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🏺 Tradição Portuguesa

Tesouros encantados nas lendas portuguesas

Tesouros encantados nas lendas portuguesas: o ouro que vira carvão, as listas do Livro de São Cipriano, o Castelo de Mau Vizinho e o que diz a lei sobre achados.

6 min de leitura · Revisto em
Neste artigo
  1. O que é um «tesouro encantado»
  2. Um exemplo bem documentado: as listas do Abade de Baçal
  3. Do conto ao «roteiro»: o Livro de São Cipriano
  4. Um caso português: o Castelo de Mau Vizinho
  5. Porque é que o ouro vira carvão
  6. A realidade: buracos, monumentos estragados e a lei
  7. Continue a ler
  8. Fontes

Em quase todas as aldeias de Portugal há um penedo, uma fonte ou um castro onde «está um tesouro». Quase sempre foi deixado pelos mouros, quase sempre está encantado e quase sempre ninguém o conseguiu tirar.

Esta página trata dos tesouros em si: como as lendas os descrevem, como os livros de São Cipriano os transformaram em listas de lugares e o que aconteceu quando as pessoas foram de facto cavar.

As mouras que os guardam têm página própria, tal como o Ciprianillo galego. Aqui não repetimos essas histórias.

➜ As mouras encantadas

➜ O Ciprianillo galego

O que é um «tesouro encantado»

Na tradição popular, um tesouro encantado não é apenas ouro enterrado. É ouro preso por um encanto: só aparece a quem cumprir certas condições, no dia certo, com as palavras certas.

Os motivos repetem-se de norte a sul:

  • Panelas de ouro enterradas junto a fontes, penedos ou capelas.
  • A galinha com pintainhos de ouro, que aparece e desaparece.
  • Um «menino de ouro» ou figuras de ouro escondidas.
  • Carvão, figos ou pedras que, se guardados com fé e segredo, se transformariam em ouro (ou o contrário).
  • Um guardião: moura, serpente, cavaleiro, cabra ou animal estranho.

O investigador Alexandre Parafita, no seu estudo sobre os mouros míticos de Trás-os-Montes, identifica nelas momentos «propícios» (entre eles o São João), atitudes exigidas (coragem e segredo) e a presença do Livro de São Cipriano como saber mágico associado.

Isto é folclore. São narrativas, não relatos de achados.

➜ Noite de São João em Portugal

Um exemplo bem documentado: as listas do Abade de Baçal

O padre Francisco Manuel Alves, o Abade de Baçal, registou nas suas Memórias Arqueológico-Históricas do Distrito de Bragança os sítios de tesouros e encantos que o povo apontava em cada freguesia.

Só para o concelho de Mirandela, o município cita, a partir dele, lugares como:

Lugar O que se contava
Fraga da Moura (Aguieiras) Uma gruta com encanto
Fonte do Paço (Navalho) Panelas de ouro… e outras de peste
Eixido (Navalho) Um menino de ouro
São Brás (Torre de D. Chama) Duas panelas
Alto da Marra (Vale de Gouvinhas) Um cavaleiro gigante de cavalo branco, à meia-noite

O pormenor das «panelas de peste» é típico: ao lado do ouro estaria enterrado um mal. Quem abrisse a panela errada soltava a doença sobre a terra. Era uma forma de pôr medo a quem cavasse sem saber.

Do conto ao «roteiro»: o Livro de São Cipriano

A grande mudança deu-se quando estas crenças passaram a ser impressas. As edições portuguesas do Livro de São Cipriano trazem um capítulo inteiro sobre o «Desencanto dos Tesouros».

Segundo o índice de uma edição atual do Grande Livro de São Cipriano, esse capítulo inclui:

  • uma «oração e esconjuração para se desencantarem os tesouros»;
  • os «lugares onde existem os encantos»;
  • mais à frente, os «Tesouros da Galiza», um «triângulo para o desencanto» e uma «relação dos tesouros e encantos».

Ou seja: o livro funciona como um roteiro, uma lista de sítios concretos com indicações do tipo «ao nascer do Sol, debaixo do penedo, a tantos passos do castelo». Descrevemos o conteúdo; não reproduzimos fórmulas nem há qualquer prova de que alguém tenha encontrado algo com elas.

