931.
➜ Aleister Crowley na Boca do Inferno
Crente ou fingidor?
Não há uma resposta simples. Pessoa levou a astrologia a sério durante toda a vida e escreveu com convicção sobre iniciação. Ao mesmo tempo, era o poeta que escreveu que «o poeta é um fingidor».
O mais seguro é dizer que o oculto foi, para ele, uma forma de procurar sentido — e uma matéria-prima para a obra.
Continue a ler
➜ Tradição Portuguesa — índice
➜ A Ordem da Aurora Dourada (Golden Dawn)
Fontes
- Fernando Pessoa, carta a Adolfo Casais Monteiro, 13 de janeiro de 1935 — Casa Fernando Pessoa
- Fernando Pessoa, «Nota biográfica», 30 de março de 1935 — texto
- Projeto Modernismo, entradas «Astrologia», «Mediunidade» e «Traduções» — modernismo.pt
- «Carta à Tia Anica», Fénix — revistafenix.pt
- «Mensagem», Infopédia — infopedia.pt