Em quase todas as aldeias de Portugal há um penedo, uma fonte ou um castro onde «está um tesouro». Quase sempre foi deixado pelos mouros, quase sempre está encantado e quase sempre ninguém o conseguiu tirar.
Esta página trata dos tesouros em si: como as lendas os descrevem, como os livros de São Cipriano os transformaram em listas de lugares e o que aconteceu quando as pessoas foram de facto cavar.
As mouras que os guardam têm página própria, tal como o Ciprianillo galego. Aqui não repetimos essas histórias.
O que é um «tesouro encantado»
Na tradição popular, um tesouro encantado não é apenas ouro enterrado. É ouro preso por um encanto: só aparece a quem cumprir certas condições, no dia certo, com as palavras certas.
Os motivos repetem-se de norte a sul:
- Panelas de ouro enterradas junto a fontes, penedos ou capelas.
- A galinha com pintainhos de ouro, que aparece e desaparece.
- Um «menino de ouro» ou figuras de ouro escondidas.
- Carvão, figos ou pedras que, se guardados com fé e segredo, se transformariam em ouro (ou o contrário).
- Um guardião: moura, serpente, cavaleiro, cabra ou animal estranho.
O investigador Alexandre Parafita, no seu estudo sobre os mouros míticos de Trás-os-Montes, identifica nelas momentos «propícios» (entre eles o São João), atitudes exigidas (coragem e segredo) e a presença do Livro de São Cipriano como saber mágico associado.
Isto é folclore. São narrativas, não relatos de achados.
➜ Noite de São João em Portugal
Um exemplo bem documentado: as listas do Abade de Baçal
O padre Francisco Manuel Alves, o Abade de Baçal, registou nas suas Memórias Arqueológico-Históricas do Distrito de Bragança os sítios de tesouros e encantos que o povo apontava em cada freguesia.
Só para o concelho de Mirandela, o município cita, a partir dele, lugares como:
| Lugar | O que se contava |
|---|---|
| Fraga da Moura (Aguieiras) | Uma gruta com encanto |
| Fonte do Paço (Navalho) | Panelas de ouro… e outras de peste |
| Eixido (Navalho) | Um menino de ouro |
| São Brás (Torre de D. Chama) | Duas panelas |
| Alto da Marra (Vale de Gouvinhas) | Um cavaleiro gigante de cavalo branco, à meia-noite |
O pormenor das «panelas de peste» é típico: ao lado do ouro estaria enterrado um mal. Quem abrisse a panela errada soltava a doença sobre a terra. Era uma forma de pôr medo a quem cavasse sem saber.
Do conto ao «roteiro»: o Livro de São Cipriano
A grande mudança deu-se quando estas crenças passaram a ser impressas. As edições portuguesas do Livro de São Cipriano trazem um capítulo inteiro sobre o «Desencanto dos Tesouros».
Segundo o índice de uma edição atual do Grande Livro de São Cipriano, esse capítulo inclui:
- uma «oração e esconjuração para se desencantarem os tesouros»;
- os «lugares onde existem os encantos»;
- mais à frente, os «Tesouros da Galiza», um «triângulo para o desencanto» e uma «relação dos tesouros e encantos».
Ou seja: o livro funciona como um roteiro, uma lista de sítios concretos com indicações do tipo «ao nascer do Sol, debaixo do penedo, a tantos passos do castelo». Descrevemos o conteúdo; não reproduzimos fórmulas nem há qualquer prova de que alguém tenha encontrado algo com elas.
➜ Estrutura do Livro de São Cipriano
Um caso português: o Castelo de Mau Vizinho
O investigador galego Modesto Rodríguez Figueiredo estudou, num artigo publicado em 1973 na revista portuguesa Trabalhos de Antropologia e Etnologia, uma lista de tesouros do Libro de San Ciprián que inclui sítios em Portugal.
Um deles aparece várias vezes: o Castelo de Mau Vizinho. A lista promete ouro, prata e moedas em vários pontos do lugar, com distâncias em passos e marcas na pedra, como «uma mão pintada».
O que se sabe do sítio é outra coisa:
- Fica na freguesia de Cimo de Vila da Castanheira, concelho de Chaves, num cabeço isolado sobre o vale.
- O povo chama-lhe também «Castelo dos Mouros».
- As escavações (do fim dos anos 1960 a 1989) encontraram sobretudo cerâmica medieval. Não há notícia de tesouros.
- Está classificado como Imóvel de Interesse Público desde 1986.
É um bom exemplo de como a lista do livro escolhia lugares que o povo já achava misteriosos — ruínas, castros, penedos — e lhes dava a promessa de riqueza.
➜ Trás-os-Montes: tradições mágicas
Porque é que o ouro vira carvão
Os folcloristas leem estas lendas de várias maneiras. Algumas leituras ajudam a percebê-las:
- Explicar as ruínas. Antas, castros e minas romanas eram obra de gente desconhecida. Atribuí-las aos «mouros» e aos seus tesouros dava-lhes uma história.
- Explicar os achados reais. Ao lavrar, apareciam às vezes moedas antigas ou machados de pedra. A lenda tornava esses achados plausíveis.
- Ensinar uma moral. Quem é ganancioso, fala de mais ou olha para trás perde tudo. O tesouro só se dá a quem é discreto e generoso.
São interpretações de estudiosos, não factos provados sobre a origem de cada lenda.
A realidade: buracos, monumentos estragados e a lei
A procura de tesouros não ficou nos livros. Muitas antas e mamoas portuguesas têm o interior revolvido por escavações antigas, feitas muito antes dos arqueólogos. A tradição local atribui muitas dessas violações a quem procurava o «ouro dos mouros».
Hoje, a lei é clara:
| O que diz a lei | Em resumo |
|---|---|
| Código Civil, art. 1324.º | Um tesouro (coisa móvel de valor, escondida, sem dono conhecido) é metade de quem o acha e metade do dono do terreno; o achado deve ser comunicado |
| Lei 107/2001 (património cultural) | Os vestígios arqueológicos pertencem ao Estado; um achado deve ser comunicado às autoridades |
| Lei 121/99 | O uso de detetores de metais para procurar objetos históricos ou arqueológicos depende de autorização prévia |
Ou seja: cavar num castro ou numa anta é crime, mesmo com um livro de São Cipriano na mão. A melhor forma de respeitar estas lendas é conhecê-las e proteger os lugares onde nasceram.
Continue a ler
➜ Fontes, árvores e pedras sagradas em Portugal
➜ São Cipriano e a magia portuguesa
➜ Tradição portuguesa — índice
Fontes
- Câmara Municipal de Mirandela, «Mouras e Tesouros Encantados» (a partir do Abade de Baçal) — cm-mirandela.pt
- Modesto Rodríguez Figueiredo, «Do Libro de San Ciprián e do Castelo de Mau Vizinho», Trabalhos de Antropologia e Etnologia, 1973 — PDF
- O Grande Livro de São Cipriano ou O Tesouro do Feiticeiro, Nascente, 2024 — excerto com índice (PDF)
- «Castle of Mau Vizinho (Vila Real)», Wikipedia — en.wikipedia.org
- Alexandre Parafita, A Mitologia dos Mouros, Gailivro, 2006 (e o seu estudo Mouros míticos em Trás-os-Montes); e «Encontrou ouro em obras? A lei diz quem fica com ele», Idealista, 2026 — idealista.pt