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🏺 Tradição Portuguesa

Ensalmos e ensalmadores

O que são os ensalmos, as antigas fórmulas de cura por palavras: origem da palavra, como se constroem, o que diziam as Ordenações e a Inquisição e o que dizem os estudos.

4 min de leitura · Revisto em
Neste artigo
  1. A palavra
  2. Como se constrói um ensalmo
  3. A lei: as Ordenações
  4. A Inquisição e os ensalmadores
  5. Os ensalmos hoje
  6. Continue a ler
  7. Fontes

Um ensalmo é uma reza de cura: uma fórmula dita sobre um doente, uma ferida ou um animal para «tirar» o mal. Quem a dizia era o ensalmador ou ensalmeiro.

A palavra quase desapareceu da fala comum, mas a prática não. Muitas das rezas que as benzedeiras ainda dizem para o cobrão, o mau-olhado ou a dor de dentes são ensalmos antigos.

Esta página explica de onde vem o ensalmo, como é construído e como foi visto pela lei e pela Igreja. Não ensina fórmulas para curar doenças: nenhuma reza substitui o médico.

A palavra

Segundo o Dicionário Priberam, ensalmo vem de uma alteração de salmo. Define-o como o «conjunto de orações e benzeduras com que se pretende curar uma doença».

No plural, «ensalmos» ganhou também um sentido pejorativo: charlatanismo, bruxaria. Essa dupla leitura resume bem a história: para uns, oração; para outros, superstição.

Palavra Sentido
Ensalmo Reza ou fórmula de cura
Ensalmar Tratar alguém com ensalmos
Ensalmador / ensalmeiro Quem diz ensalmos
Talhar Na linguagem popular, «cortar» o mal com a reza e um gesto

Como se constrói um ensalmo

Os ensalmos portugueses repetem alguns modelos muito antigos.

1. A pequena história

Muitos começam com uma cena curta: Jesus, Nossa Senhora ou um santo vão por um caminho, encontram alguém doente e curam-no. Depois, a fórmula aplica a mesma cura ao doente presente.

Os estudiosos chamam a esta técnica historiola: uma pequena narrativa mítica que serve de modelo para o efeito desejado. É muito anterior ao cristianismo. Um exemplo famoso são os Encantamentos de Merseburgo, fórmulas germânicas num manuscrito do século IX, em que um deus cura a pata de um cavalo com as palavras «osso com osso, sangue com sangue». Em versões posteriores, os deuses foram substituídos por Jesus ou por São Pedro.

2. A lista de males

Outros ensalmos enumeram todos os «bichos» ou males possíveis, para não deixar nenhum de fora. Numa recolha de Lousada, publicada pelo jornal O Louzadense, o ensalmo para «talhar o bicho» começa assim (texto popular):

Se tu és bicho ou bichão,
cobra ou cobrão…

3. A ordem e a comparação

Muitos terminam com uma ordem ao mal («vai-te», «seca», «corta-te») e com uma comparação: assim como algo desaparece ou seca, também o mal há de secar.

4. A moldura católica

Quase sempre, o ensalmo acaba com orações católicas: um Pai-Nosso, uma Ave-Maria, uma invocação da Santíssima Trindade. Para quem benzia, isto mostrava que a cura vinha de Deus, não da pessoa.

➜ Talhar o cobrão

➜ Benzedeiras e rezadeiras

A lei: as Ordenações

As leis gerais do reino também se ocuparam destas práticas. O Livro V das Ordenações Filipinas (1603), o código penal português durante mais de dois séculos, tem logo a seguir ao título «Dos feiticeiros» um título contra quem benze cães, bichos ou outros animais sem autorização do rei ou dos prelados.

A ideia era clara: benzer era função da Igreja. Quem o fazia por conta própria, sobretudo com fins de cura, entrava num terreno vigiado. As penas previstas iam dos açoites e multas ao degredo.

A Inquisição e os ensalmadores

Entre os séculos XVI e XVIII, ensalmadores, benzedeiras e curandeiros aparecem com frequência nos processos da Inquisição portuguesa.

Os historiadores mostram que o problema, para os inquisidores, não era rezar. Era:

  • usar palavras ou gestos não aprovados pela Igreja;
  • misturar orações com objetos considerados supersticiosos;
  • afirmar ter uma virtude de cura dada por Deus.

O historiador Timothy Walker estudou em detalhe a perseguição aos curandeiros no século XVIII, quando médicos formados trabalhavam também como colaboradores do Santo Ofício. José Pedro Paiva e Francisco Bethencourt reconstituíram, a partir dos processos, o mundo destes especialistas populares.

➜ A Inquisição em Portugal

➜ Os saludadores

Os ensalmos hoje

Muitos ensalmos sobreviveram na tradição oral, sobretudo no Norte, no interior e nas ilhas. Etnógrafos e investigadores locais continuam a recolhê-los, porque são também património linguístico: guardam palavras, rimas e crenças antigas.

Ler um ensalmo como documento histórico é interessante. Usá-lo para tratar uma doença é outra coisa: zona, feridas infetadas, dores fortes ou febre exigem médico.

Continue a ler

➜ Tradição portuguesa: índice

➜ Feitiçaria portuguesa

➜ Espinhela caída e bucho virado

Fontes

  • «Ensalmo», Dicionário Priberam da Língua Portuguesa — dicionario.priberam.org/ensalmo
  • Timothy D. Walker, Médicos, medicina popular e Inquisição: a repressão das curas mágicas em Portugal durante o Iluminismo, Rio de Janeiro/Lisboa, Fiocruz/ICS, 2013.
  • Hugo Otávio Tavares Vilela, «Ordenações Filipinas e Código Criminal do Império do Brasil (1830)», Revista Jurídica Luso-Brasileira, 2017 — cidp.pt
  • «As superstições e os ensalmos», O Louzadense, 28/05/2020 — olouzadense.pt
  • «Merseburg charms», Wikipedia — en.wikipedia.org

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