➜ Estrutura do Livro de São Cipriano

Um caso português: o Castelo de Mau Vizinho

O investigador galego Modesto Rodríguez Figueiredo estudou, num artigo publicado em 1973 na revista portuguesa Trabalhos de Antropologia e Etnologia, uma lista de tesouros do Libro de San Ciprián que inclui sítios em Portugal.

Um deles aparece várias vezes: o Castelo de Mau Vizinho. A lista promete ouro, prata e moedas em vários pontos do lugar, com distâncias em passos e marcas na pedra, como «uma mão pintada».

O que se sabe do sítio é outra coisa:

  • Fica na freguesia de Cimo de Vila da Castanheira, concelho de Chaves, num cabeço isolado sobre o vale.
  • O povo chama-lhe também «Castelo dos Mouros».
  • As escavações (do fim dos anos 1960 a 1989) encontraram sobretudo cerâmica medieval. Não há notícia de tesouros.
  • Está classificado como Imóvel de Interesse Público desde 1986.

É um bom exemplo de como a lista do livro escolhia lugares que o povo já achava misteriosos — ruínas, castros, penedos — e lhes dava a promessa de riqueza.

➜ Trás-os-Montes: tradições mágicas

Porque é que o ouro vira carvão

Os folcloristas leem estas lendas de várias maneiras. Algumas leituras ajudam a percebê-las:

  • Explicar as ruínas. Antas, castros e minas romanas eram obra de gente desconhecida. Atribuí-las aos «mouros» e aos seus tesouros dava-lhes uma história.
  • Explicar os achados reais. Ao lavrar, apareciam às vezes moedas antigas ou machados de pedra. A lenda tornava esses achados plausíveis.
  • Ensinar uma moral. Quem é ganancioso, fala de mais ou olha para trás perde tudo. O tesouro só se dá a quem é discreto e generoso.

São interpretações de estudiosos, não factos provados sobre a origem de cada lenda.

A realidade: buracos, monumentos estragados e a lei

A procura de tesouros não ficou nos livros. Muitas antas e mamoas portuguesas têm o interior revolvido por escavações antigas, feitas muito antes dos arqueólogos. A tradição local atribui muitas dessas violações a quem procurava o «ouro dos mouros».

Hoje, a lei é clara:

O que diz a lei Em resumo
Código Civil, art. 1324.º Um tesouro (coisa móvel de valor, escondida, sem dono conhecido) é metade de quem o acha e metade do dono do terreno; o achado deve ser comunicado
Lei 107/2001 (património cultural) Os vestígios arqueológicos pertencem ao Estado; um achado deve ser comunicado às autoridades
Lei 121/99 O uso de detetores de metais para procurar objetos históricos ou arqueológicos depende de autorização prévia

Ou seja: cavar num castro ou numa anta é crime, mesmo com um livro de São Cipriano na mão. A melhor forma de respeitar estas lendas é conhecê-las e proteger os lugares onde nasceram.

Continue a ler

➜ Fontes, árvores e pedras sagradas em Portugal

➜ São Cipriano e a magia portuguesa

➜ Tradição portuguesa — índice

Fontes

  • Câmara Municipal de Mirandela, «Mouras e Tesouros Encantados» (a partir do Abade de Baçal) — cm-mirandela.pt
  • Modesto Rodríguez Figueiredo, «Do Libro de San Ciprián e do Castelo de Mau Vizinho», Trabalhos de Antropologia e Etnologia, 1973 — PDF
  • O Grande Livro de São Cipriano ou O Tesouro do Feiticeiro, Nascente, 2024 — excerto com índice (PDF)
  • «Castle of Mau Vizinho (Vila Real)», Wikipedia — en.wikipedia.org
  • Alexandre Parafita, A Mitologia dos Mouros, Gailivro, 2006 (e o seu estudo Mouros míticos em Trás-os-Montes); e «Encontrou ouro em obras? A lei diz quem fica com ele», Idealista, 2026 — idealista.pt

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