Saltar para o conteúdo

🏺 Tradição Portuguesa

Superstições portuguesas: o que está registado e o que só se diz

Superstições portuguesas por temas (casa, mesa, casamento, crianças, animais, dias, morte), com o que registaram Leite de Vasconcelos e outros, e o que só circula online.

6 min de leitura · Revisto em
Neste artigo
  1. Uma palavra e uma história longa
  2. A casa
  3. A mesa
  4. Namoro e casamento
  5. Gravidez e crianças
  6. Animais
  7. Dias e números
  8. A morte
  9. O que só circula (sem fonte encontrada)
  10. Continue a ler
  11. Fontes

Abrir o guarda-chuva dentro de casa, entornar o sal, ouvir o mocho piar de noite. Todos conhecemos superstições portuguesas. Mas quais são mesmo antigas e quais chegaram há pouco, pela televisão ou pela internet?

Esta página organiza as superstições por temas. Para cada uma indicamos, quando existe, quem a registou e onde. A fonte principal são as Tradições Populares de Portugal (1882), de José Leite de Vasconcelos, que recolheu estas crenças da boca do povo, sobretudo no Norte.

No fim, uma lista das superstições muito repetidas cuja origem não conseguimos documentar.

Uma palavra e uma história longa

Superstição vem do latim superstitio. Para os romanos, era o excesso de temor religioso, por oposição à religio, o culto devido.

Em Portugal, o retrato mais antigo das crenças populares é do século VI: o sermão De correctione rusticorum, de São Martinho de Dume, que condena quem acende velas em fontes e encruzilhadas, quem se guia pelo canto das aves e pelos espirros e quem escolhe o dia de Vénus (a sexta-feira) para casar.

➜ São Martinho de Dume e as superstições dos camponeses

No século XIX, três estudiosos começaram a recolher sistematicamente estas crenças: Leite de Vasconcelos, Consiglieri Pedroso (que publicou «Superstições populares» na revista O Positivismo, em 1881–1882) e Adolfo Coelho («As superstições portuguesas», 1883).

A casa

  • Sal no lume: quando um agouro assusta, deita-se sal no lume e fica-se descansado (registado por Leite de Vasconcelos).
  • Vidros que estalam: em Gaia dizia-se que estalavam por efeito de «maus olhados».
  • A cruz no forno: as portas dos fornos tinham geralmente uma cruz esculpida, e muitas vezes outra na parede, por cima.
  • A ferradura na porta: «para livrar das bruxas ou do mau-olhado» (Consiglieri Pedroso, 1882, citado por Hernâni Matos). Em Guimarães, Luís de Pina registou em 1928 a ferradura, o sino-saimão, as figas e as cruzes entre os amuletos contra as bruxas.

➜ O signo-saimão

A mesa

  • Treze à mesa: a crença de que, se treze pessoas se sentarem à mesa, uma morre dentro de um ano, está documentada na Europa desde 1774. A explicação pela Última Ceia (Jesus e os doze) é desse mesmo ano. A história de Loki como «13.º convidado» é uma invenção moderna: não está nos textos nórdicos antigos.
  • Sal entornado: é comum em toda a Europa. No quadro A Última Ceia de Leonardo da Vinci, Judas derruba um saleiro, imagem que se liga à expressão oriental «trair o sal». Não encontrámos registo da origem da crença em Portugal.

Namoro e casamento

Leite de Vasconcelos recolheu muitos sinais de casamento próximo:

  • sonhar com cavalos, com um boi ou com cerejas;
  • uma vaca que berra é sinal de casamento na terra; um boi que berra à porta de uma casa com raparigas anuncia casamento;
  • na igreja, a vela do altar mais apagada do lado de um dos noivos indicava qual morreria primeiro;
  • na noite de núpcias, quem apagasse a luz primeiro morreria primeiro.

Gravidez e crianças

É o tema com mais registos. Algumas crenças recolhidas por Leite de Vasconcelos:

  • Espelho e cabelo: se a criança se vir ao espelho ou lhe cortarem o cabelo antes de falar, fica sem fala (Minho).
  • Tesoura aberta no berço: com arruda e alecrim, «para as bruxas as não chuparem» (Minho).
  • Batizado: se a criança não chora durante o batismo, morre cedo (Maia).
  • A roupa: a roupa das crianças não se deve torcer, porque se «torce o crescimento» (Maia).
  • Passar por cima: a criança por cima de quem outra passa não cresce mais, a não ser que a outra passe de volta (Douro).
  • O berço vazio: se o menino embala o berço vazio, «chama» outro irmão (Maia).
  • Os dentes: o dente que cai deita-se para trás das costas, dizendo uma fórmula três vezes (Gaia).
  • O cordão ao pulso: com um vintém de prata, uma conta de azeviche e uma figa, «por causa de cousas más» (Beira Alta, Douro).

➜ O quebranto

➜ Amuletos portugueses

Animais

  • O mocho: o seu piar é agoirento (Estremadura); e o caçador que encontra um mocho «póde crer que não mata nada nesse dia».
  • O cão que uiva: para o agouro ficar sem efeito, descalça-se o pé esquerdo, vira-se a sola para cima e diz-se: «Todo o agoiro / sobre o teu coiro.»
  • O gato: para não fugir de casa, untam-se-lhe as patas com azeite (Gaia).
  • O galo: uma lenda de Penafiel diz que o galo dantes falava. Quando os apóstolos, à mesa, duvidaram que Cristo fosse Deus, Ele respondeu que o era tanto como o galo falar — e o galo disse «Coroado!», que é ainda hoje a sua «língua».

Dias e números

  • A sexta-feira já era escolhida para casar no século VI, como se vê pela condenação de Martinho de Dume. A má fama atual é outra história.
  • Sexta-feira 13: a junção dos dois azares é recente. Há uma referência francesa de 1834 e outra numa biografia de Rossini (1869), mas a popularidade veio sobretudo do romance americano Friday, the Thirteenth (1907).
  • Terça-feira 13: nos países de língua castelhana e na Grécia, o dia de azar é a terça, não a sexta.
  • Os números três, sete e nove repetem-se nas benzeduras e nos remédios populares: rezar três vezes, dar nove voltas à capela.

A morte

  • Agouros: o piar do mocho, o uivo do cão, a vela do altar que se apaga.
  • Crianças não batizadas: em Vila Real chamavam-lhes «moiras» e dizia-se que, se morressem, iam para o limbo.
  • Os excomungados: em Pindela dizia-se que a nuvem muito carregada leva excomungados, que não vão nem para o céu nem para o inferno.

➜ As alminhas

O que só circula (sem fonte encontrada)

Algumas das superstições mais repetidas hoje não as encontrámos nas recolhas que consultámos para esta página. Muitas são comuns a toda a Europa e aos Estados Unidos, e podem ter entrado em Portugal mais tarde. Não quer dizer que sejam falsas como costume, apenas que não sabemos dizer de onde vêm:

Superstição O que podemos dizer
Gato preto a cruzar o caminho Comum na Europa; sem registo português encontrado
Espelho partido dá sete anos de azar Origem não documentada
Abrir o guarda-chuva dentro de casa Origem não documentada
Passar debaixo de uma escada Comum na Europa; sem registo português encontrado
Pão virado ao contrário na mesa Muito dito; sem fonte antiga encontrada

Desconfie de sites que dão a estas crenças origens precisas («vem dos templários», «vem do Egito») sem indicar fonte.

Continue a ler

➜ Benzedeiras e rezadeiras em Portugal

➜ Minho: bruxaria e superstições

➜ Enguiço: o que é na tradição portuguesa

Fontes

  • José Leite de Vasconcelos, Tradições Populares de Portugal, Porto, 1882 — archive.org
  • Consiglieri Pedroso, Contribuições para uma Mitologia Popular Portuguesa e Outros Escritos Etnográficos, org. João Leal, 1988 — run.unl.pt
  • Luís de Pina, «Bruxas e medicina (folclore de Guimarães)», Trabalhos de Antropologia e Etnologia, 1928 — PDF
  • «Triskaidekaphobia» e «Friday the 13th», Wikipedia — en.wikipedia.org
  • Adolfo Coelho, «As superstições portuguesas», Revista Científica, ano I, 1883.

A minha nota

Escreva aqui as suas anotações. Ficam guardadas só neste dispositivo — não são enviadas para nenhum servidor.

Continue a explorar

Ver tudo em Tradição Portuguesa ›